Críticas por Pablo Villaça

Poster: 21 Gramas
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
09/01/2004 21/11/2004
Distribuidora

 

 


21 Gramas
21 Grams

21 Gramas

Dirigido por Alejandro González Iñárritu. Com: Sean Penn, Naomi Watts, Benicio Del Toro, Charlotte Gainsbourg, Melissa Leo, Clea DuVall, Danny Huston e Eddie Marsan.

Quando escrevi sobre Acquária, há apenas dois dias, comentei que o filme não possuía estrutura narrativa alguma, e que suas cenas poderiam ter sido montadas em qualquer ordem sem que isto alterasse o resultado final. Portanto, é uma grande ironia que minha análise seguinte seja justamente sobre uma produção cujas cenas parecem realmente ter sido montadas em qualquer ordem, mas que, apesar disso, possui uma estrutura narrativa brilhante que rivaliza com a de ótimos longas como Amnésia e Código Desconhecido.

Realizado pela mesma dupla responsável pelo excepcional Amores Brutos (o roteirista Guillermo Arriaga e o diretor Alejandro González Iñárritu), 21 Gramas segue um estilo parecido ao daquele filme ao narrar histórias paralelas que acabam se entrecruzando em um momento-chave da trama. Assim, ao longo da projeção somos apresentados a três personagens: Paul Rivers (Penn), um professor de matemática em fase terminal de uma doença cardíaca; Cristina Peck (Watts), uma ex-viciada em drogas que se recuperou depois do nascimento de sua primeira filha; e Jack Jordan (Del Toro), um ex-presidiário que se regenerou graças à religião. Vivendo em realidades completamente distintas, os três têm suas vidas alteradas depois que uma tragédia une seus caminhos.

Desta vez, porém, Arriaga e Iñárritu vão além e também brincam com a cronologia de suas histórias. Assim, o espectador não apenas salta de uma narrativa para outra, como também `aterrissa` em momentos diferentes de cada trama: em certo instante, por exemplo, podemos acompanhar o que está acontecendo com Paul no presente e, na cena seguinte, o que ocorreu com Cristina meses atrás – chegando, finalmente, a uma cena que retrata o destino de Jack anos depois. E, ao contrário de Amnésia (que repetia um trecho de cada seqüência para ajudar o público na compreensão da história), 21 Gramas não fornece nenhuma pista que nos ajude a decifrar sua estrutura, obrigando-nos a trabalhar às cegas. Com isso, fatos que julgamos ter acontecido no `passado` podem se revelar, mais tarde, como ocorrências futuras. É como se o filme nos convidasse a participar de sua montagem, o que se revela um exercício fascinante – e é claro que, à medida em que a história se desenrola, a tarefa do espectador vai ficando cada vez mais fácil, já que mais peças do quebra-cabeças se encontram sobre a mesa.

Além disso, a estrutura adotada por Iñárritu torna o envolvimento entre personagens e público mais intenso, já que conhecemos aquelas pessoas em vários momentos de suas vidas e sabemos, de antemão, o que elas virão a enfrentar – o que me fez lembrar de Irreversível, que também lançava uma pesada sombra sobre todos os acontecimentos narrados ao revelar, logo no início, a tragédia que se abateria sobre seus protagonistas. Por outro lado, o roteiro de 21 Gramas acaba exagerando ao revelar detalhes importantes com muita antecedência, o que elimina parte do impacto que deveria surpreender o espectador no terceiro ato. De certa forma, é como se assistíssemos a uma partida de futebol já conhecendo o placar final.

Ainda assim, é impossível negar a força das interpretações vistas em 21 Gramas, já que o ótimo elenco se entrega sem reservas aos infelizes humanos que habitam o filme – a começar por Naomi Watts, que vem comprovando seu talento desde que foi revelada por David Lynch em Cidade dos Sonhos: Cristina é, sem dúvida, a personagem que percorre o maior arco dramático do roteiro, já que, de mulher feliz e serena, transforma-se em um símbolo de depressão e ódio até chegar ao estado emocional no qual se encontra ao fim da história. Há um momento em sua performance, aliás, que praticamente exige ser utilizado como clipe na noite do Oscar: aquele em que a moça recebe uma notícia particularmente desesperadora e parece levar segundos até perceber o que tudo aquilo significa (infelizmente, não posso dizer mais nada para não enfraquecer o impacto da cena sobre quem ainda não assistiu a este longa).

Enquanto isso, Benicio Del Toro confere dignidade a Jack Jordan, o que é fundamental para que o espectador se envolva com seu drama – já que, de outra maneira, a natureza ambígua do sujeito poderia torná-lo antipático aos olhos do público. Lutando para reconstruir sua vida depois de passar um bom tempo na prisão, Jordan enfrenta o preconceito da sociedade e encontra alívio na `fé em Jesus`, embora (e aqui reside a genialidade do trabalho de Del Toro) ainda permita que percebamos resquícios de seu velho temperamento em seu fundamentalismo religioso – como na cena em que obriga a filha pequena a `oferecer a outra face`. Ainda assim, é inegável constatar as boas intenções do personagem; principalmente ao testemunharmos seu intenso remorso com relação a um determinado incidente.

E, pela segunda vez em 2003, chegamos ao excepcional trabalho de Sean Penn, que já havia deixado sua marca no forte Sobre Meninos e Lobos. Mais uma vez, aliás, o ator se envolve em um projeto que estuda difíceis relacionamentos familiares e a dor provocada pela perda de alguém querido. Porém, ao contrário do que ocorria no filme dirigido por Clint Eastwood, o personagem de Penn em 21 Gramas não é movido por um desejo de vingança, mas sim pela culpa – mas uma culpa injustificada, já que sua participação no ocorrido (mais uma vez, não posso falar muito) foi a de um elemento passivo, a de quase observador. E é precisamente seu esforço para corrigir algo que não pode ser reparado que o torna tão trágico.

`Trágico`, diga-se de passagem, é um termo que se aplica aos três protagonistas de 21 Gramas, já que, na realidade, nenhum deles pode ser `culpado` pelo que aconteceu (nem mesmo o personagem de Del Toro). Jack, Paul e Cristina são apenas pessoas comuns que procuram encontrar algum sentido para suas vidas – mas que, de alguma forma, parecem `marcadas` para sofrer. O resultado é que 21 Gramas não é um filme fácil de se assistir (tanto do ponto de vista emocional quanto intelectual), mas isso não quer dizer que não seja magnífico ao seu próprio – e melancólico - modo.

16 de Dezembro de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.