Críticas por Pablo Villaça

Poster: De Olhos Bem Fechados
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
03/09/1999 Unknown
Distribuidora

 

 


De Olhos Bem Fechados
Eyes Wide Shut

De Olhos Bem Fechados

Dirigido por Stanley Kubrick. Com Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Marie Richardson, Leelee Sobieski, Todd Field, Alan Cumming, Thomas Gibson, Rade Serbedzija.

Stanley Kubrick passou mais de três anos trabalhando em De Olhos Bem Fechados, que acabou se tornando seu último filme. Foi uma boa forma de se despedir: apesar de não se igualar a algumas de suas obras anteriores, como Laranja Mecânica, este filme é tão repleto de significados e tão aberto a interpretações que é praticamente impossível compreendê-lo totalmente sem assisti-lo mais de uma vez.

A história: o Dr. William Harford e sua esposa Alice já estão casados há nove anos quando, certa noite, após uma festa, ela revela que flertou (mas que não consumou a traição) com um oficial da Marinha. Logo, o Dr. William não consegue tirar de sua cabeça imagens de sua esposa e do oficial mantendo relações e, assim, descobre uma variedade de tentações impressionantes, mas assustadoras, que acabam se apresentando a ele durante suas saídas noturnas. Assim como o personagem de Griffin Dunne em Depois de Horas, de Scorsese, o médico interpretado por Tom Cruise envolve-se em uma série de situações singulares que parecem afastá-lo cada vez mais de sua realidade habitual.

Mas o que realmente leva Bill Harford a empreender esta bizarra `jornada erótica` que o levará de encontro a prostitutas e até mesmo a uma mansão na qual acontece uma assustadora orgia? Esta é a pergunta mais intrigante do filme. Afinal de contas, já que sua esposa não chegou a traí-lo realmente, não seria a reação do médico excessiva demais? Ou seria possível que o fato de Alice ter confessado sua atração por outros homens tenha despertado em seu marido um lado que até mesmo ele desconhecia? Será que, ao imaginar sua esposa com o oficial, ele tenha ficado excitado - sendo que esta excitação se manifestaria através de um impulso de vingança (também através do adultério)? Ou - e esta é a possibilidade que me parece mais plausível e interessante - será que o Dr. William Harford estaria usando a confissão de sua esposa como uma mera desculpa para liberar seus próprios instintos sexuais primários? Seria sua raiva um disfarce para sua frustração por saber que Alice era mais honesta do que ele, já que pelo menos ela conseguia admitir que outras pessoas a atraíam?

Qualquer filme capaz de despertar tantas indagações já vale uma conferida. No entanto, De Olhos Bem Fechados não pára por aí. O filme também nos apresenta uma visão bem particular - e interessante - do casamento e da monogamia. O que pesa mais em nossas atitudes: o fato de sermos uma espécie animal (e, teoricamente, com tendência a manter múltiplos parceiros) ou o de vivermos segundo os modelos estabelecidos pela sociedade (mantendo uma relação única e, quiçá, eterna)? Na festa que acontece logo no início do filme, Bill e Alice flertam com outras pessoas como se ainda fossem solteiros. É claro que Stanley Kubrick, sendo um homem-de-família, não poderia deixar de criticar esta atitude de seus personagens - logo na cena seguinte, o casal se abraça em frente ao espelho enquanto a música ao fundo diz `Eles fizeram uma coisa errada`.

O filme ainda encontra tempo para nos surpreender com uma sub-trama que envolve um misterioso grupo que organiza orgias freqüentadas por membros da mais alta sociedade - todos devidamente ocultos por máscaras. Nesta cena, em particular, o filme destila um tom definitivamente `kubrickiano`, da música aos movimentos de câmera, passando pela envolvente luz de Larry Smith. E mesmo então Stanley Kubrick não nos fornece respostas definitivas: a explicação fornecida ao personagem de Tom Cruise sobre tudo o que acontece ali pode ser pura invenção. Não há como saber - e esta é a intenção de Kubrick.

A galeria de personagens de De Olhos Bem Fechados é uma atração à parte. Todos têm seus momentos no filme, mesmo que apareçam por poucos minutos. A jovem Leelee Sobieski, como a filha do estranho comerciante Milich, é um dos grandes destaques. Apesar de praticamente não falar nada em suas poucas aparições, Sobieski consegue transmitir uma energia que só pode ser comparada àquela emanada por Jodie Foster em Taxi Driver (a comparação é inevitável).

Mas grande parte dos créditos devem mesmo ficar para Tom Cruise: sua atuação neste filme é densa, sofrida. Sua peregrinação em busca do alívio (ou da realização sexual, como queiram) é vivida com extrema sinceridade e entrega. Ao mesmo tempo, é comovente ver sua confusão e sua luta para tentar voltar ao seu cotidiano, enquanto tenta compreender aquilo que, como não poderia deixar de ser, é para ele (em última análise, também um homem-de-família) incompreensível. Não é à toa que ele insiste em se identificar como médico para praticamente todos os demais personagens do filme: aquela é sua identidade e ele a quer de volta.

Infelizmente, Nicole Kidman não consegue igualar o trabalho de Cruise. Na verdade, algumas de suas cenas chegam a ser constrangedoramente ruins, como aquela em que tenta passar a impressão de estar bêbada, logo no início do filme, ou aquela em que tem uma crise de risos enquanto conversa com o marido. Já no final do filme Kidman tem alguns bons momentos, mas é só. Depois de um processo de filmagens que demorou 67 semanas, é justo que esperássemos mais de seu trabalho.

A resolução da história também deixa a desejar, já que Kubrick acaba `mastigando` demais a moral da trama para o espectador. O discurso sobre as diferenças e semelhanças entre `sonhar e realizar` é simplório, não fazendo jus à complexidade de todo o restante do roteiro. Seria interessante se ele tivesse deixado algumas lacunas para que o espectador as preenchesse com uma certa independência.

De Olhos Bem Fechados acaba se revelando, assim, um conto moralista demais - mais até do que seus personagens. Talvez não fosse esta a intenção de Kubrick e isto tenha acontecido em função de seu receio de ser incompreendido. Laranja Mecânica (outro filme deste diretor que poderia ter sua temática comparada à de Eyes Wide Shut) também tinha seus momentos de `preconização da moral` - mas pelo menos Kubrick nos deixava perceber isso sozinhos.
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3 de Setembro de 1999

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.