Críticas por Pablo Villaça

Poster: Poder Absoluto
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/07/2001 14/02/1997
Distribuidora

 

 


Poder Absoluto
Absolute Power

Poder Absoluto

Dirigido por Clint Eastwood. Com : Clint Eastwood, Gene Hackman, Ed Harris, Scott Glenn, Laura Linney, Judy Davis, Dennis Haysbert, E.G. Marshall e Melora Hardin.

Eu gosto de filmes em que o herói se disfarça várias vezes. Eu gosto da direção de Clint Eastwood. Eu gosto de filmes nos quais Eastwood interpreta homens já mais velhos que são obrigados a superar a idade para vencerem os inimigos. Eu gosto de Gene Hackman como vilão. Eu gosto de Ed Harris. Eu gosto de roteiros que envolvam conspirações. Eu não gostei muito de Poder Absoluto.

Clint Eastwood é Luther Whitney, um ladrão já de certa idade que planeja um assalto arriscado que acaba não saindo como o esperado: ele entra na mansão de um velho milionário para roubar jóias e acaba testemunhando o assassinato da esposa deste. O problema é que a mulher foi morta pelo Serviço Secreto, enquanto brigava com o amante - ninguém menos que o Presidente dos EUA. Agora, Luther tem que fugir dos agentes federais, bem como proteger sua filha, uma promotora que se ressente do fato do pai ter passado grande parte de sua juventude preso.

A premissa do filme é forte, porém tem um ponto fraquíssimo no qual, infelizmente, acabei prestando atenção: a faca com a qual a vítima golpeara o Presidente, e no qual este havia tocado, é guardada pela Chefe-de-Estado deste em um saco plástico. Por que? Para quê? Se a faca é a maior prova contra o Presidente, por que colocá-la em um saco plástico que iria conservar suas digitais, ao invés de lavá-la imediatamente para apagar os traços de sua presença ali? Ou, então, por que não apenas enfiá-la na sacola para ser lavada depois? Qual o objetivo de isolá-la? E como a tal faca é o ponto de partida da história, o filme perde a força.

No entanto, Eastwood é um diretor talentoso que sabe contar histórias. Assim, a narrativa vai se desenvolvendo aos poucos, se tornando tensa e nos fazendo importar com o destino do velho ladrão. Seu relacionamento com a filha é, de certa forma, comovente, destacando-se uma cena na qual a garota descobre que o pai acompanhara todos os principais momentos de sua vida de longe, tirando fotos sem que ela o notasse.

Outro ponto forte é a presença de Ed Harris, como um policial inteligentíssimo que assume as investigações do crime. Seus encontros com Clint Eastwood fornecem alguns dos melhores momentos do filme. Aliás, Eastwood também tem uma excelente atuação, ainda mais reforçada pelos figurinos de seu personagem, que lhe conferem uma aparência mais frágil (o que é difícil, considerando-se a compleição do ator). Já Laura Linney repete a fórmula de sua atuação em As Duas Faces do Crime, somente substituindo os conflitos com o ex-namorado pelos conflitos com o pai. O restante do elenco (incluindo os ótimos Gene Hackman e Scott Glenn) está apenas correto, com exceção de Judy Davis, que interpreta a Chefe-de-Estado. Davis está péssima neste filme, no qual conferiu uma caracterização estereotipada à sua personagem.

No entanto, o roteiro continua insistindo em nos desapontar, o que enfraquece muito a história. A cena na qual Eastwood marca um encontro com sua filha na rua, enquanto é observado sob a mira dos rifles de dois assassinos profissionais é tensa e bem armada, criando uma expectativa imensa no espectador. Infelizmente, a resolução da cena é insatisfatória, caindo no vazio.

Aliás, a resolução do próprio filme é fraquíssima e cheia de pontas soltas. Entre outras coisas, não se explica (e não leia o restante deste parágrafo se não tiver visto o filme): quais foram as provas usadas pela Polícia para incriminar e prender a Chefe-de-Estado, já que a única evidência, a faca, foi entregue por Luther ao milionário Sullivan; o `acerto de contas` entre o velho Sullivan e o Presidente é mal elaborado, difícil de se aceitar - afinal, o Presidente é bem mais forte que o já alquebrado Sullivan, que se move com gestos muito lentos para surpreender alguém. Assim sendo, como este encontraria forças (e oportunidade) para esfaquear o outro fatalmente? Pelas costas? Se assim fosse, não seria possível disfarçar o acontecido como sendo um `suicídio`. É claro que existem algumas outras explicações, mas o roteiro não se preocupa em fornecê-las ou em, no mínimo, sugeri-las.

Poder Absoluto é, enfim, um filme inconstante que alterna bons momentos com outros muito fracos. Depois de um começo promissor, a narrativa se perde um pouco, para se encontrar novamente com a entrada de Ed Harris. Infelizmente, outros `buracos` vão surgindo até levar o filme a um resultado final medíocre. Eastwood já teve momentos piores do que este. Mas, com certeza, já teve muitos melhores.
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26 de Maio de 1998

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.