Críticas por Pablo Villaça

Poster: Filhos da Esperança
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
08/12/2006 Unknown
Distribuidora

 

 


Filhos da Esperança
Children of Men

Filhos da Esperança

Dirigido por Alfonso Cuarón. Com: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Peter Mullan, Chiwetel Ejiofor, Danny Huston, Pam Ferris, Charlie Hunnam, Oana Pellea, Claire-Hope Ashitey.

Uma das coisas que digo em meu curso de Crítica Cinematográfica é que jamais devemos confiar em um crítico que utilize, com certa freqüência, expressões como “um dos mais ‘sei-lá-o-quê’ de todos os tempos” ou “o mais ‘blá-blá-blá’ da História do Cinema”, já que, com mais de um século de existência, a Sétima Arte produziu filmes demais para que possamos fazer afirmações deste tipo com propriedade (em mais de 12 anos de carreira, fiz isto uma única vez, quando escrevi o seguinte em meu texto sobre o terceiro capítulo de O Senhor dos Anéis: “... vou me atrever a fazer uma afirmação que, em condições normais, crítico algum deveria fazer: O Retorno do Rei possui, indubitavelmente, a maior batalha já vista no Cinema”. ). Pois agora, três anos depois, voltarei a me arriscar em afirmação semelhante, pois acredito estar certo ao dizer que Filhos da Esperança conta não apenas com um ou dois, mas com três dos planos mais complexos e geniais já concebidos por um cineasta.

Mas chegarei lá. Afinal, o novo trabalho do mexicano Alfonso Cuarón não se destaca apenas em seus aspectos técnicos, mas também é uma obra-prima do ponto de vista narrativo, contando uma história fascinante, inteligente e repleta de significados - o que é surpreendente, já que o roteiro foi escrito por nada menos do que cinco pessoas, o que geralmente é um mau sinal. Baseada no livro de P.D. James, a trama se passa no ano 2027, quando a única nação que ainda conta com algum tipo de governo estruturado é a Inglaterra, já que o resto do mundo parece ter sido praticamente destruído por guerras, ataques terroristas e catástrofes ambientais. Uma destas catástrofes, aliás, é a infertilidade: a pessoa mais jovem do mundo tem 18 anos de idade e é tratada como verdadeira celebridade – e é justamente com a morte deste rapaz (o “bebê Diego”, como é conhecido) que o filme tem início. Usando a comoção geral pela tragédia como desculpa para tirar um dia de folga, Theo Faron (Owen) resolve visitar um amigo, o ex-cartunista político Jasper (Caine). Mais tarde, Theo é seqüestrado por um grupo de ativistas liderado por sua ex-esposa Julian (Moore), que lhe pede um favor: documentos para que possam transportar uma jovem imigrante para fora do país (conhecidos como “fúgis”, os imigrantes são desprezados e perseguidos pelo governo). É então que Theo descobre que a tal garota está grávida, passando a ajudá-la enquanto são perseguidos por um grupo que pretende utilizar o bebê com fins políticos.

Em sua estrutura, Filhos da Esperança assume, portanto, características de filme de ação – e dos bons. No entanto, a sensação experimentada pelo público é a de estar acompanhando uma narrativa essencialmente dramática e política, já que a perseguição ocorre como parte de um cenário muito bem estabelecido pelo roteiro, surgindo não como fórmula de gênero, mas como algo inevitável, conseqüência de uma realidade sempre verossímil. Quando testemunhamos o sofrimento de todos em função da morte do “bebê Diego”, percebemos de forma inequívoca a dor que a ausência de crianças provoca naquela Sociedade do futuro e, portanto, compreendemos a importância da gravidez de Kee (Ashitey). Além disso, Cuarón demonstra habilidade ao estabelecer, ainda antes do surgimento do título do filme, o universo no qual se passa a história: em uma Londres cinzenta, caótica e hostil, acompanhamos Theo enquanto este escapa por pouco de um ataque terrorista, o que estabelece o tom de insegurança e violência que dominará toda a narrativa.

