Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Informante
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
25/02/2000 05/11/1999
Distribuidora

 

 


O Informante
The Insider

O Informante

Dirigido por Michael Mann. Com: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Stephen Tobolowsky, Gina Gershon, Michael Gambon, Rip Torn.

A relevância de certos filmes pode ser medida através de seus méritos artísticos. De outros, por seu valor como entretenimento. Finalmente, há certas produções que não podem ser ignoradas graças à importância de suas mensagens. O Informante com certeza encaixa-se nesta última categoria.

Dirigido por Michael Mann, o filme narra a história de Lowell Bergman, produtor do famoso programa 60 Minutes, que em 1995 convenceu o cientista Jeffrey Wigand, ex-pesquisador de uma grande empresa de tabaco dos Estados Unidos, a revelar a verdade sobre a manipulação de nicotina nos cigarros fabricados pela indústria do fumo, que não hesita em acrescentar carcinógenos em seus produtos para aumentar a dependência a estes. Para impedir que tais informações viessem a público, a Companhia de Tabaco Brown & Williamson deu início a uma verdadeira campanha de difamação que visava a desacreditar Wigand junto ao povo americano, além de utilizar todas as manobras possíveis e impossíveis para proibir que seu ex-funcionário prestasse o tal depoimento. Tais medidas acabaram levando o departamento jurídico da CBS a proibir a exibição da entrevista, o que, por sua vez, fez com que o próprio Bergman batalhasse para que a história viesse a público.

Assim como Todos os Homens do Presidente (que narrava a investigação do caso Watergate por dois intrépidos jornalistas, e que acabou levando à renúncia de Nixon,), O Informante mergulha de cabeça nos bastidores da mídia, traçando um envolvente retrato dos caminhos percorridos pela notícia desde sua fonte até o momento de sua veiculação, revelando todos os percalços encontrados no trajeto, incluindo até mesmo os interesses da própria emissora (no caso, a CBS). O roteiro, escrito a quatro mãos por Mann e Eric Roth (Forrest Gump), é extremamente habilidoso ao procurar cobrir a maior quantidade possível de fatos envolvidos neste polêmico caso, que na época acabou despertando a atenção do mundo não só pelas revelações envolvendo as empresas de tabaco, mas principalmente por descortinar o intrincado jogo de interesses existente por trás da própria divulgação das informações - levando-nos a diversas perguntas, como `Quem são os donos das notícias?` e `É correto permitir que dispositivos legais impeçam o povo de descobrir fatos relevantes à própria saúde?`.

Como se não bastasse a complexidade do assunto com o qual está lidando, O Informante ainda enfrenta outro grande desafio: ao contrário da maioria dos filmes `baseados em fatos reais`, que geralmente narram histórias que aconteceram há décadas, esta obra aborda um fato ocorrido há apenas cinco anos. Assim, todos os principais envolvidos continuam vivos e com o poder de abrir processos por difamação. Aliás, nomes de relevo como Mike Wallace (o famoso âncora do 60 Minutes), Don Hewitt (produtor executivo do programa) e Lucretia Nimocks (ex-esposa de Jeffrey Wigand - e que no filme foi batizada de Liane) logo se apressaram em disparar torpedos contra a Touchstone, produtora do filme. Entre outras coisas, Wallace (só para citarmos um exemplo) acusa os roteiristas de o terem retratado como um `covarde` que acabou agindo sob a `tutela de Bergman`.

Julgar o mérito de tais declarações é algo realmente complexo para o espectador, que no filme só tem acesso aos pontos-de-vista de Lowell Bergman (que inclusive já declarou não ser o responsável por todas as proezas a ele atribuídas na história) e do bravo Jeffrey Wigand. Assim, seria infrutífero tentar discutir, nesta crítica, cada aspecto da trama. Para isso, sugiro a leitura dos artigos escritos por David Weir (que entrevista Bergman), por D. M. Osbourne (que defende Mike Wallace, questionando a veracidade do filme) e, finalmente, por Lawrence Grossman (que traz a verdadeira cronologia dos acontecimentos).

Seja como for, nada disso interessa de fato, já que, a grosso modo, todos os acontecimentos narrados em O Informante aconteceram de uma forma ou de outra, mesmo que em momentos diferentes ou graças a ação de outras pessoas. Assim, a mensagem final transmitida por Michael Mann é uma só, e sua relevância é inquestionável: é mais fácil espicaçar a vida de um Presidente da República do que os segredos de uma grande corporação, mesmo que esta seja a responsável pela morte, todos os anos, de centenas de milhares de pessoas. E não deixa de ser irônica a saga do produtor Lowell Bergman, que de `caçador de informações` passou a ocupar a posição de `informante` a fim de ver sua matéria exibida.

Exatamente por seu detalhado (e importante) conteúdo, no entanto, O Informante não é um filme fácil de se assistir, apesar de sua brilhante montagem (que merece o Oscar). Em alguns momentos o espectador menos atento pode ficar perdido em meio ao grande número de informações e personagens atirados na tela - algo que não podia ser evitado, já que são todos relevantes à história. E mais: assim como em Fogo Contra Fogo, seu trabalho anterior, Mann dedica parte da história às famílias dos dois protagonistas, procurando mostrar detalhes de seu cotidiano a fim de torná-las mais `íntimas` da platéia. O estratagema surte efeito: é justamente nossa `proximidade` à família Wigand que nos faz entender as dimensões do sacrifício e da coragem de Jeffrey ao decidir revelar tudo o que sabe, mesmo correndo o risco de arruinar sua vida.

Além disso, Russell Crowe, como o ex-cientista, é extremamente competente ao nos apresentar a um homem comum que, de repente, vê-se colocado sob uma enorme pressão. Sua frustração e seu medo são transmitidos de forma contundente, o que nos leva a admirá-lo ainda mais. Al Pacino (como Bergman) e Christopher Plummer (como Wallace) também atingem todas as notas corretas na criação de seus `personagens`, e a única justificativa para a exclusão destes dois pela Academia é a controvérsia envolvendo os verdadeiros protagonistas dos acontecimentos narrados pelo filme.

No caso do âncora Mike Wallace isto é, devemos dizer, um grande erro de julgamento. O retrato que vemos em O Informante não é o de um covarde, mas apenas o de um homem que cometeu um breve erro de julgamento - não hesitando em reparar este erro na primeira oportunidade. Aliás, um dos diálogos mais brilhantes do filme pertence justamente a ele: quando Don Hewitt tenta minimizar seus atos dizendo que logo ninguém se lembrará das barbaridades cometidas contra Wigand, Wallace responde: `Não, isto é a fama. É a fama que dura 15 minutos. A infâmia perdura um pouco mais`.

Em certo momento, o âncora diz para Bergman que não defendeu os interesses da emissora a fim de garantir seu futuro, mas sim seu passado. Apesar de ter realizado grandes feitos ao longo de seus 50 anos de carreira, Wallace teme que apenas seu último ato seja lembrado (no caso, arruinar a emissora graças a um processo movido pela companhia de tabaco). Talvez o verdadeiro Wallace devesse prestar atenção neste discurso e evitar que seu último ato fosse justamente o de minimizar a importância de um filme tão brilhante quanto O Informante.
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29 de Fevereiro de 2000

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.