Críticas por Pablo Villaça

Poster: Diários de Motocicleta
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/05/2004 15/01/2004
Distribuidora

 

 


Diários de Motocicleta
The Motorcycle Diaries

Diários de Motocicleta

Dirigido por Walter Salles. Com: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Susana Lanteri, Mercedes Morán.

Houve um tempo em que usar uma camisa estampada com a inconfundível foto de `Che` Guevara tirada por Alberto Korda em 1960 era algo que tinha significado: o indivíduo em questão poderia estar manifestando desde seu apoio à Revolução Cubana até seu inconformismo com as disparidades sociais existentes em seu próprio país (passando, é claro, por sua declaração de simpatia aos ideais socialistas). Hoje em dia, porém, o rosto barbado de Guevara se transformou, ironicamente, em um mero produto a ser comercializado, e boa parte dos inúmeros jovens que usam itens da `marca Che` não faz a menor idéia de quem foi Ernesto Guevara de la Serna; exibir aquela imagem é simplesmente cool.

Felizmente, é provável que Diários de Motocicleta, mais recente longa de Walter Salles, corrija esta realidade (no mínimo, espero que estas pessoas aprendam o nome de batismo de Che). Baseado nos livros escritos por Guevara e seu amigo Alberto Granado acerca da longa viagem que estes realizaram no início da década de 50, o filme acompanha a trajetória da dupla desde sua partida de Buenos Aires, na Argentina, até a chegada no leprosário situado em San Pablo, na Amazônia peruana. Jovem e prestes a se formar em Medicina, Guevara decide percorrer a América Latina ao lado do amigo bioquímico Granado e conhecer o continente sobre o qual havia apenas lido. Inicialmente equipados com uma moto carinhosamente apelidada de La Poderosa, os dois rapazes enfrentam diversos percalços ao longo da jornada e descobrem um quadro generalizado de miséria e opressão política que seria fundamental na formação ideológica de Che.

Oriundo da classe média alta, Ernesto sofre verdadeiros `choques de realidade` que provocam uma grande transformação em seu modo de enxergar o mundo: a princípio, ele é um jovem como tantos outros, demonstrando ter consciência das desigualdades existentes em seu país, mas sem preocupar-se excessivamente com estas. Assim, suas prioridades iniciais são prosaicas: visitar a namorada em uma cidade próxima e torcer para que ela corresponda aos seus avanços sexuais. Gradualmente, porém, Che e Granado compreendem que as experiências de viagem estão deixando marcas profundas em suas vidas – e, quando encontram um casal obrigado a viajar à procura de emprego, os rapazes mal conseguem esconder o embaraço pela falta de objetivo aparente em sua própria `peregrinação`. Aliás, o roteiro de José Rivera é extremamente hábil ao ilustrar o amadurecimento de Guevara e Granado e o peso cada vez maior que estes parecem carregar nas costas – um feito que nos faz ignorar o caráter episódico da história (um problema praticamente inevitável em road movies).

Interpretando com brilho a dupla de protagonistas, o mexicano Gael García Bernal e o argentino Rodrigo de la Serna (primo em segundo grau do verdadeiro Che) estabelecem uma ótima dinâmica entre Ernesto e Alberto – e a agilidade na troca de diálogos lembra, em certos momentos, a química entre Selton Mello e Matheus Nachtergaele em O Auto da Compadecida. Vivendo Che Guevara pela segunda vez em sua carreira (a primeira foi em uma minissérie produzida para a tevê americana), Bernal empresta uma inconfundível aura de honestidade ao personagem e retrata com talento a mudança experimentada por Che, que, de jovem relativamente ingênuo e com olhar otimista, torna-se um homem sério e amargurado pela triste situação dos humildes sul-americanos. Enquanto isso, de la Serna quase rouba o filme com sua caracterização alegre e cheia de energia, já que Granado é um sujeito vivaz e incrivelmente carismático.

Já experiente em road movies (vide Central do Brasil), o cineasta Walter Salles utiliza as belas locações com a máxima eficiência, transformando a própria América Latina em um personagem do filme (e a fotografia de Eric Gautier é de tirar o fôlego). E o que é ainda melhor: Salles também guia o espectador com segurança através da jornada interior de seus personagens, alterando o tom da narrativa (que se torna menos `leve`) à medida em que os viajantes vão travando contato com a pobreza do continente (e a utilização de figurantes locais acrescenta ainda maior verossimilhança à produção). Além disso, o diretor adota um estilo quase documental ao estudar os abusos cometidos contra a população mais pobre, tendo, como `entrevistador`, o próprio Che Guevara (e a indignação transmitida por Bernal nestas seqüências é digna de aplausos).

Mas, sem dúvida alguma, a seqüência mais eficaz de Diários de Motocicleta é aquela que se passa no leprosário, já que, além de evidenciar ainda mais a humanidade de Guevara e Granado (que compreendem a importância contida em um pequeno gesto de afeto), serve também para ilustrar a crueldade da `chantagem religiosa` imposta pelas freiras que dirigem o lugar, que só fornecem alimentos para aqueles que comparecem às missas dominicais.

E antes que alguém acuse o filme de adotar uma postura `anti-cristã` ou algo no gênero, é importante salientar que a ilha habitada pelas vítimas da hanseníase, apesar de real, serve principalmente como símbolo da segregação determinada pelo poder aquisitivo ou credo de cada um e, neste sentido, o fato é que, infelizmente, a América Latina pode ser vista como uma imensa ilha de leprosos – mas, em vez da enfermidade biológica, somos todos acometidos por males sociais, políticos e econômicos capazes de matar muito mais do que a lepra ou qualquer outra doença conhecida pelo Homem.

Observação 1: O último plano do filme, visto depois dos letreiros que relembram o destino de Che, é inesquecível por trazer a imagem do verdadeiro Alberto Granado – um recurso recentemente utilizado no também excelente Geração Roubada, de Phillip Noyce.

Observação 2: Para saber mais sobre a vida do líder revolucionário, recomendo a leitura do ótimo Ernesto Guevara, Também Conhecido Como Che, escrito por Paco Ignacio Taibo II e lançado no Brasil pela Editora Scritta.

Observação 3 (em 25 de Maio de 2004): Acabo de ler uma outra biografia de Che que nada deixa a dever com relação àquela citada acima. Trata-se de Che Guevara: Uma Biografia, lançada no Brasil pela Editora Objetiva e escrita por Jon Lee Anderson.
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07 de Maio de 2004

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.