Aliás, o design de produção de Filhos da Esperança é primoroso, criando um convincente retrato pós-apocalíptico e de convulsão social através de pequenos detalhes, como a grade que protege as janelas do metrô e a presença atípica de animais (como camelos e ovelhas) nas ruas da cidade. Da mesma forma, é possível percebermos a instabilidade daquela Sociedade através dos onipresentes militares, das constantes mensagens de Propaganda do governo e, é claro, dos gritos de “profetas” em seus púlpitos improvisados. Importante, também, é observar que várias informações relevantes são fornecidas justamente através de detalhes cenográficos, como os recortes de jornais e as fotos presentes na casa de Jasper e as pichações nas ruas de Londres (que introduzem a idéia de revolução iminente). Finalmente, a idéia de retratar o Davi de Michelangelo (resgatado de uma Itália destruída) com uma prótese na perna esquerda revela um senso de humor curioso – mas apropriado – por parte dos realizadores.

Este inesperado senso de humor, diga-se de passagem, surge em vários momentos da projeção com o objetivo de ressaltar aspectos importantes da narrativa: é através de uma piada contada por Jasper, por exemplo, que o roteiro revela a existência do Projeto Humano (que envolve um barco apropriadamente batizado de “Amanhã”; e, mais tarde, outra brincadeira (desta vez, feita por Kee) fortalece, através da ironia, o subtexto claramente religioso presente na história (e não é à toa que a garota usa um manto, durante a maior parte da projeção, que remete diretamente à figura da Virgem Maria). E não há como negar que a frase “O governo explode uma bomba sempre que tem um problema” é empregada como uma alfinetada bem-humorada na política de terror do governo Bush.

Contando com um elenco admirável, Filhos da Esperança é beneficiado por atuações homogeneamente ricas, do protagonista aos personagens secundários: Claire-Hope Ashitey, por exemplo, confere uma amargura fundamental à Kee, já que, apesar de jovem, a garota certamente atravessou por inúmeras dificuldades ao longo de sua vida; ao passo que o escocês Peter Mullan torna o militar Syd muito mais ameaçador justamente por encarná-lo com humor. E enquanto Julianne Moore aproveita ao máximo suas cenas para levar o espectador a confiar na integridade de Julian, Michael Caine transforma Jasper na figura mais calorosa e íntegra do filme. Aliás, Caine é o tipo de ator que oferece performances tão naturais que seus esforços nem sempre são valorizados como deveriam, já que ele faz tudo parecer tão fácil (o que não poderia estar mais longe da verdade).

E há, é claro, Clive Owen, cuja trajetória (geográfica e emocional) representa o centro do filme: alcoólatra, desiludido e cínico, Theo é um homem destruído quando a história tem início – algo que Owen retrata sem apelar para extremos, empregando uma composição contida, apagada, que é corajosa justamente por não chamar atenção para si mesma. Observem, por exemplo, quando alguém vê Theo acendendo um cigarro e comenta que “isto mata”: em resposta, o ator faz um aceno de cabeça discretíssimo, quase imperceptível, como se dissesse “Esta é a idéia” e imediatamente muda de assunto, já que o personagem é introspectivo demais para permitir que alguém perceba sua vulnerabilidade (e seu único momento de explosão emocional ocorre solitariamente; ele se afasta de todos para dar vazão à sua dor). Para finalizar, o roteiro encontra uma maneira curiosa de humanizar Theo ao mostrá-lo com os pés expostos durante grande parte da projeção – algo que também funcionou muito bem em Duro de Matar.

