Críticas por Pablo Villaça

Poster: Debi e Lóide - Dois Idiotas em Apuros
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/02/1995 16/12/1994
Distribuidora

 

 


Debi e Lóide - Dois Idiotas em Apuros
Dumb and Dumber

Debi e Lóide - Dois Idiotas em Apuros

Dirigido por Peter Farrelly. Com Jim Carrey, Jeff Daniels, Lauren Holly, Teri Garr, Mike Starr, Charles Rocket, Victoria Rowell e Cam Neely.

Não há gênero mais difícil para se analisar em uma crítica do que a comédia, já que o senso de humor é algo que varia incrivelmente de pessoa para pessoa. Muitas vezes, uma determinada situação capaz de levar um espectador às gargalhadas provocará apenas indiferença em outro. Em outras palavras: apesar de me fazer rir incontrolavelmente em várias de suas cenas, certamente Débi & Lóide possui uma infinidade de "detratores" que não conseguem achar a menor graça em suas piadas.

Curiosamente, lembro-me perfeitamente de acreditar que odiaria este filme. Estávamos em 1995 e, na época, eu escrevia uma coluna sobre cinema para um grande BBS (Bulletin Board System, precursor dos provedores de acesso atuais). Quando Débi & Lóide foi lançado, vários usuários do sistema enviaram-me mensagens solicitando minha opinião sobre esta comédia que, confesso, não tinha a menor intenção de assistir (eu havia sido apresentado ao trabalho de Jim Carrey em O Máskara e não gostara nada do que vira). Além disso, o título do filme não me animava nem um pouco (tanto no original quanto em sua versão brasileira). Contrafeito, peguei meu bloco de anotações e me dirigi ao cinema certo de que não encontraria palavras gentis para esta produção.

Como estava enganado. Para meu próprio espanto, assim que Carrey apareceu em cena confundindo a nacionalidade da garota no ponto de ônibus, dei minha primeira risada - e não parei mais. Cinco anos já se passaram desde aquela noite e hoje, assistindo ao filme de estréia dos irmãos Farrelly pela segunda vez, descobri que ele ainda me faz gargalhar. Devo confessar, no entanto, que não é nada fácil vir a público para conferir `cinco estrelas` a uma produção como esta (é bem mais "cômodo" elogiar um humor inteligente como o do Monty Python ou anárquico como o dos irmãos Marx). Porém, o crítico que não tiver coragem de expressas suas opiniões - por mais polêmicas que estas sejam - deve aposentar a caneta (ou o teclado). Assim sendo, passo a explicitar as razões que me levam a considerar Débi & Lóide uma das grandes comédias dos anos 90:

Antes de qualquer coisa, o filme conta com uma dupla de protagonistas absolutamente encantadora: Harry Dunne (Jeff Daniels) e Lloyd Christmas (Jim Carrey) não são apenas dois sujeitos incrivelmente estúpidos (embora esta seja sua característica mais marcante) - há algo de comovente na ingenuidade infantil dos dois amigos. Como não gostar de um sujeito que, ao ser indagado sobre a distância percorrida em uma viagem, consulta o mapa e responde: "De acordo com este mapa, só andamos dez centímetros"? Sim, é um humor óbvio que provavelmente falharia em dezenas de outros filmes, só funcionando aqui em função da simpatia de seus personagens. Harry e Lloyd são como duas grandes crianças que não reconhecem os limites impostos pela vida em sociedade ("Quer ouvir o som mais chato do mundo?", pergunta Lloyd a um estranho segundos antes de berrar em seus ouvidos). Sua noção da realidade se baseia em uma existência completamente singular, já que ambos dividem um apartamento no qual criam minhocas que pretendem vender em um negócio futuro. Para pessoas como estas (que funcionam maravilhosamente na ficção, mas que, na vida real, seriam rapidamente enviadas para um hospital psiquiátrico), nada mais natural do que tentar lamber um suporte de metal congelado (prendendo a língua) ou - naquela que é uma das melhores piadas do filme - vender um periquito sem cabeça para um garotinho cego.

"Horrível!" - provavelmente é isto o que muitos pensam a respeito de uma tirada como esta, já que o humor negro possui uma quantidade mínima de admiradores (é preciso esquecer completamente o conceito de "politicamente correto" para rir de algo assim. A maior prova disso é que fui a única pessoa no cinema a gargalhar ao ver o garotinho dizendo "Canta, passarinho... Canta..."). E é justamente a coragem presente no roteiro dos irmãos Peter e Bob Farrelly que deve ser apreciada, já que tentar fazer com que os espectadores deixem de lado seus códigos morais é tarefa complicada - sendo novamente realizada nos trabalhos seguintes da dupla, Kingpin - Estes Loucos Reis do Boliche (que merecia ser mais visto) e Quem Vai Ficar Com Mary?.

Porém, não satisfeitos em provocar o riso a partir da infelicidade alheia, os Farrelly ainda abusam de piadas que deram um novo sentido ao termo "escatológico": da urina ingerida pelo desavisado policial à assustadora cena em que Harry sofre os efeitos provocados por um vidro de laxante, os roteiristas parecem tentar descobrir qual é o limite do "aceitável" para seus espectadores. Surpreendentemente, eles conseguem se safar com grande desembaraço.

Embalado por uma deliciosa trilha sonora, Débi & Lóide conta, ainda, com atuações mais do que inspiradas de seus protagonistas: Daniels e Carrey estabelecem uma química invejável em cena. Este último, vale dizer, cria um tipo claramente baseado na persona cinematográfica de Jerry Lewis, recuperando seus trejeitos, suas caretas e até mesmo seu corte de cabelo. Lloyd é, provavelmente, o mais infantil e sonhador dos dois: sua meta é simplesmente ser aceito por todos, algo que fica evidente na seqüência em que ele imagina ser o centro das atenções de sua amada (lembre-se de Rupert Pupkin, personagem de Robert De Niro em O Rei da Comédia, e imagine-o com um QI cem vezes menor). Já Harry é mais realista, preocupando-se com questões financeiras e amorosas com uma seriedade inalcançável por seu amigo. Isso, no entanto, não o torna mais maduro - e sua reação ao ser atingido por uma bola de neve arremessada por Mary (Lauren Holly) é a maior prova disso (além de representar, para mim, o momento mais engraçado do filme). Esta provavelmente é a maior proeza de Jeff Daniels: enfrentar o talento cômico de Carrey sem se deixar ofuscar. Além disso, os dois atores provavelmente tiveram grande liberdade de improviso durante as gravações, já que o roteiro escrito por Bennett Yellin, Peter e Bob Farrelly é bem diferente do resultado final, apresentando uma dupla mais inteligente - e, conseqüentemente, menos divertida.

Despretensiosamente ingênuo, Débi & Lóide é a maior prova de que um filme nem sempre precisa ter uma trama elaborada para agradar: muitas vezes, basta a espontaneidade de um grupo de pessoas que, sem dúvida alguma, consegue rir das grandes bobagens encontradas no dia-a-dia. E por que não poderíamos fazer o mesmo?
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6 de Julho de 2000

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.