Críticas por Pablo Villaça

Poster: Justiça Vermelha
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/04/1998 31/10/1997
Distribuidora

 

 


Justiça Vermelha
Red Corner

Justiça Vermelha

Dirigido por Jon Avnet. Com: Richard Gere, Bai Ling, Bradley Whitford, Byron Mann, Peter Donat, Robert Stanton, Tsai Chin, James Hong, Roger Yuan e Tzi Ma.

Quando soube que Richard Gere iria fazer um filme que se passava na China, a primeira certeza que tive foi a de que aquele não seria um projeto muito favorável aos chineses. Afinal, Gere é conhecido como um crítico da política daquele país quanto ao Tibet, onde fixou residência (física e espiritual) há vários anos.

Em Justiça Vermelha (um título altamente preconceituoso, como constatamos depois de ver este filme), ele interpreta Jack Moore, um advogado que viaja até a China para ajudar o grupo a que pertence a fechar um contrato com o Departamento de Cinema, Filmes e Televisão do governo Chinês. Moore parece convencer os chineses de que tem o melhor a oferecer e, com isso, deixa seu próprio grupo satisfeito com seus serviços, já que o contrato está praticamente fechado. Naquela noite, ele conhece uma bela modelo e a leva para seu hotel. Na manhã seguinte, ele é acordado pela polícia e descobre que está completamente sujo de sangue - e sua acompanhante, morta. Agora, ele tem que enfrentar a `justiça` daquele país, onde as execuções são feitas no máximo uma semana depois da sentença, `e o preço da bala usada na execução, cobrado de sua família`.

As primeiras cenas no tribunal, quando percebemos como vai ser difícil para Moore aquele julgamento, são muito boas e eficientes. Ele não consegue entender o que é dito e, em vários momentos, o som de seu fone-de-ouvido (através do qual ele ouve a tradução simultânea do que está sendo dito) é cortado, dificultando ainda mais sua defesa. É claro que há interesses obscuros por trás daquilo tudo, e isso não é surpresa para o público. Aliás, é justamente a obviedade do filme que torna tudo tão monótono, além de tudo.

O roteiro, de Robert King, mostra uma incompetência tão grande ao tratar da história, que é realmente surpreendente que ele tenha conseguido vendê-lo a alguém. Só a título de comparação: King `cometeu` um outro roteiro, recentemente, chamado A Ilha da Garganta Cortada.

Antes de mais nada, o começo do filme estraga toda e qualquer surpresa que porventura pudéssemos ter ao longo da projeção, como já comentado anteriormente. Além disso, a história é irremediavelmente comprometida quando Gere e sua advogada (Bai Ling) começam a se `importar` um com o outro, numa cena forçada e implausível. Na verdade, sou capaz de apontar até mesmo a cena em que o filme se perde de vez: é aquela em que Gere chega na casa da advogada, para estudarem seu caso, e começa a tocar piano com as mãos algemadas. É ali que eles passam a se olhar de um modo `diferente`.

E por que isso é tão grave? O que há de mais em um envolvimento amoroso entre os dois? O problema é que este `envolvimento` não convence, é mal desenvolvido e, o que é pior, acaba recebendo uma atenção maior do que a que merecia do roteiro. Pois a partir daí somos obrigados a ficar assistindo Gere e Ling discutindo uma série de assuntos sem importância para a história e que só servem para `pregar` uma verdade cômoda para os cineastas: a de que a China é um país onde a justiça se entrega à corrupção e aos interesses maiores, ao passo de que os americanos, apesar de alguns defeitos menores, deveriam servir como exemplo para o Oriente. Se a intenção era criticar o modo de vida oriental, que pelo menos a história usada para este fim fosse contada de uma forma mais interessante, como em Chuva Negra e Sol Nascente (dois filmes altamente preconceituosos, mas que funcionam bem como entretenimento).

Para completar, a resolução do filme é extremamente insatisfatória, chegando mesmo a ser ridícula. A forma como a `verdade` é descoberta é tão forçada que incomoda. Além disso, a cena final tenta roubar um pouco de Casablanca, onde um personagem é deixado em um país regido por interesses obscuros enquanto o outro vai de encontro a um futuro melhor. Até mesmo os enquadramentos de Avnet sugerem esta `comparação` - que também não é bem sucedida, como o restante do filme.

Aliás, a direção de Avnet, apesar de eficaz nos poucos momentos de ação e/ou tensão (onde o filme mostra um pouco do que poderia ter sido, se não tivesse a pretensão de ser mais do que um suspense ou um drama de tribunal), falha ao permitir que o ritmo da narrativa oscile perigosamente, de situações explosivas para outras em que somos obrigados a ver os personagens discursando.

Já a trilha composta por Thomas Newman é eficiente e, em grande parte, a responsável pelo clima de tensão do filme. Teria sido melhor aproveitada em outra produção, com certeza. Bem como nosso dinheiro.
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16 de Maio de 1998

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.