Críticas por Pablo Villaça

Poster: RoboCop
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/02/2014 Unknown
Distribuidora
Sony Pictures

 

 


RoboCop
RoboCop

RoboCop

Dirigido por José Padilha. Com: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, Michael K. Williams, Jackie Earle Haley, Marianne Jean-Baptiste, Aimee Garcia, Zach Grenier e Samuel L. Jackson.

Qual abordagem adotar ao ser encarregado de refilmar uma obra que não apenas foi muito bem recebida em sua época como ainda ganhou status cult com o passar dos anos? Caso a estratégia seja permanecer fiel ao original, o resultado será visto como uma mera reprodução desnecessária do anterior ou – pior – como uma cópia inferior; por outro lado, afastar-se demais da fonte pode despertar protestos por parte dos fãs do original. Assim, é admirável perceber como José Padilha e o roteirista estreante Joshua Zetumer contornam o problema ao criarem um filme completamente diferente em torno do mesmo personagem que protagonizou o longa de Paul Verhoeven em 1987, abandonando a distopia inspirada pela era Reagan ao mesmo tempo em que tocam sutilmente em questões políticas contemporâneas e relevantes.

A base da história é a mesma: Alex Murphy (Kinnaman), um policial íntegro e corajoso, é gravemente ferido por bandidos impiedosos e é transformado pela empresa Omnicorp em um híbrido de máquina e tecido biológico a fim de dar origem a um inédito e eficiente oficial da Lei. No entanto, ao contrário do que ocorria no longa original, aqui não apenas a esposa de Murphy consente com a ação da corporação como o próprio protagonista tem plena consciência de sua identidade desde o primeiro momento. Assim, em vez de se concentrar na trama de crimes e na sátira política, o novo Robocop opta por focar no processo de criação do personagem-título e, principalmente, em questões complexas sobre sua natureza, discutindo, em essência, o que o torna humano ou máquina.

Como disse Eric Rohmer, “um bom filme é também um documento de sua época” – e, neste aspecto, Robocop não deixa a desejar: embutidos em sua trama futurista surgem temas como a política internacional bélica dos Estados Unidos; as condições miseráveis das sweatshops criadas na Ásia por corporações como a Apple; a politização cada vez mais óbvia da mídia; e, claro, a utilização de tragédias pessoais como moeda política (assim como a “morte” de Alex Murphy se transforma em pauta de manipulação, a tragédia recente que levou o cinegrafista Santiago Andrade foi cooptada pela mídia direitista como ferramenta de ataque). No entanto, se a crítica política era o centro do filme de Verhoeven, aqui Padilha apenas salpica as discussões ao longo da narrativa, empregando-as como contexto de uma trama que se concentra mesmo nos dilemas de seu protagonista.

Entre estes dilemas, o central: quem/o que é Robocop, afinal? São seus restos biológicos (exibidos numa cena angustiante) que o tornam humano ou é mesmo sua mente? E se esta mente – ou, em último grau, sua “consciência” – pode ser livremente manipulada pelos cientistas da Omnicorp, isto o torna menos humano? Afinal, Murphy jamais perde a consciência de quem é (ou foi), o que o obriga a lidar com sua nova condição, o que inclui o uso de antidepressivos – e, assim, ao ouvirmos o tema do Homem de Lata de O Mágico de Oz, não é difícil percebermos a analogia estabelecida pelo filme, que se preocupa justamente em tentar entender a natureza de seu herói. Assim, quando o cientista vivido por Gary Oldman é obrigado a corrigir as falhas de sua criação, logo percebe que estas estão relacionadas justamente ao que o torna um indivíduo, oferecendo ao (razoável) ator Joel Kinnaman a oportunidade de traçar o caminho inverso ao percorrido por Peter Weller no filme de 87, já que essencialmente seu Robocop vai se tornando mais impassível e mecânico com o passar do tempo.

É intrigante, desta maneira, constatar como logo no início da projeção Padilha e seu roteirista plantam uma pista fundamental acerca do objetivo principal da narrativa ao trazerem um veterano amputado tentando tocar violão com mãos mecânicas e descobrindo que suas emoções atrapalham seus acordes – exatamente o mesmo dilema que o protagonista enfrentará eventualmente. Desta maneira, quando percebemos a frustração do personagem de Oldman diante da eficiência estratégica de sua criação (que, claro, só ocorre diante da supressão de seu componente humano), percebemos que isto é um reflexo da angústia da esposa de Murphy – um sentimento que Padilha retrata de maneira brilhante no plano em que Robocop se coloca diante do filho enquanto seu rosto se mantém fora de quadro, indicando a distância de sua essência até que ele se ajoelha para o filho e se torna subitamente humano.

Já do ponto de vista da trama em si, é digno de nota perceber como o roteiro jamais transforma a Omnicorp e seu presidente em vilões unidimensionais: sim, o CEO interpretado por Keaton pode ser inescrupuloso, mas não como aquele vivido por Ronnie Cox no original, já que seu maior receio provém não de sua ganância ou de sua psicopatia, mas do receio de que Robocop seja combatido pelos políticos ao investigar a corrupção nos altos escalões, o que poderia comprometer os lucros da empresa. Em contrapartida, mesmo se distanciando tematicamente do filme de 87, esta refilmagem presta homenagens pontuais ao empregar não só o emblemático tema de Basil Poledouris, mas também ao fazer referências ao bordão “I’d buy that for a dollar", ao trazer os robôs ED-209 e ao substituir os comerciais de televisão criados por Verhoeven pelo programa ancorado por Samuel L. Jackson.

E isto já é o bastante, posto que, caso buscasse seguir mais de perto o original, o novo Robocop seria não só uma cópia barata, mas também uma obra anacrônica. Assim, caso você queira assistir ao mesmo filme, o melhor caminho é revisitar o trabalho de Paul Verhoeven, já que esta criação de José Padilha é algo bastante diferente. Mas não menos admirável.

22 de Fevereiro de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.