Críticas por Pablo Villaça

Poster: Noé, de Darren Aronofsky
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/03/2014 Unknown
Distribuidora
Paramount

 

 


Noé, de Darren Aronofsky
Noah

Noé, de Darren Aronofsky

Dirigido por Darren Aronofsky. Roteiro de Aronofsky e Ari Handel. Com: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Ray Winstone, Anthony Hopkins, Logan Lerman, Douglas Booth e as vozes de Nick Nolte, Mark Margolis, Kevin Durand, Frank Langella.

O Antigo Testamento é um O Senhor dos Anéis no qual Deus é simultaneamente Gandalf e o olho de Sauron. Por um lado, o “Criador” é uma figura mais sentida do que vista – e frequentemente ameaçadora e destrutiva; por outro, é capaz de auxiliar os heróis com magias convenientes como o surgimento de uma floresta a partir de uma semente ou a invocação de animais vindos de todo o planeta. Neste sentido, o Noé concebido por Darren Aronofsky surge como uma versão ainda mais tolkeniana da Bíblia, trazendo anjos caídos (ou “Guardiões”) no lugar dos Ents, Matusalém (Hopkins) como um Gandalf pós-quimioterapia e os descendentes do assassino Caim como primos humanos dos orcs. Nada, porém, muito distante do texto original, o que me leva a imaginar como seria o mundo caso milhões e milhões de pessoas acreditassem que tudo o que ocorreu na Terra-média foi real e deveria moldar nossos estilos de vida em 2014.

Inspirado na história narrada em Gênesis (de 5:25 a 10:1 – pouco mais de cem versículos), o roteiro co-escrito pelo cineasta ao lado de Ari Handel passa brevemente pela Criação e pela morte de Abel nas mãos do irmão para, enfim, se concentrar em Noé (Crowe), que, descendente do justo Set, vive com os filhos em harmonia com a Terra enquanto aqueles que vieram de Caim querem apenas explorá-la. É então que, farto e decepcionado com a humanidade, o Criador (Deus jamais é mencionado por nome nos diálogos, embora a legenda em português o faça uma vez) decide apertar o botão de reset e afogar todos os habitantes do planeta, instruindo Noé a construir uma arca na qual possa se salvar ao lado da família e transportar um casal de cada espécie animal a fim de repovoar o mundo pós-dilúvio. Apoiado pela esposa (que a Bíblia, claro, não nomeia, mas que no filme se chama Naameh e é vivida por Connelly), pelos filhos e pelo avô Matusalém, bem como pelos gigantescos guardiões (também presentes na Bíblia em Gênesis 6:4), Noé enfrenta ainda a ira de Tubalcaim (Winstone), que não aceita ser deixado para morrer sob as águas enviadas pelo Criador.

Inteligente ao empregar os Guardiões (que, afinal, fazem parte do cânone) como forma de explicar como algo gigantesco como a arca poderia ser construído por alguns poucos humanos, o roteiro também emprega estes personagens como recurso dramático, já que, depois de se sacrificarem pela humanidade, passam a ser ignorados pelo Criador, o que resulta numa dor constante que o design das criaturas evoca com talento através dos olhos que, surgindo como fendas tristes na rocha de seus rostos, exprimem a falta que sentem do Divino. E se o visual destes anjos é eficiente, o mesmo vale para aquele criado para a própria arca, que surge convincente e supostamente funcional em seu projeto robusto de linhas retas que ignora a figurinha bonitinha, encurvada e implausível que praticamente todas as ilustrações da história trazem – e que toma a boa liberdade de mudar sua entrada da lateral (como Gênesis descreve em 6:16) para a frente. (E já que mencionei a liberdade criativa tomada pelos roteiristas, vale apontar que, aqui, Deus se comunica basicamente através de sonhos ao falar com Noé em vez de instrui-lo diretamente como na Bíblia, embora suas mensagens de insatisfação – que eufemismo – e punição permaneçam intactas.)

Pontualmente sugerindo uma universalidade curiosa de sua história ao trazer detalhes no design de produção que apontam até mesmo para a possibilidade de estarmos acompanhando algo ocorrido em outro mundo (o céu diurno traz estrelas brilhantes, Adão e Eva aparecem como alienígenas dourados e Noé se refere ao restante dos companheiros de planeta como “Homens”, como se pertencesse a outra espécie), o filme ainda investe em animais digitais que nem sempre soam totalmente críveis e que, por vezes, parecem sair de algo como Avatar – o que, creio, os criacionistas podem justificar ao apontar que aquelas espécies foram extintas no mesmo dilúvio que teria arrastado os restos de dinossauros para a posição fossilizada na qual seriam descobertos por paleont...

