Críticas por Pablo Villaça

Poster: Clube da Luta
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/10/1999 15/10/1999
Distribuidora

 

 


Clube da Luta
Fight Club

Clube da Luta

Dirigido por David Fincher. Com: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf.

É bem provável que nos próximos anos alguns malucos responsabilizem Clube da Luta por suas atitudes criminosas, assim como o que aconteceu com Assassinos por Natureza, de Oliver Stone*. Não que este filme incite ao vandalismo ou à violência, mas é assim que as mentes mais precipitadas - ou com tendência à destruição - podem encará-lo.

Porém, não restam dúvidas de que filmes como o de David Fincher são perigosos. Excepcionalmente perigosos. Ou talvez apenas excepcionais. Eles nos levam a tantas reflexões e são tão repletos de idéias e argumentos que, ao final da projeção, a cabeça do espectador está fervilhando de pensamentos. E suas retinas, de imagens alucinantes. E é justamente aí que estes filmes tornam-se perigosos: uma análise superficial tende a apresentá-los como revolucionários (pejorativamente falando), como verdadeiras apologias à total insurreição social. Mas só na superfície.

Na verdade, a grande virtude de Clube da Luta e Assassinos por Natureza é a capacidade que ambos têm de traçar um painel crítico dos vícios de nossa sociedade, questionando a corrupção de nossos valores e expondo nossas futilidades - não com um objetivo destrutivo (erro de julgamento cometido pelos malucos de plantão), mas sim com o intuito de tentar promover válidas discussões sobre nossos ideais. Em outras palavras: analisar nosso mundo como Kafka fez em obras como A Metamorfose e O Processo (pensando nisso, consigo ver claramente Edward Norton como Gregor Samsa e Brad Pitt como o sr. Joseph K - este ao menos tentou questionar o sistema).

Tomemos Assassinos por Natureza novamente como exemplo: o libelo de Oliver Stone contra a massificação e superexposição da violência na mídia foi tomado, paradoxalmente, como sendo a glorificação das mesmas. Da mesma forma, é perigoso que Clube da Luta venha a ser tomado como um verdadeiro chamado da Geração X às armas sob os gritos de `Abaixo o sistema financeiro!` ou algo que o valha.

Mas não é bem assim. O filme, inspirado no livro de Chuck Palahniuk, é um retrato perturbador da inquietação do homem moderno, que, a cada novo dia, percebe estar aquém das metas e dos ideais de realização estabelecidos por ele mesmo e pela sociedade em que vive. É o perfil do jovem adulto que finalmente se dá conta de que não ganhará a corrida cujas regras definiu. Em resumo: é o medo e sentimento de insatisfação que abatem-se sobre aqueles que percebem (e que se importam com o fato de) que não serão milionários, famosos, e que jamais se casarão com a Tiazinha (ou com qualquer outro padrão de beleza vigente na época).

É, talvez, um painel do pânico que surge quando o jovem (que `tudo pode`) descobre estar tornando-se seu pai (a realidade, o limite), constatando que seu nome não estará nos livros de História. É o inconformismo, a angústia, o anseio, a inquietação, o medo. Clube da Luta é, sim, um protesto contra a desistência, contra o `ir com a maré`. E - o que é mais interessante - ao mesmo tempo ele está dizendo: `Ei, está tudo bem... Você não está sozinho. Sua vida tem valor. A (auto) rebelião também é perigosa`.

Há, sem dúvida, um incrível senso de liberdade nos golpes desferidos pelos membros do Clube da Luta - e não se trata apenas de uma questão de `descarregar a tensão`. É mais do que isso: as cicatrizes são, também, um brado de desafio e, ao mesmo tempo, a auto-imposição de uma punição pela passividade.

Ou, talvez, Clube da Luta seja apenas um filme soberbamente dirigido a partir de um roteiro instigante e que conta, ainda, com maravilhosas atuações de Brad Pitt (que deveria trabalhar somente com David Fincher) e Edward Norton (o maior talento que surgiu nos EUA, nos últimos anos).

Seja como for, o fato é que este é um daqueles filmes que merecem ser amplamente debatidos em todos os lugares: listas-de-discussão na Internet, mesas de bar, rodas de cinéfilos, salas-de-aula, e por aí afora. Restará decidir apenas qual dos inúmeros tópicos abordados pelo filme deverá ser discutido.

Quando o Cinema pensa (Hollywood, em especial), é sempre uma grande - e grata - surpresa.

* Nota: esta crítica foi publicada dez dias antes do notório tiroteio promovido por um estudante de medicina em um cinema de São Paulo. Clube da Luta foi responsabilizado em parte pela tragédia e sua censura foi aumentada para 18 anos.
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1 de Novembro de 1999

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.