Críticas por Pablo Villaça

Poster: Avatar
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/10/2010 Unknown
Distribuidora

 

 


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Dirigido por James Cameron. Com: Sam Worthington, Zoe Saldana, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel Moore, CCH Pounder, Wes Studi, Laz Alonso, Dileep Rao e Sigourney Weaver.

Quando James Cameron lançou seu último longa, há 12 anos, ninguém esperava que Titanic viesse se transformar no maior sucesso de todos os tempos e um recordista de premiações – ao contrário: a expectativa geral era a de que o filme afundasse a carreira de seu diretor e se tornasse um gigantesco embaraço. Pois agora, depois de um longo hiato, o cineasta retorna com um projeto visto pela indústria como algo revolucionário e como um potencial candidato a repetir as proezas daquele drama de 1997, demonstrando que desde sua estréia na direção em 1981, com Piranhas 2: Assassinas Voadoras, Cameron percorreu um longo e bem-sucedido caminho. E que caminho: comandando seis filmes desde então (os dois primeiros Exterminador do Futuro; Aliens, O Resgate; O Segredo do Abismo; True Lies e Titanic), ele manteve uma regularidade impressionante na qualidade de seus projetos, jamais realizando uma obra que pudesse ser classificada como menos do que “ótima” – e Avatar mantém este padrão.

Trazendo uma narrativa que combina seqüências filmadas em sets com outras geradas completamente por computadores, o roteiro do próprio Cameron conta a história de um ex-fuzileiro, Jake Sully (Worthington), que, paraplégico, é convidado a assumir o lugar de seu falecido irmão gêmeo em uma missão no planeta Pandora, em 2156. Para isso, ele comandará através de sensores neurológicos o corpo artificialmente desenvolvido de um Na’vi, espécie alienígena que vive naquele ambiente venenoso aos terráqueos, tentando usar este avatar para se aproximar da população nativa a fim de convencê-la a deixar suas terras, já que o solo contém grandes quantidades de um metal valiosíssimo. Acolhido pelos Na’vis, Jake passa a absorver a cultura e a religião daquele povo sob a tutela da decidida Neytiri (Saldana) e aos poucos se encanta por aquele mundo – que logo se vê sob a ameaça dos militares terráqueos comandados pelo raivoso coronel Quaritch (Lang).

Surgindo como uma espécie de western sci-fi (ou sci-fistern?), Avatar surpreende ao se revelar uma espécie de Dança com Lobos via Matrix e com amplas pitadas de A Missão, numa combinação inusitada que, regada a misticismo (os Na’vi adoram uma deidade conhecida como “Eywa”), acaba funcionando muitíssimo bem. Ecoando a conquista do Velho Oeste, com seus sangrentos conflitos entre os colonizadores e os índios norte-americanos, o roteiro de Cameron não esconde que enxerga os Na’vi como os peles-vermelhas (aqui peles-azuis) que foram dizimados e expulsos de suas terras pelos homens brancos, o que se reflete até mesmo nas roupas dos alienígenas, em seus gritos de guerra e em sua predileção pelo arco-e-flecha. Vivendo em perfeita comunhão com o planeta, os nativos caçam o suficiente para sobreviverem e entregam reverentemente as almas de suas presas à deusa Eywa – e ao se apaixonar por Pandora e seu povo, Jake protagoniza uma transição muitíssimo similar à de Kevin Costner em seu filme de 1990, deixando crescer a barba e o cabelo e abandonando a frieza analítica militar que adotara como missão.

Para que a conversão do protagonista funcionasse, porém, Cameron deveria ilustrar também para o espectador o que há de tão especial em Pandora – e faz isso de maneira impecável, quase obsessiva. Criando um novo mundo completamente a partir do zero, o cineasta emprega os primeiros 90 minutos de projeção numa imersão absoluta naquele universo, nos apresentado a uma fauna e a uma flora completamente originais e fascinantes, desde as plantas fluorescentes que brilham sob os pés de Jake ou se encolhem com um simples toque aos animais gigantescos que dividem espaço com insetos minúsculos e com os próprios Na’vis. A quantidade de detalhes é tamanha, aliás, que em nenhum momento temos a menor dúvida de que aquele planeta realmente atravessou milênios de evolução até chegar àquele ponto – e que tudo o que estamos vendo de fato poderia existir em algum lugar do cosmos sem que a idéia soasse absurda.

Completamente criadas em computador, as “locações” vistas em Avatar são fotografadas de maneira absolutamente realista, apresentando uma solidez palpável e reagindo de forma incrivelmente natural às “fontes de luz” – e quando vemos raios de sol atravessando as copas das árvores e atingindo os personagens ou a folhagem, temos a impressão de que Cameron encontrou alguma maneira de rodar seu projeto em solo alienígena, tamanho o foto-realismo do que enxergamos (e as cores com as quais o cineasta trabalha jamais deixam de encantar, desde o roxo fluorescente de algumas plantas ao laranja intenso do couro de uma fera voadora). Da mesma forma, o design dos alienígenas combina uma estrutura alongada e traços e membros humanóides, alcançando um equilíbrio harmonioso que permite, por exemplo, que enxerguemos Neytiri como uma criatura obviamente muito diferente dos humanos, mas, ainda assim, estranhamente sensual. Além disso, os avatares de Jake e da cientista Grace impressionam por adaptarem os traços característicos de Sam Worthington e Sigourney Weaver à aparência Na’vi, o que é tão admirável quanto o cuidado com que as texturas de suas peles foram criadas, exibindo poros, saliências e protuberâncias sempre convincentes.

