Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Noiva-Cadáver
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/10/2005 23/09/2005
Distribuidora

 

 


A Noiva-Cadáver
Corpse Bride

A Noiva-Cadáver

Dirigido por Tim Burton e Mike Johnson. Com as vozes de Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Albert Finney, Emily Watson, Christopher Lee, Michael Gough, Tracey Ullman, Paul Whitehouse, Joanna Lumley, Richard E. Grant, Jane Horrocks, Enn Reitel, Deep Roy e Danny Elfman.

Desenhista talentoso desde a infância, Tim Burton iniciou sua carreira no Cinema como animador dos estúdios Disney, trabalhando em O Cão e a Raposa, de 1981. No ano seguinte, dirigiu (ainda na Disney) o curta animado Vincent, no qual já demonstrava sua paixão por temas sombrios e por humor negro e que lhe rendeu enorme reconhecimento. A partir daí, Burton vivenciou uma ascensão rapidíssima até se tornar um dos cineastas mais bem-sucedidos da década de 80, comandando três grandes sucessos de bilheteria consecutivamente: As Grandes Aventuras de Pee-Wee, Os Fantasmas se Divertem e, é claro, Batman – O Filme. Isto lhe deu liberdade financeira para embarcar em projetos mais pessoais e ambiciosos, permitindo que realizasse duas pequenas obras-primas: Edward Mãos-de-Tesoura, em 1990, e Ed Wood, em 1994.

Mas por que estou relembrando a trajetória do cineasta? Simples: porque, desde 94, Burton não realizava um projeto realmente digno da promessa que se revelara em seus primeiros anos. Sim, Peixe Grande é um belo filme, mas não espetacular – e o mesmo se aplica à refilmagem de A Fantástica Fábrica de Chocolates. Foi preciso que o diretor retornasse ao mundo da animação para que, finalmente, exibisse plenamente a velha forma. Aliás, em 93 ele já havia ensaiado este retorno à animação através do sensacional O Estranho Mundo de Jack, que produziu a partir de seu próprio argumento e que foi dirigido por Henry Selick. Desta vez, no entanto, Burton fez questão de assumir a direção (ao lado de Mike Johnson) e o resultado é seu melhor trabalho em 11 anos.

Escrito por Caroline Thompson, Pamela Pettler e John August, A Noiva-Cadáver conta a história de Victor, um rapaz tímido e sonhador que está sendo forçado pelos pais novos-ricos a se casar com Victoria, filha de aristocratas falidos que também vêem naquele casamento a solução para seus problemas. Felizmente, quando se conhecem os dois jovens se apaixonam, o que parece ser o indício de que, afinal de contas, todos ficarão felizes com aquele matrimônio de conveniências – isto é, até que Victor se mostra incapaz de decorar as falas que deve dizer durante a cerimônia e, repreendido pelo padre, decide caminhar em uma floresta próxima à cidade enquanto repassa o texto. É então que, em seu ensaio particular, coloca a aliança de noivado em um graveto que se revela como sendo a mão esquelética de uma garota assassinada por seu pretendente – e que passa a se considerar esposa do pobre Victor.

Esteticamente similar a O Estranho Mundo de Jack, A Noiva-Cadáver utiliza a mesma técnica de animação para contar sua história: stop-motion, recentemente vista em Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais. Aliás, assim como no filme de Nick Park, a direção de arte deste longa (que inclui, como expliquei naquela análise, o próprio visual dos personagens) é simplesmente espetacular: da aparência compacta de Lord Everglot à figura longilínea de sua antipática esposa, cada habitante do universo de A Noiva-Cadáver conta com uma aparência marcante e particular. Victor, com seu rosto anguloso e expressão constantemente sofrida, chega a ponto de lembrar um pouco seu dublador, o talentoso Johnny Depp (que cria uma voz frágil e insegura, perfeita para o personagem). Enquanto isso, a personagem-título exibe um equilíbrio correto entre a graça e o bizarro, já que seu rosto simétrico inclui detalhes que nos fazem lembrar de sua natureza cadavérica, como os olhos arroxeados e um corte profundo no lado esquerdo da face.

Os cenários, por sua vez, seguem a lógica particular da mente de Burton, sempre influenciado pela concepção gótico-expressionista, e abusam de ângulos inesperados e cantos sombrios que preenchem a imaginação do espectador com seus significados e segredos. Desta vez, no entanto, o cineasta nos surpreende ao estabelecer uma lógica invertida em sua paleta de cores: enquanto o mundo dos vivos apresenta cores dessaturadas que quase o transformam em um universo em preto-e-branco, a `cidade` dos mortos revela-se cheia de cores vibrantes que a convertem em um lugar caloroso e alegre (algo que me fez lembrar do curta-metragem mexicano Hasta Los Huesos, que, apesar do fraco roteiro, apresentava fotografia e direção de arte similares e magníficas).

Trazendo uma animação absolutamente soberba (observem as sutilezas nas expressões dos personagens, como sorrisos de cantos de boca, reações de susto e olhares ameaçadores), o filme é beneficiado por números musicais criativos que envolvem as músicas compostas pelo colaborador habitual de Tim Burton, Danny Elfman, que cria uma trilha que consegue a proeza de soar alegre mesmo em seus momentos de maior melancolia (como não apreciar a ironia de versos como `Sinto meu coração doendo / Embora ele não bata / Está se partindo`?).

Levando o público a se afeiçoar por seus protagonistas, A Noiva-Cadáver é um filme divertido, imaginativo e ambicioso. E, embora tenha sido realizado na Inglaterra (como Wallace e Gromit), é necessário reconhecer que seu financiamento partiu mesmo dos Estados Unidos (Warner Brothers e Dreamworks, respectivamente) – e somente isto já me autorizaria a dizer que 2005 foi um ano memorável para Hollywood. Afinal, não é sempre que podemos dizer que, entre os melhores longas do ano, encontram-se nada menos do que duas animações em stop-motion, não é mesmo?
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20 de Outubro de 2005

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.