Críticas por Pablo Villaça

Poster: Água Negra
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
12/08/2005 08/07/2005
Distribuidora

 

 


Água Negra
Dark Water

Água Negra

Dirigido por Walter Salles. Com: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Ariel Gade, Tim Roth, Dougray Scott, Pete Postlethwaite, Camryn Manheim, Perla Haney-Jardine.

Um bom exercício para quem ama Cinema e tem interesse em estudar sua linguagem seria assistir às duas adaptações do livro de Kôji Suzuki: a japonesa (dirigida por Hideo Nakata) e a norte-americana (comandada por Walter Salles). É fascinante examinar o que dois cineastas igualmente talentosos fizeram ao trabalhar basicamente com o mesmo material: enquanto Nakata criou um filme absolutamente apavorante com importantes toques dramáticos, Salles percorreu o caminho inverso, investindo em um angustiante drama familiar que, aqui e ali, é tomado por aspectos sobrenaturais. De modo geral, não há dúvida de que a versão japonesa é superior, mas o fato é que os esforços do diretor brasileiro renderam um longa eficiente e repleto de méritos artísticos.

Roteirizado por Rafael Yglesias (não por acaso, autor de dois dramas excelentes: Sem Medo de Viver e A Morte e a Donzela), Água Negra gira em torno de Dahlia (Connelly), que está passando por um divórcio desgastante no qual disputa, com o ex-marido, a guarda de sua filha Ceci (Gade). Sem dinheiro, ela aluga um apartamento em uma região mais humilde de Nova York e tenta reestruturar sua vida enquanto enfrenta problemas com o imóvel, com o ex-marido e com Ceci, que passa a conversar com uma `amiga imaginária` e a demonstrar um comportamento violento.

Aliás, é justamente a partir dos obstáculos enfrentados por Dahlia que Walter Salles constrói o clima de angústia e ansiedade que atravessa a história: além de retratar a crueldade de um processo de divórcio no qual as partes se encontram em pé-de-guerra, o diretor mergulha sua protagonista em um verdadeiro inferno doméstico, obrigando-a a lidar com elevadores e máquinas de lavar roupa defeituosos, encanamentos entupidos e, é claro, o assustador vazamento que ameaça destruir o teto do apartamento – tudo isso cercado por um pesadelo de burocracia que obriga Dahlia a preencher formulários para conseguir o que quer que seja. A inteligente lógica de Salles é parecida com a que regia o surpreendente Um Drink no Inferno: situar os personagens (e o espectador) em um mundo `real`, no qual mesmo acontecimentos assustadores encontram explicações racionais, para somente então alterar o rumo da trama, aumentando o impacto das revelações.

No entanto, embora ancorado no real, o universo de Água Negra é profundamente triste: para começar, o diretor procura mostrar uma Nova York bastante diferente daquela que costuma enfeitar as telas, revelando a pobreza de uma região que, ironicamente, situa-se bem ao lado de um dos maiores centros de opulência do planeta. Além disso, a ótima direção de arte da produção realça a decadência de Dahlia através do prédio no qual esta mora, criando escadarias estreitas e escuras, paredes mal pintadas e ambientes claustrofóbicos, opressores. Da mesma forma, os figurinos limitam-se a cores tristes e sem vida, enquanto a excepcional fotografia de Affonso Beato salienta o clima de melancolia através de sombras constantes, de uma paleta limitada de cores e, é claro, do céu sempre nublado, que jamais permite a passagem da luz do sol.

A competência técnica de Água Negra encontra reflexo também nas atuações: Jennifer Connelly, linda como sempre (para mim, não há atriz mais bonita do que ela, nos dias de hoje), adota uma performance minimalista, fugindo do histrionismo das protagonistas de filmes de terror – em vez disso, ela cria uma mulher comum que enfrenta dificuldades reais. Sim, ao longo da projeção ela testemunha alguns fatos apavorantes, mas jamais parece convencida de que está lidando com algo sobrenatural – uma postura que qualquer pessoa racional assumiria. Além disso, Connelly confere veracidade ao relacionamento entre Dahlia e Ceci (sendo auxiliada na tarefa pela competente garotinha Ariel Gade), que realmente se comportam como mãe e filha – algo raro nas produções de Hollywood. E o melhor é que o elenco secundário também se destaca: John C. Reilly demonstra o talento habitual para criar personagens tridimensionais mesmo quando tem poucos elementos para trabalhar; Tim Roth funciona como um raro exemplo de generosidade em um filme dominado pelo pessimismo; Dougray Scott evita transformar o ex-marido em uma caricatura; e Pete Postlethwaite vive o faz-tudo Veeck como uma figura indecifrável, que ora nos tranqüiliza com sua presença, ora nos faz temer pela segurança de Dahlia.

Apesar de suas várias qualidades, Água Negra falha, sim, em um aspecto importante: a idéia de adicionar os elementos sobrenaturais gradualmente é boa, mas Walter Salles acaba demorando um pouco mais do que o ideal – e, afinal de contas, não há como fugir do fato de que o filme é, sim, uma história de fantasmas. Desta forma, quando o longa finalmente revela a natureza fantástica de seus acontecimentos, a projeção encontra-se praticamente no fim, resolvendo de forma ineficaz o importante mistério envolvendo a `amiga imaginária` de Ceci.

Se você for assistir a este filme esperando sustos, certamente sairá frustrado(a) do cinema, já que este não é o objetivo de Água Negra. Porém, se você valoriza a construção consistente de um clima de melancolia e tensão, dificilmente se decepcionará.
``

12 de Agosto de 2005

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.