Críticas por Pablo Villaça

Poster: À Espera de um Milagre
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
10/03/2000 10/12/1999
Distribuidora

 

 


À Espera de um Milagre
The Green Mile

À Espera de um Milagre

Dirigido por Frank Darabont. Com: Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse, James Cromwell, Graham Greene, Michael Jeter, Sam Rockwell, Doug Hutchison, Harry Dean Stanton, Barry Pepper, Bonnie Hunt, Dabbs Greer.

De vez em quando isso acontece: um filme vai desenrolando sua história aos poucos, com calma, em um ritmo lento e cuidadoso. Porém, ao invés de se sentir inquieto ou entediado, você se envolve com a trama de tal maneira que, ao final, sente como se conhecesse todos aqueles personagens intimamente. E sente por eles. À Espera de um Milagre é um destes filmes - e o silêncio que invade o cinema quando as luzes se acendem, ao final da projeção, é uma prova clara disso.

Baseado em uma história publicada em seis capítulos por Stephen King, o roteiro conta a história de John Coffey, um gigante de olhos bondosos que foi condenado por assassinar cruelmente duas garotinhas e enviado para o corredor da morte para ser eletrocutado. Na `milha verde` (nome dado ao corredor em função de seu chão cor-de-lima), Coffey altera a existência de seus carcereiros e até mesmo dos prisioneiros com quem divide o triste `bloco E`. Ah, sim: na verdade, o filme é protagonizado pelo personagem Paul Edgecombe, interpretado por Tom Hanks, mas é o trágico Coffey que permanece em nossas mentes, indelével, quando a história chega ao fim.

Não que isso deponha contra o trabalho de Hanks. Na verdade, sua atuação em À Espera de um Milagre é excepcionalmente boa, como sempre. A sensibilidade e a gentileza de seu personagem são fundamentais para que possamos nos relacionar com o condenado à morte, e o fato deste ser mais `marcante` é a prova máxima de um trabalho bem realizado por parte de todo o elenco e do diretor Frank Darabont, que também comandou o maravilhoso Um Sonho de Liberdade (também baseado em história de Stephen King).

O maior mérito da adaptação de Darabont é a calma com que este desenvolve as situações. Na verdade, a primeira hora de projeção se passa sem que algo realmente relevante aconteça, a não ser as conversas e o estabelecimento do caráter dos personagens e do relacionamento entre estes. Porém, quando a verdadeira natureza de John Coffey (que não vamos revelar aqui) é finalmente desvendada, a platéia reage a ela com surpresa maior do que o esperado. Da mesma forma, o roteirista/diretor é habilidoso ao mesclar momentos de brutal tensão com outros de alívio cômico sem abandonar a trama. Nada em À Espera de um Milagre acontece gratuitamente: até mesmo as gracinhas de um adorável ratinho são importantes para a história.

Outro fato interessante é o contraste existente entre o temperamento dos carcereiros da `milha verde` e o dos que cuidavam do pavilhão de prisioneiros em Um Sonho de Liberdade: enquanto estes eram homens frios e cruéis que não hesitavam em abusar da autoridade, os primeiros são pessoas gentis e sensíveis que procuram manter os condenados calmos, como se trabalhassem em uma UTI. Eles não se interessam pelo passado dos homens que deverão executar, pois sabem que a `Velha Faísca` (apelido dado à cadeira elétrica) acertará suas contas com a sociedade. Com isso, sem julgamentos ou preconceitos, são capazes de estabelecer uma relação cortês, quase amável, com os encarcerados. E mais: nenhum deles parece condenar a pena-de-morte - simplesmente a encaram de forma filosófica.

O filme, porém, não oferece concessões: é praticamente impossível assistir às cruéis execuções de À Espera de um Milagre sem nos darmos conta de como o processo é estúpido e sem sentido (mesmo nos dias de hoje, em que a injeção letal torna a punição menos grotesca, mas não menos absurda). A morte do personagem de Delacroix (Michael Jeter), então, dificilmente será esquecida por quem assistir ao filme. Em retrospecto, até mesmo a execução do condenado vivido por Graham Greene (com quem não estabelecemos nenhuma ligação, já que ocorre no início da história) impressiona.

Com relação ao elenco, somente elogios podem ser feitos: do companheirismo de Bonnie Hunt até a vilania de Doug Hutchison, todos os atores encontram o tom perfeito para seus personagens. E se já poderíamos esperar boas atuações de David Morse (que merecia ser mais conhecido pelo grande público), James Cromwell e Harry Dean Stanton (hilário como o lunático Toot-Toot), a grande surpresa do filme reside no excepcional desempenho de Michael Clarke Duncan, como John Coffey. É impressionante como um homem de sua estatura e massa corporal consegue transmitir tamanha vulnerabilidade e gentileza - e é fantástico o contraste existente entre a bondade de seu gigante e a maldade do diminuto Percy.

À Espera de um Milagre mexe com nossos sentimentos de tal forma que é compreensível que tentemos analisá-lo mais a fundo do que muitos esperariam. Por exemplo: teria Stephen King imaginado John Coffey como uma espécie de mártir enviado pelos Céus para morrer em nossas mãos, numa espécie de parábola compatível com a história de Cristo? As iniciais são as mesmas, e ambos os sobrenomes possuem o mesmo número de letras. Além disso, o `dom` de Coffey é o mesmo atribuído a vários milagres realizados por Jesus, sendo que os dois sofrem em função da incompreensão dos homens com relação à sua natureza. E mais: por que o condenado não se lembra de seu passado? De onde vieram as cicatrizes (condizentes com açoite)? Em certo momento, o personagem vivido por Gary Sinise chega a dizer: `Parece que ele caiu do céu`. Talvez eu esteja exagerando em minhas interpretações, mas o simples fato de o fazer confere ainda mais crédito ao filme.

Apesar de sua longa duração (188 minutos), À Espera de um Milagre é tão magnético que dificilmente percebemos a passagem das horas. E mesmo quando a história chega ao fim e as luzes se acendem, você sente que, de certa forma, o filme permanecerá com você por muito mais tempo.
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4 de Março de 2000

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.