Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Apanhador de Sonhos
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
18/04/2003 21/03/2003
Distribuidora

 

 


O Apanhador de Sonhos
Dreamcatcher

O Apanhador de Sonhos

Dirigido por Lawrence Kasdan. Com: Thomas Jane, Jason Lee, Damian Lewis, Timothy Olyphant, Donnie Wahlberg, Tom Sizemore e Morgan Freeman.

Uma das maneiras mais fáceis de se descobrir que um filme enfrentou problemas em sua fase de roteirização é constatar que seu título não tem absolutamente nenhuma relação com seu conteúdo. O Apanhador de Sonhos é um bom exemplo disso: a bem da verdade, há um objeto com este nome no filme, mas ele não desempenha a menor função ao longo da história (aliás, personagem algum chega sequer a dormir). Se para dar título a um projeto é necessário apenas selecionar qualquer coisa que apareça na tela, então creio que este filme seria melhor descrito caso fosse intitulado Vaso Sanitário. Ao menos, este seria o lugar ideal para se jogar o roteiro escrito por William Goldman e Lawrence Kasdan.

Adaptado a partir do livro homônimo de Stephen King, O Apanhador de Sonhos tem um primeiro ato bastante promissor, durante o qual somos apresentados aos quatro protagonistas que, logo percebemos, possuem habilidades telepáticas. Porém, cada um destes personagens lida de forma diferente com seu dom: enquanto um utiliza a telepatia para ler a mente de seus pacientes (ele é psiquiatra), outro limita-se a fazer adivinhações com o objetivo de impressionar as mulheres, e assim por diante. Nestes primeiros minutos, enquanto ainda estamos vivendo a ilusão de estarmos assistindo a um suspense sobrenatural, o cineasta Lawrence Kasdan consegue criar um ótimo clima de tensão. E é então que os quatro amigos viajam para uma cabana no meio do nada e encontram um sujeito que, depois de ficar perdido na neve, não consegue parar de arrotar e de emitir um `outro tipo` de gás. A partir daí, o filme se transforma em uma verdadeira bagunça, combinando uma infinidade de gêneros que, infelizmente, nem sempre se complementam de forma produtiva.

O curioso é que Goldman já deveria estar habituado às dificuldades em se adaptar um livro de Stephen King para o Cinema – afinal, foi ele quem roteirizou o ótimo Louca Obsessão e o razoável Lembranças de um Verão. Desta vez, porém, o sujeito não consegue encontrar um centro para o filme, que, com isso, enfrenta dificuldades para capturar a imaginação do espectador. Como não li o romance no qual a produção se baseia, não posso julgar os méritos da história original, mas o fato é que King, apesar de ser um verdadeiro mestre em criar premissas interessantes, ocasionalmente reutiliza vários detalhes de outras obras que escreveu ao longo dos anos: assim, o flashback envolvendo a infância dos quatro protagonistas em O Apanhador de Sonhos é constrangedoramente semelhante a Conta Comigo; e a presença opressiva da neve, que isola os heróis, já havia sido explorada em O Iluminado e Louca Obsessão. Da mesma forma, a trama principal deste novo filme soa bastante parecida à de It, que Tommy Lee Wallace dirigiu em 1990.

Mas não é só isso: desta vez, até mesmo detalhes de produções com as quais Stephen King nada tem a ver foram plagiados (ou seria melhor dizer `homenageados`?): o tema do alienígena que assume forma humana já foi abordado em filmes como Os Invasores de Corpos e O Enigma de Outro Mundo – cuja `criatura`, diga-se de passagem, tinha um visual curiosamente parecido ao do alien de O Apanhador de Sonhos. Além disso, as referências à série Alien são tão óbvias que o roteiro não tenta escondê-las, chegando a batizar a `doença` vista aqui como `Ripley` (nome da personagem de Sigourney Weaver). Aliás, até mesmo Homens de Preto recebe uma `citação` quando o militar vivido por Morgan Freeman diz: `Há 25 anos venho lutando contra estes alienígenas!`.

Por outro lado, o roteiro demonstra originalidade ao criar uma representação física para a memória do personagem Jonesy, que ganha a aparência de um imenso depósito. É uma pena, portanto, que este recurso seja utilizado de forma tão absurda, como na seqüência em que Jonesy resolve `queimar` algumas lembranças, que são carregadas em um carrinho-de-mão (sim, você leu corretamente).

Porém, o problema principal de O Apanhador de Sonhos reside mesmo em sua `esquizofrenia temática`: em um momento, estamos tentando descobrir a natureza dos poderes dos heróis; em outro, estamos testemunhando uma invasão alienígena; posteriormente, há uma teoria sobre alguém que `voltou dos mortos`; e, finalmente, os personagens conversam como se estivessem em uma comédia. E o pior é que o filme não se preocupa sequer em responder às perguntas que apresenta: por que, por exemplo, os quatro telepatas não conseguiram prever o que estava por vir? Qual era a relação entre o personagem Duddits e Mr. Grey? Aliás, qual era a verdadeira natureza de Duddits? Talvez o livro traga estas respostas, mas a versão cinematográfica se limita a ignorá-las.

Entre os integrantes do elenco, os únicos que se destacam são Damian Lewis, que convence com suas `duas personalidades` (numa cena bastante parecida com outra vista em As Duas Torres), e Donnie Wahlberg, que aparece rapidamente como Duddits em sua fase adulta (aliás, esta é a segunda vez em que Wahlberg faz uma participação pequena, mas marcante – a primeira foi em O Sexto Sentido. Quando veremos o irmão de Mark protagonizando seus próprios projetos?). Já Morgan Freeman oferece a primeira atuação medíocre de sua longa carreira, enquanto Jason Lee irrita com as estúpidas expressões criadas por seu personagem, como `Jesus-das-bananas!` e `Foda-me Freddy!`.

Com relação à direção de Lawrence Kasdan, o mínimo que posso dizer é que ele deveria se limitar ao drama, já que, no passado, comandou os ótimos O Reencontro, O Turista Acidental e Grand Canyon – Ansiedades de uma Geração. (A seqüência de O Apanhador de Sonhos em que Jason Lee tenta apanhar um palito no chão do banheiro é a prova definitiva do que estou dizendo.)

Investindo em um humor gratuito que ajuda a destruir o clima de suspense (já prejudicado pelo absurdo da trama), este filme não possui o menor senso de ridículo, obrigando um de seus personagens a cantar o tema de Scooby-Doo em um dos principais momentos da projeção (que, diga-se de passagem, é longa demais).

De acordo com os produtores, Stephen King pediu apenas um dólar para ceder os direitos de adaptação de O Apanhador de Sonhos. A julgar-se pelo resultado final, ele cobrou caro demais.
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19 de Abril de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.