Sempre tenso e retratando a violência de maneira extremamente gráfica, Filhos da Esperança é fotografado de forma brilhante pelo mexicano Emmanuel Lubezki, que só não vencerá todos os prêmios da categoria porque realmente não há justiça no mundo. Em primeiro lugar, a decisão de Lubezki e Cuarón em manter a câmera sempre na mão confere ao filme um ar documental, de urgência, que se revela mais do que apropriado para a história – e a paleta de cores frias (substituída apenas nas cenas ambientadas na casa de Jasper) contribui não apenas para ressaltar a miséria do futuro, mas também a desesperança de Theo e dos demais personagens. Além disso, ao passar rapidamente pelo galpão no qual os militares britânicos promovem sua própria versão do Holocausto (o único momento no qual o filme evita mostrar a violência), a dupla de realizadores mexicanos leva o espectador a dividir a sensação de alívio daqueles que, de dentro de um ônibus, vêem aquilo de passagem (e nossa imaginação se encarrega de nos informar o que ocorre no local).

Porém, o que deveria garantir todas as honrarias técnicas a Cuarón e Lubezki são mesmo as três tomadas que mencionei no início deste texto: dois longos planos (com quase cinco minutos de duração cada) e um plano-seqüência que ocorre no terço final da projeção e que deve durar quase dez minutos. Quando o primeiro deles surge, aliás, não nos damos conta, inicialmente, do que estamos vendo: os personagens conversam em um carro em movimento, brincam com uma bola de pingue-pongue (é preciso ver para acreditar) e discutem o futuro. Os espectadores mais atentos, no entanto, já perceberão algo surpreendente: a câmera gira com incrível facilidade no interior do veículo, enquadrando alternadamente o motorista, a passageira do banco dianteiro e os três ocupantes do banco de trás – e quando ela se volta para enfocar a estrada, o pára-brisa do automóvel pode ser claramente visto, tornando o espaço para manobra da câmera indiscernível. Isto, contudo, é só o começo, já que a cena se torna cada vez mais tensa e violenta, culminando numa perseguição que exige, em certo instante, que câmera e motorista abandonem o carro – tudo, repito, sem cortes aparentes.

Já o segundo plano, que se passa num quarto miserável de hotel, traz um incidente que não posso revelar, já que representa um ponto-chave da trama, mas que se beneficia imensamente por ser retratado também sem cortes (e com a ajuda óbvia de efeitos visuais), já que isto aumenta consideravelmente o impacto dramático da cena. Finalmente, há o longo plano-seqüência que retrata um confronto cuja dimensão vai sendo ampliada até envolver o que parecem ser centenas de figurantes e inúmeras explosões que envolveram uma coreografia absurdamente complexa e um planejamento que deve ter sido enlouquecedor (à medida que a seqüência transcorre, a lente da câmera vai sendo coberta por sangue e fuligem). Arrisco-me a dizer que certamente há alguns cortes escondidos aqui e ali, o que não diminui em nada a beleza do trabalho de Lubezki e Cuarón.

Nada disso importaria, porém, se o preciosismo técnico não resultasse em uma narrativa eficiente do ponto de vista dramático – e o arco percorrido por Theo, de alcoólatra cínico a homem de fortes princípios e determinação, jamais deixa de ser a principal preocupação do filme. Sua redenção é retratada de forma mais do que plausível, mas como algo absolutamente natural e até mesmo inevitável, considerando-se suas experiências ao longo da trama. Mas, mais do que isso, Filhos da Esperança traz uma mensagem importante e tragicamente atual: em um mundo no qual o individualismo se torna cada vez mais acentuado e no qual os interesses das corporações ditam as regras (mesmo que estas custem as vidas de milhões de pessoas), não deveríamos nos esquecer jamais de que nossas ações no presente terão impacto avassalador sobre as gerações futuras. Permitir que o egoísmo e a conveniência momentânea determinem nossas políticas é algo temerário, desprezível e de uma tremenda estupidez. E se não mudarmos logo nossa maneira de enxergar o mundo e o próximo, estaremos assinando nossa própria sentença de morte.

Ou será que, assim como os personagens de Filhos da Esperança, teremos que primeiro perder nossa humanidade para só então tentarmos recuperá-la?

 06 de Dezembro de 2006

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.