No entanto, nada disso adiantaria caso os personagens digitais não se movimentassem com naturalidade – e o que James Cameron alcança aqui com a ajuda da WETA de Peter Jackson é algo que, em comparação, faz o Gollum da trilogia O Senhor dos Anéis parecer uma marionete quebrada. Empregando a técnica do performance capture, que usa os desempenhos dos atores como base das expressões corporais e faciais de suas versões digitais, a equipe técnica de Avatar alcança um resultado diferente de tudo o que já víramos até então – e cada leve aceno de cabeça, sorriso contido, desvio de olhar e hesitação na gesticulação surge com a clareza de uma performance real, tornando sempre fascinante a experiência de ver aquelas criaturas azuis gigantescas conversando à nossa frente naquela tela gigantesca (e este é um filme que deve ser apreciado nos cinemas). Além disso, se um dos grandes problemas de personagens digitais sempre residiu na natureza morta de seus olhos, Cameron parece desafiar propositalmente este inimigo ao conceber os Na’vis como seres com olhos imensos – e repletos de vida.

Porém, se diretores como Michael Bay e Stephen Sommers costumam usar os efeitos visuais como um fim em si mesmos, James Cameron (como Peter Jackson) é um cineasta à moda antiga que enxerga a tecnologia como um meio de contar histórias, o que faz toda a diferença do mundo. Assim, quando vemos o avatar de Jake em ação pela primeira vez, o que faz com que nos importemos com o personagem não é sua perfeição técnica, mas o fato de Jake, paraplégico, mal poder conter sua alegria ao ser novamente capaz de mover os dedos dos pés, desafiando os cientistas que o monitoram para poder voltar a correr depois de anos de imobilidade. Da mesma maneira, a versão Na’vi de Grace pode ser uma cópia fabulosa de Weaver, mas é a gentileza de seu sorriso e o encantamento transmitido por seus olhos ao testemunhar a cultura indígena que a tornam cara ao espectador. Aliás, assim como Andy Serkis merecia ter sido homenageado por seu desempenho em O Senhor dos Anéis, a atriz Zoe Saldana certamente é merecedora de aplausos por transformar Neytiri numa criatura que combina doçura e dureza, suavidade e rigidez, numa performance complexa e profundamente tocante – e os esforços da moça ficam claríssimos ao longo da projeção, já que animador algum conseguiria criar todas aquelas sutilezas de interpretação sem o desempenho da atriz em estúdio. E fechando o elenco de carne-e-osso, Stephen Lang cria um vilão memorável enquanto Michelle Rodriguez encarna sem problema algum o tipo de mulher durona que se encontra sempre presente nas obras de Cameron, desde a Sarah Connor de O Exterminador do Futuro à dona-de-casa aventureira de True Lies, passando pela valente Lindsey Brigman de O Segredo de Abismo e, claro, pelas imbatíveis Ellen Ripley e a soldado Vasquez de Aliens, o Resgate.

Mas como se a história tocante, a tecnologia revolucionária e os personagens intrigantes não bastassem, Avatar ainda inclui, em sua narrativa, diversas alegorias extremamente relevantes no mundo contemporâneo, a começar por sua mensagem claramente ecológica – e é um mérito do cineasta que realmente passemos a nos importar com a preservação daquele ecossistema alienígena. No entanto, talvez ainda mais forte seja seu protesto antibelicista e a coragem de retratar os militares norte-americanos como feras da Guerra intolerantes e preconceituosas: assim, não demora muito até que o coronel Quaritch zombe da religião Na’vi e empregue a retórica do “terror contra o terror” – e Cameron não se mostra nada sutil ao apresentar a derrubada de uma estrutura importante para os alienígenas como a queda do World Trade Center, com direito a chuva de cinzas e tudo mais.

Com um terceiro ato empolgante e repleto de ação (outra especialidade do diretor), Avatar conta com um ritmo impecável, empregando sua primeira metade de maneira deliberadamente mais lenta para construir a narrativa e apresentar os personagens e seu universo e pisando gradualmente no acelerador à medida que a projeção se aproxima do fim – e mesmo então Cameron e seus dois montadores não se entregam aos cortes desenfreados que tornariam tudo confuso e deselegante. E mesmo que o roteiro conte com sua parcela de diálogos trôpegos (ponto fraco notório do diretor-roteirista) e com uma pequena reviravolta no terceiro ato que soa perigosamente como deus... eywa ex machina, estes equívocos são um pecadilho diante do que o filme alcança como um todo.

É maravilhoso ter James Cameron de volta. E que ele não faça um novo hiato depois de Avatar, pois o Cinema precisa de seus inesquecíveis espetáculos.

Observação: com o lançamento do filme em cópias 3D legendadas, a desculpa das distribuidoras brasileiras de que a tecnologia só permitia produções dubladas é desmascarada de vez. Vamos ver o que acontecerá de agora em diante.

17 de Dezembro de 2009

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.