Críticas por Pablo Villaça

Poster: Homem-Aranha 2
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
02/07/2004 30/06/2004
Distribuidora

 

 


Homem-Aranha 2
Spider-Man 2

Homem-Aranha 2

Dirigido por Sam Raimi. Com: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Alfred Molina, James Franco, J.K. Simmons, Rosemary Harris, Donna Murphy, Daniel Gillies, Dylan Baker, Bill Nunn, Willem Dafoe, Cliff Robertson, Ted Raimi, Bruce Campbell.

Michael Chabon é um vencedor do prêmio Pulitzer por seu livro As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, além de ser autor do romance que deu origem ao ótimo Garotos Incríveis. Alvin Sargent é um senhor de 73 anos de idade conhecido principalmente por seus roteiros envolvendo relações familiares, como a comédia Lua de Papel e o drama Gente como a Gente. O que estes dois têm em comum? O primeiro ajudou a elaborar o argumento de O Homem-Aranha 2, enquanto o segundo foi o responsável pela versão final do roteiro. Sim, é espantoso, mas a pura verdade: em uma indústria que privilegia sempre os profissionais jovens, supostamente mais em sintonia com o público-alvo das superproduções, um dos maiores lançamentos do ano foi escrito por um veterano que tem mais de 70 anos de idade. O resultado? Um filme ambicioso e maduro que, ao mesmo tempo em que impressiona com suas seqüências de ação, jamais deixa de lado o desenvolvimento de seus personagens.

Sem cometer o erro comum de simplesmente repetir a história do longa original, substituindo apenas os vilões e os cenários, O Homem-Aranha 2 dá continuidade à trama de seu antecessor (cujos principais momentos são relembrados nos ótimos créditos iniciais, que homenageiam o universo dos quadrinhos): cada vez mais esgotado pelas responsabilidades que acompanham seus poderes, Peter Parker vê sua vida desmoronar, já que, além de não ter dinheiro para pagar o aluguel, sua amada Mary Jane (Dunst) anuncia que irá se casar com outro homem; seu melhor amigo Harry Osborn (Franco) quer matar o Homem-Aranha; sua tia May (Harris) está prestes a ser despejada; e seu professor favorito ameaça reprová-lo por seu fraco desempenho durante as aulas. Como se não bastasse, seus poderes vêm falhando cada vez mais e um novo vilão, o Doutor Octopus (Molina), ameaça destruir a cidade. Não é à toa que o rapaz começa a avaliar a possibilidade de abandonar sua carreira de herói.

Demonstrando o mesmo cuidado do original em conferir maior dimensão aos seus personagens, O Homem-Aranha 2 é um exemplo raro de filme de super-herói que investe mais nos diálogos do que na ação: Peter Parker está constantemente avaliando suas escolhas e as conseqüências que estas podem trazer para as vidas das pessoas que ama e, revelando a insegurança típica de um homem jovem (outro mérito do roteiro), está sempre pedindo conselhos para os adultos que o cercam, de sua tia May ao cientista Otto Octavius, passando até mesmo por um médico. Com isso, Peter torna-se um herói vulnerável, muito mais próximo do espectador do que a maior parte dos demais ícones da Marvel.

Aliás, é curioso observar o surgimento de um tema recorrente na série: a admiração de Parker por certas figuras paternas é sempre frustrada pela transformação de seus ídolos em vilões: além do Norman Osborn vivido por Willem Dafoe e do Dr. Octavius de Alfred Molina, o rapaz também demonstra grande respeito pelo professor Curt Connors, que (segundo fui informado por vários leitores) posteriormente se converterá no Lagarto. Desta forma, torna-se fácil enxergar o protagonista como um jovem complexo, e não como uma figura fantasiosa – e o conceito de que seus poderes poderiam ser afetados por uma depressão é absolutamente brilhante.

Evitando repetir um problema que apontei em minha análise sobre o primeiro filme, O Homem-Aranha 2 resgata, também, o bom humor do herói, que leva a platéia ao riso em diversas ocasiões (merecendo destaque a cena que se passa em um elevador). Mas o cabeça-de-teia não é o único a provocar boas gargalhadas: J.K. Simmons, como o editor J. Jonah Jameson, mostra-se ainda mais à vontade no papel do que da última vez, e todas as suas participações rendem momentos inspirados. Além disso, Bruce Campbell, fazendo sua ponta habitual nos trabalhos do amigo Sam Raimi, não desperdiça a oportunidade e também comprova seu talento para a comédia. (Será que o excepcional Bubba-Ho-Tep não vai chegar mesmo ao Brasil?)

Já as seqüências de ação são irrepreensíveis e infinitamente melhores do que as do original: o confronto no metrô, em particular, merece aplausos por sua edição enérgica (mas nada `michaelbayana`, felizmente) e por sua criatividade, já que explora todas as oportunidades oferecidas pelas habilidades atípicas dos personagens, que chegam a caminhar nas laterais dos vagões. Outro bom momento é aquele que se passa em uma sala de cirurgia e no qual Sam Raimi parece reviver os tempos da série Evil Dead, incluindo a serra elétrica, os gritos histéricos das enfermeiras, a inclinação dos enquadramentos e, é claro, o desespero de uma vítima que, ao ser arrastada para a escuridão, arranha o chão em sua tentativa de evitar a morte.

Emprestando uma dimensão trágica ao Dr. Otto Octavius, Alfred Molina impede que o vilão seja apenas uma figura cartunesca: sem jamais deixar de ser ameaçador, o Doutor Octopus revela-se bem mais interessante do que o Duende Verde, beneficiando-se, ainda, do fato de que podemos ver seu rosto e suas expressões (algo que a máscara utilizada por Dafoe impedia). Enquanto isso, Tobey Maguire oferece um dos melhores desempenhos de sua carreira como o angustiado Peter Parker e o irônico Homem-Aranha: confesso, aliás, que sempre o considerei um ator limitado (com sua eterna expressão sonolenta), mas desta vez fiquei agradavelmente surpreso ao constatar que ele foi mais do que eficiente ao humanizar o personagem.

Embora o terceiro ato da trama apresente alguns problemas difíceis de ignorar (como a excessiva exposição da identidade do herói), O Homem-Aranha 2 é um filme que certamente vai agradar não só aos fãs dos quadrinhos, mas a todos aqueles que curtem o bom cinema.
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2 de Julho de 2004

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.