Críticas por Pablo Villaça

Poster: Bicho de Sete Cabeças
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/06/2001 03/10/2001
Distribuidora

 

 


Bicho de Sete Cabeças
Bicho de Sete Cabeças

Bicho de Sete Cabeças

Dirigido por Laís Bodanzky. Com: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Caco Ciocler, Jairo Mattos, Valéria Alencar, Marcos Cesana, Altair Lima e Gero Camilo.

Além de um drama eficiente, Bicho de Sete Cabeças é um retrato assustador do sistema manicomial brasileiro. Imagine um cruzamento entre a frieza dos funcionários do hospital de Um Estranho no Ninho e a brutalidade e a pobreza da prisão turca retratada em O Expresso da Meia-Noite e terá uma vaga idéia do tipo de `tratamento` que estas instituições nacionais oferecem aos seus internos.

O filme, inspirado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano, O Canto dos Malditos, conta a história de Neto, um adolescente perfeitamente sadio que é internado em um manicômio por seu pai, que espera, com isso, afastar o filho das drogas. Por mais imponderada que esta atitude possa parecer, a verdade é que internações injustificadas como esta são, infelizmente, mais comuns do que se imagina: há relatos até mesmo de mulheres internadas por seus maridos, acusadas de adultério, e de alcoólatras que são entregues à `terapia` de eletrochoque como forma de se livrarem do vício (a bem da verdade, este tipo de absurdo também ocorre em outros países – vide Garota, Interrompida -, mas, aqui, o agravante reside no abandono e na pobreza dos manicômios, bem diferentes das clínicas do primeiro mundo).

Consciente da trágica realidade brasileira, a cineasta Laís Bodanzky aproveita a forte história de Carrano para realizar um filme que consegue ser mais do que simples `entretenimento`: Bicho de Sete Cabeças é, além de tudo, uma contundente denúncia que merece resultar em uma investigação detalhada por parte das autoridades. Com experiência em documentários (ela co-dirigiu o premiado Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil), a cineasta age com inteligência ao manter, neste seu novo trabalho, a estética daquele gênero: com a câmera sempre na mão e a fotografia realista de Hugo Kovensky, Laís Bodanzky confere a Bicho de Sete Cabeças uma dimensão jornalística que não apenas torna o filme mais forte do ponto de vista dramático, mas também mais denso e verossímil. Em certo momento, por exemplo, ela passeia com sua câmera pelo pátio de um manicômio, onde diversos internos perambulam desesperançadamente (um deles chega a encarar a lente com um sorriso distante), e o grau de realismo é tão grande que o espectador chega a acreditar estar vendo pacientes psiquiátricos – o que não é verdade.

Neste aspecto, também é importante ressaltar a magnífica preparação de elenco realizada por Sérgio Penna: os coadjuvantes e figurantes desta produção encarnam seus papéis com perfeição, criando uma `galeria de loucos` que convence sem apelar para o estereótipo. Entre os integrantes do elenco secundário, aliás, destaca-se o excepcional desempenho de Gero Camilo como o interno Ceará, que não apenas atua como importante alívio cômico, como também ajuda a estabelecer o clima de abandono ao qual este tipo de paciente é submetido. Outro que se destaca é o veterano Othon Bastos, que cria um pai frio e distante sem se transformar em uma figura unidimensional: sua crueldade é provocada, por incrível que pareça, por uma intenção `nobre` – porém, sua ignorância deturpa suas ações.

Mas a grande força do filme reside, sem a menor sombra de dúvida, na poderosa performance de Rodrigo Santoro, que retrata com eficiência o arco dramático percorrido por seu personagem: de adolescente inconseqüente e alienado a um adulto amargurado e marcado por experiências traumáticas. Suas reações sempre soam absolutamente naturais, como no momento em que descobre estar sendo internado pelo pai e, inocente, pergunta: `É o exército?`; ou como na cena em que arrebenta um espelho ao perceber que sua passagem pelo manicômio lhe deixou marcas mais profundas do que imaginava.

Poucas pessoas sabem disso, mas o sistema manicomial brasileiro tornou-se, nas últimas décadas, uma espécie de indústria incrivelmente lucrativa: além das milionárias (e mal empregadas) verbas injetadas pelo governo (algo que é ilustrado no filme), ainda há um assustador `mercado` de cadáveres, já que várias faculdades de medicina utilizam os corpos de ex-pacientes psiquiátricos como espécimes de estudo de anatomia. Ao retratar um mundo em que `cura` é um conceito tragicamente abstrato, Bicho de Sete Cabeças emociona profundamente.

E – o que é mais importante – faz pensar.
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23 de Agosto de 2001

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.