... mas divago, embora discussões teológicas sejam, obviamente, parte inevitável de uma análise sobre um filme como Noé. Afinal, em qualquer outra narrativa como esta, Deus seria imediatamente encarado pelo espectador como o grande vilão do longa – e se isto não ocorre aqui para boa parte dos espectadores, é apenas porque estes têm uma opinião prévia sobre o personagem e suas motivações. Aliás, mesmo para aqueles que o enxergam como o verdadeiro antagonista da trama (me incluo entre estes), suas motivações e sua personalidade, elementos fundamentais para o funcionamento da narrativa, são praticamente dependentes deste mesmo conhecimento extra-filme – e se normalmente condeno obras que não funcionam sem o referente oferecido pelo material original, aqui me vejo obrigado a fazer uma exceção por reconhecer como a Bíblia e suas variações são universalmente conhecidas e, sim, influentes ao redor do mundo. Assim, quando somos informados de que o Criador vai destruir toda a vida sobre o planeta, incluindo crianças e bebês, não pensamos imediatamente em um SuperHitler (como deveríamos), mas no Deus/Alá punitivo que molda os credos estatisticamente dominantes em nossa História – o que supostamente, por alguma lógica insondável, deveria perdoar o genocídio por ele cometido e que, considerando seus poderes, poderia perfeitamente ser substituído por uma opção menos radical e bárbara.

Não que Noé seja muito melhor, mas ao menos não posa de ser sábio e superior – e, portanto, quando se transforma num fundamentalista temido pela própria família, está apenas refletindo os comandos recebidos por seu superior (numa versão da desculpa empregada pelos oficiais nazistas que, no pós-guerra, tentaram se proteger sob um simples “estava apenas cumprindo ordens”). Aliás, é justamente a falibilidade e a humanidade de Noé que o tornam um personagem tão fascinante: sim, ele age com crueldade e frieza, mas ao menos não se enxerga como alguém diferente daqueles que ajuda a condenar à morte através de sua omissão – e Russell Crowe evoca com sensibilidade a dor e a culpa que o sujeito passa a carregar, não sendo espantoso, portanto, que ele eventualmente se torne um alcóolatra (algo também presente em Gênesis 9:20-24). Vale apontar, diga-se de passagem, que por mais escroto que o personagem-título desta produção se revele, ainda é melhor do que aquele visto na Bíblia e que amaldiçoa o próprio neto apenas por ter sido flagrado nu e embriagado pelo pai deste – num contraponto ao amor e à compreensão que o Noé de Crowe exibe aqui. (Além disso, o filme jamais aponta que Noé tinha 600 anos de idade quando o dilúvio ocorre, já que há limite para a suspensão da descrença.)

Eficaz como filme-desastre, como longa de ação e como espetáculo carregado em efeitos visuais, Noé ainda merece elogios por não se acovardar ao retratar o dilúvio como um massacre impiedoso: dos pesadelos angustiantes do protagonista às imagens “reais” da inundação, Aronofsky não hesita em expor na tela o sofrimento e a tortura daqueles deixados para morrer – e é difícil esquecer o plano que traz, num mundo tempestuoso, a arca flutuando ao fundo enquanto, próximas à câmera, dezenas de pessoas se amontoam sobre um ponto isolado tentando escapar da morte inevitável que cai do céu e explode do chão. Neste aspecto, o espírito bíblico da produção é impecável até mesmo em sua misoginia – e quando a personagem de Jennifer Connelly diz que as netas recém-nascidas são meninas e emenda com um “sinto muito”, é impossível não perceber a crítica velada ao modelo patriarcal, machista e misógino não só da Bíblia, mas do Corão e da Torá.

Da mesma maneira, é fascinante perceber como Noé combina a visão da Criação e princípios científicos como o Big Bang e a Evolução em uma sequência absolutamente espetacular que, simulando stop motion, traz a Ciência e a Natureza assumindo o controle do processo depois que este é iniciado pela palavra de Deus (trata-se de um filme inspirado na Bíblia, afinal – mas até aqui o roteiro introduz uma pequena modificação, substituindo “No princípio, Deus criou o céu e a terra” por “No princípio, não havia nada”, o que é bastante sintomático ao sugerir, entre outras coisas, um início que excluía o “Criador”). A partir daí, Aronofsky investe em planos emblemáticos que tratam os personagens como ícones (como aqueles que os trazem em belas silhuetas) e também em outros que apostam na alegoria, permitindo até mesmo que o filme seja interpretado como uma mensagem ecológica.

O mais fascinante em Noé, contudo, é perceber que consegue se manter incrivelmente fiel ao livro que o inspirou ao mesmo tempo em que propõe discussões filosófico-existenciais acerca da Fé e da natureza impiedosa do Deus que a move e que inspira, até hoje, canalhas de todas as estirpes a incentivar o preconceito e a violência entre aqueles que tolamente os seguem. Mas, acima de tudo, o filme é intrigante por nos apresentar a um protagonista complexo que se perde e se acha por encontrar-se a serviço de um vilão unidimensional, invisível e implacável que consegue até mesmo a proeza de transformar um personagem vivido por Ray Winstone em alguém relativamente razoável.

E quando Winstone é a voz da razão em uma narrativa é porque aqueles que o cercam precisam urgentemente de terapia.

6 de Abril de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.