Críticas por Pablo Villaça

Poster: Beleza Americana
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
25/02/2000 Unknown
Distribuidora

 

 


Beleza Americana
American Beauty

Beleza Americana

Dirigido por Sam Mendes. Com: Kevin Spacey, Annette Bening, Chris Cooper, Thora Birch, Mena Suvari, Wes Bentley, Scott Bakula e Sam Robards.

Beleza Americana é uma crônica sobre pessoas comuns vivendo dramas relativamente comuns e que, de certa forma, acabam chegando à conclusões igualmente comuns. Talvez seja justamente este o segredo do filme que, ao final da projeção, consegue nos levar a emoções curiosamente intensas: o fato de sua mensagem ser universal. Como evitar a identificação com um homem tão normal quanto o interpretado por Kevin Spacey?

Quando Beleza Americana tem início, estamos sobrevoando um bairro de classe média localizado em algum subúrbio americano. À medida em que vamos nos aproximando da casa dos Burnham, no entanto, somos informados por uma voz: `Meu nome é Lester Burnham. Esta é minha vizinhança e esta é minha casa. Tenho 42 anos de idade. Em menos de um ano estarei morto. É claro que ainda não sei disso. De certa maneira, eu já morri`. Uma introdução surpreendente, sem dúvida. E vital para a história: ao sermos informados do destino do protagonista com tamanha antecedência, seus pequenos dramas ganham novas dimensões. Nós sabemos que, de certa forma, ele já perdeu a guerra por sua realização - ou não?

O fato é que Lester é infeliz. Ignorado por sua esposa e por sua filha, ele trabalha há mais de uma década em uma revista que o confina à servidão eterna e à traição de todos os seus sonhos de juventude. Uma existência em que `Sim, senhor` é uma expressão tão comum quanto `Desculpe-me`. É quando toda a sua percepção é alterada por uma magnífica visão: Angela, a amiga adolescente de sua filha. Arrebatado por esta nova paixão, Lester desperta do `coma` em que esteve mergulhado por anos e decide se dar uma nova chance. Seus objetivos são humildes: ele não quer ser rico ou eleger-se Presidente. Ele quer apenas se respeitar e ser feliz.

Como não se deixar comover por um propósito tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo? Inicialmente um sujeito derrotado que não consegue sequer expressar em voz alta suas opiniões, Lester vai recuperando a auto-estima através de pequenas vitórias. Certa noite, por exemplo, ele tem uma discussão com a esposa e consegue, depois de anos, dizer o que realmente pensa. Seu imenso sorriso logo após a briga evidencia a importância daquela aparentemente ridícula situação. E sua frase seguinte é uma pequena pérola de sabedoria do homem comum: `É muito bom perceber que ainda temos a habilidade de surpreender a nós mesmos`.

Mas o belo roteiro de Alan Ball não se resume a uma crise de meia-idade: a história é uma pequena metralhadora giratória que não se preocupa em poupar alguns dos mais arraigados valores do american way of life (e de qualquer civilização razoavelmente industrializada - leia-se: dedicada ao consumo). Dos vizinhos gays (aparentemente os mais equilibrados do filme) à família que vive ao lado dos Burnham, todos têm algo a ocultar: a grande verdade é que manter as aparências é uma arte a qual todos nos dedicamos - e o filme, por sua vez, dedica-se a expor esta pequena hipocrisia que já virou regra no mundo de hoje.

Kevin Spacey, porém, é o grande responsável pelo sucesso de Beleza Americana: não há um único momento em que a `saga` de Lester soa falsamente - apesar do absurdo de algumas situações. Sua letargia inicial é convincentemente substituída por um cinismo hilariante, para finalmente ceder espaço à serenidade absoluta. A expressão no rosto do ator quando a adolescente Angela lhe revela que sua filha está amando representa, por si só, um dos momentos mais tocantes já vistos no cinema em anos. Quando ele finalmente diz `Bom para ela`, o último movimento de sua transformação opera-se: Lester enfim percebe que a felicidade sempre esteve ao seu alcance - sua frustração é que o impedia de conscientizar-se disso.

Chris Cooper, como o frio Coronel Fitts, também merece destaque. A aparente unidimensionalidade de seu personagem acaba revelando-se como uma inteligente máscara da verdadeira complexidade de seus sentimentos. Além disso, o estreante Wes Bentley surpreende ao retratar um jovem cuja aparente loucura é mero disfarce para sua alma de poeta. Já Annette Bening faz um trabalho irregular, alternando momentos de maior seriedade com outros que beiram o caricatural. Se Carolyn Burnham fosse um pouco mais real, o drama de Lester com certeza seria melhor acentuado.

Outra pequena decepção de Beleza Americana é seu final - e não estou me referindo ao comovente discurso de Kevin Spacey, capaz de levar qualquer um às lágrimas. Na verdade, frustrante é perceber (mais uma vez) como Hollywood se vende fácil. O fato é que a conclusão original prevista pelo roteiro era muito mais forte do que o visto no filme. O destino de Ricky, Jane, Carolyn e Kane (o corretor de imóveis) deixava claro que ainda vivíamos em um mundo de cínicos, onde a beleza do cotidiano sempre encontrará barreiras para atingir os olhos da maioria. E esta constatação realçava ainda mais a maravilhosa redenção de Lester, que ao perder a vida encontrava finalmente a riqueza - além de tornar a frase final, `Um dia você saberá`, ainda mais forte.

Porém, o que vemos no filme é Carolyn se abraçando às roupas do marido, e esta simples cena é uma completa traição de tudo o que o roteiro pregou nas duas horas anteriores.
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29 de Fevereiro de 2000

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.