Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Nevoeiro
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/08/2008 Unknown
Distribuidora

 

 


O Nevoeiro
The Mist

O Nevoeiro

Dirigido por Frank Darabont. Com: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sadler, Jeffrey DeMunn, Alexa Davalos, Nathan Gamble, Sam Witwer, Frances Sternhagen.

 

Quem são os verdadeiros monstros vistos ao longo de O Nevoeiro, filme inspirado em um angustiante conto de Stephen King: as criaturas agressivas que surgem inexplicavelmente do cobertor branco que envolve misteriosamente uma cidadezinha ou os humanos que, presos num supermercado e amedrontados pelos seres que os cercam, passam a agir de maneira quase irracional, voltando-se uns contra os outros? Pois se os monstros literais concebidos por King ao menos têm a desculpa de sua irracionalidade e do instinto carnívoro que guia suas ações, os indivíduos que se encontram no supermercado tornam-se ainda mais repulsivos justamente porque revelam que, abolidas as regras que os mantinham contidos, as facetas mais podres de suas personalidades se expõem ao claro em questão de horas.

 

Adaptado por Frank Darabont, o roteiro nos apresenta, já de saída, ao pintor David Drayton (Jane), que surge finalizando a arte do cartaz de um filme (aliás, uma de suas peças antigas lembra bastante o pôster de O Enigma de Outro Mundo). Quando uma tempestade se anuncia, David se recolhe ao porão com a esposa e o filho, o pequeno Billy (Gamble), e, na manhã seguinte, descobre que sua propriedade sofreu danos terríveis durante a noite. Percebendo a necessidade de comprar mantimentos, ele se dirige à pequena cidade vizinha ao lado de Billy e do advogado Brent (Braugher), que mora ao lado de sua casa e com quem teve desentendimentos no passado. Quando uma densa névoa subitamente desce sobre a cidade, porém, David e dezenas de outros residentes locais ficam presos no supermercado depois de descobrirem que, em meio ao nevoeiro, encontra-se uma ameaça de natureza misteriosa.

 

Responsável por duas magníficas adaptações de trabalhos de King (Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre), Darabont acerta mais uma vez ao compreender a natureza do texto original do escritor, que empregava o terror como uma mera ferramenta para analisar o comportamento de seus personagens e os dilemas morais e religiosos que os impelem uns contra os outros. Assim, O Nevoeiro equilibra-se de maneira inteligente entre os momentos dramáticos, que se concentram em questões maiores, e as seqüências de ação, que surgem carregadas de tensão e sangue. Aliás, o cineasta também revela seu talento ao criar uma atmosfera intensamente claustrofóbica que mergulha o espectador numa angústia similar à dos personagens – e não deixa de ser curioso (e, de certa forma, paradoxal) que, por contar com uma fachada de vidro transparente, o supermercado brilhantemente concebido pelo diretor de arte Alex Hajdu se revele tão sufocante, já que permite que vejamos sem obstruções a impenetrável brancura da névoa. Da mesma forma, ao investir com freqüência em planos mais fechados, o diretor de fotografia Ronn Schmidt ressalta a sensação de sufocamento, mantendo-nos desconfortavelmente próximos de todas aquelas pessoas (que, diga-se de passagem, estão passando por situação similar).

 

Igualmente ciente da importância de construir gradualmente o clima de terror de sua narrativa, Darabont inicialmente fornece apenas alguns indícios de que algo está errado, como a mobilização rápida dos militares e a ausência de sinal dos telefones celulares – e, em contraste, a calma inicial do protagonista se torna enervante para o público. No entanto, quando finalmente revela a natureza das ameaças presentes na névoa, o diretor não hesita em criar imagens de violência extremamente gráficas, acertando especialmente na construção precisa da ótima (e apavorante) seqüência do ataque noturno ao supermercado, que retrata muito bem o caos no qual a multidão afunda. Vale apontar, aliás, que Darabont e o montador Hunter M. Via fazem a curiosa opção de incluírem um fade out depois de cada acontecimento mais chocante, torturando o espectador com elipses que negam, a este, acompanhar os instantes que se seguem imediatamente aos ataques.

