Críticas por Pablo Villaça

Poster: Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/06/1999 19/05/1999
Distribuidora

 

 


Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma
Star Wars: Episode I - The Phantom Menace

Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma

Dirigido por George Lucas. Com: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, Ian McDiarmid, Ray Park, Pernilla August, Terence Stamp, Samuel L. Jackson.


Coloquemos a questão da seguinte maneira: A Ameaça Fantasma é um filme divertido e interessante, mas se este fosse o primeiro episódio da saga Guerra nas Estrelas a chegar aos cinemas, é quase certo que a série não teria alcançado o status e a longevidade que conseguiu nos últimos 20 anos.

 

Visualmente, o filme é um espetáculo. As tomadas aéreas que descortinam as cidades de Naboo, Coruscant e Gunga são maravilhosas, de tirar o fôlego - superando, e muito, as tomadas semelhantes através das quais Tatooine e a Cidade Nebulosa nos foram apresentadas na trilogia original. Aliás, todo o design de produção e a direção de arte de A Ameaça Fantasma são merecedores de um Oscar especial da Academia, assim como os impressionantes efeitos visuais, presentes praticamente em toda a duração do filme. A batalha final, no planeta Naboo, é extremamente real, apesar de ter sido completamente criada em computador - o que, por si só, já é um feito digno de crédito.

 

Infelizmente, o que sobra em estilo, falta em conteúdo. A história deste Episódio 1 é fraca, oferecendo pouco espaço para o desenvolvimento dos personagens. Obi-Wan Kenobi, por exemplo, passa em branco na trama, enquanto que um tempo precioso (e excessivo) é despendido com o aborrecido Jar Jar Binks (cujo pessimismo é, obviamente, uma recriação do papel desempenhado por C-3PO nos Episódio IV, V e VI). Outro personagem que é praticamente ignorado pelo roteiro de George Lucas é o vilão Darth Maul. Assim, ao invés da saga ganhar outro grande vilão para a sua galeria (figurando ao lado de Darth Vader, Jabba the Hutt e Bobba Fett), o que temos é um antagonista fraco, incapaz de despertar o temor ou a ira da platéia.

 

No entanto, este primeiro filme acaba cumprindo relativamente bem a sua função principal, que é a de nos apresentar aos principais elementos de Guerra nas Estrelas. Assim, ficamos conhecendo a origem humilde de Anakin Skywalker; somos levados ao Conselho Jedi e entendemos um pouco de seu funcionamento; descobrimos a explicação sobre o que é a Força (o que, infelizmente, tira um pouco da mágica e do `misticismo` que a cercavam; presenciamos os primeiros encontros entre Obi-Wan e Anakin e entre C-3PO e R2-D2; e, finalmente, somos apresentados à Rainha Amidala e ao Senador Palpatine, que virão a desempenhar papéis importantíssimos nos episódios subseqüentes. Na verdade, é até compreensível que, diante da necessidade de introduzir a platéia a tantos novos elementos, pouco tempo tenha sobrado para o desenvolvimento da trama.

 

Não que a falta de um enredo mais sólido torne o filme cansativo. George Lucas foi inteligente o bastante para permear a história com estonteantes seqüências de ação, o que não permite nunca que o espectador sinta-se entediado. A corrida disputada em Tatooine, por exemplo, é fabulosa (além de ter sido claramente projetada para dar origem a uma série de jogos para computador e outros consoles - fator importantíssimo para a indústria cinematográfica atual, cada vez mais voltada para o comércio de produtos derivados de suas produções).

 

Porém, se Lucas consolida o seu talento para lidar com tomadas recheadas de efeitos visuais, seus créditos como diretor podem ser seriamente questionados quanto à direção de atores. O fato é que praticamente nenhum membro do elenco consegue criar um personagem tão forte quanto aqueles que vimos na trilogia original. Até mesmo o sempre competente Liam Neeson é limitado pela mediocridade do roteiro e da direção de Lucas. Seu Qui-Gon Jinn é interessante, sim, mas não a ponto de fazer com que a platéia realmente se importe com o destino de seu personagem. Enquanto isso, o garotinho Jake Lloyd cumpre relativamente bem sua função, fazendo com que a platéia simpatize-se com ele - o que já é uma grande proeza, se considerarmos que todos já sabem que ele virá a se tornar o maligno Darth Vader, matando Obi-Wan Kenobi no Episódio IV. A única pessoa que merece destaque é Pernilla August, que interpreta a mãe de Anakin. Sua fragilidade, enquanto escrava, e seu amor e confiança, enquanto mãe, representam alguns dos melhores momentos da história.

 

No geral, A Ameaça Fantasma é uma introdução eficiente (apesar de inferior) à saga. O excesso de efeitos visuais acaba distraindo um pouco o espectador, mas isso não é surpresa se considerarmos que o filme original levou à criação da Industrial Light & Magic, uma das maiores empresas de efeitos visuais do planeta. Só nos resta esperar que, nos próximos episódios, George Lucas dê mais de valor ao desenvolvimento da trama do que ao tom de `festa tecnológica` que este primeiro exemplar assumiu. Afinal de contas, a família Skywalker é interessante o bastante para captar nossa atenção sem que precise, para isso, estar cercada por um ambiente praticamente virtual.

 

Observação: depois que os créditos terminam de passar, no final do filme, o som da respiração abafada de Darth Vader pode ser ouvido uma vez, como uma espécie de `aviso` do que vem por aí...

 

24 de Junho de 1999

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.