 

Mantendo-se bastante fiel ao texto de King durante a maior parte do tempo (felizmente, Darabont teve o bom senso de excluir a implausível cena de sexo que prejudicava o conto), o roteiro apresenta os personagens de maneira natural através de diálogos que raramente soam expositivos – e é interessante notar que, a princípio, o papel de “líder” cabe ao antipático Brent, já que David se mostra mais preocupado em cuidar do filho, assumindo apenas gradualmente seu posto de protagonista (e Thomas Jane ilustra esta transição de maneira natural e convincente, acertando também nas cenas mais dramáticas). E enquanto Toby Jones se distancia de Truman Capote ao surpreender como um homem aparentemente inofensivo que se revela mais valente do que supúnhamos, o garotinho Natham Gamble surge mais do que apropriado como uma criança que, como qualquer outra naquela situação, imediatamente regride emocionalmente, tornando-se ainda mais dependente do pai. Aliás, num elenco que se mostra bastante homogêneo, o único destaque negativo fica por conta de Sam Witwer, que, como o soldado Jessup, se entrega a um exagero terrível em sua cena mais importante – além, claro, de ainda surgir com sobrancelhas cuidadosamente pinçadas que, estranhas num militar como aquele, transformam o personagem numa espécie de elfo drag queen.

 

Mas se o exagero de Witwer é um aspecto negativo do longa, a performance nada sutil de Marcia Gay Harden é, em contrapartida, um de seus pontos fortes, provando que uma atriz talentosa é capaz de acertar mesmo quando investe numa quase caricatura. Evangélica fundamentalista, a repugnante Sra. Carmody se transforma, ao longo de O Nevoeiro, no ser mais ameaçador do filme: condenando a falta de Fé ou o que julga “imoral” no comportamento alheio, ela se revela a pior de todas aquelas pessoas ao utilizar o medo dos companheiros como ferramenta de recrutamento religioso – e não há dúvida que, independentemente do valor de cada crença, o pavor da morte e o pânico diante do desconhecido sempre foram os grandes impulsionadores das religiões ao longo da História. Assim, é reconfortante perceber que, apesar de tudo, nem todos se deixam impressionar pela versão repulsiva de Fé representada pela sra. Carmody, como podemos notar no instante em que um sujeito grandalhão, confrontado pela mulher, argumenta que seu Deus não é o “sádico sedento de sangue” por ela alardeado. Por outro lado, não deixa de ser intrigante que Darabont inclua elementos, ao longo da projeção, que certamente poderiam ser utilizados para apresentar a beata como algo maior do que uma simples fraude, como na cena em que ela enfrenta uma criatura voadora que pousa em seu corpo e, claro, ao retratar a pose que ela assume em seu plano final no filme.

 

Porém, O Nevoeiro oferece mais do que apenas a discussão sobre o fundamentalismo religioso ou a contraposição entre Fé e Ciência: como numa versão adulta de O Senhor das Moscas, o filme se revela extremamente pessimista no que diz respeito à natureza humana, questionando abertamente nossa capacidade de viver harmoniosamente numa Sociedade desprovida de vigilância constante das autoridades e que não seja regida por leis firmes – e é uma pena que, durante uma cena ambientada num depósito, Darabont acabe exagerando ao transformar uma conversa interessante entre vários personagens em uma pregação artificial que parece determinada a martelar o espectador com as mensagens do filme, como se não fôssemos capazes de compreendê-las sem que alguém as soletre de maneira óbvia. Em contrapartida, é preciso aplaudir a coragem do diretor/roteirista ao encerrar a narrativa num dos exemplos mais cruéis de ironia dramática que o cinema Hollywoodiano ofereceu nos últimos anos (e é bastante provável que o terror daqueles minutos finais envie muitos espectadores para fora do cinema com um gosto terrivelmente amargo na boca, ofuscando injustamente a eficácia do longa).

 

Mas o mais assustador é pensar que, aqui fora, no mundo real, monstros gigantescos devoradores de carne humana podem até não existir, mas criaturas monstruosas como a Sra. Carmody podem ser encontradas facilmente em cada esquina estendendo a mão esquerda em busca de dízimos enquanto, com a mão direita, sacodem a Bíblia de maneira equivocada, utilizando-a para envenenar seus seguidores contra os próprios irmãos. E estes seres, infelizmente, são aparentemente indestrutíveis. 

28 de Agosto de 2008

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.