Críticas por Pablo Villaça

Poster: Obsessão
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
04/10/2013 Unknown
Distribuidora
Europa

 

 


Obsessão
The Paperboy

Obsessão

Dirigido por Lee Daniels. Com: Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Ned Bellamy, Macy Gray.

Obsessão é um filme que só não naufraga em função das boas atuações centrais. Caso contasse com um elenco menos competente, este trabalho de Lee Daniels (Preciosa) se transformaria num imenso embaraço, já que, além de não conseguir se decidir acerca de um tema central, o roteiro peca em sua estrutura e ao eleger o menos interessante de seus personagens para o papel de protagonista.

Escrito por Daniels e Peter Dexter a partir do livro deste último, o longa tem início com um entrevistador (cujo propósito e identidade jamais descobrimos) que busca conversar com Anita (Gray), que anos antes trabalhara como doméstica na casa da família Jansen, sendo mencionada na dedicatória de um livro escrito por Jack (Efron), seu mais jovem membro. A partir daí, retornamos à década de 60, quando, numa pequena cidade da Flórida, o assassinato de um xerife resulta na condenação à pena de morte de um certo Hillary Van Wetter (Cusack). Jurando inocência, ele passa a trocar cartas com Charlotte (Kidman), que se torna sua noiva e acaba atraindo a atenção do experiente repórter Ward (McConaughey), irmão mais velho de Jack. Enquanto investiga o caso com o auxílio do colega Yardley (Oyelowo), Ward volta a se aproximar do irmão caçula, que, por sua vez, se apaixona por Charlotte.

Povoado por uma galeria de indivíduos quebrados e solitários, Obsessão é hábil ao sugerir a tristeza subjacente em cada personagem: com o rosto marcado por cicatrizes cujas origens podem indicar uma vida interna tumultuada, Ward é vivido por Matthew McConaughey como um homem determinado a corrigir as injustiças que encontra em seu caminho – uma postura que, de certa forma, é reflexo de sua própria incapacidade de abraçar sua verdadeira natureza. Nicole Kidman, por sua vez, não hesita em encarnar Charlotte como uma criatura vulgar que há muito aprendeu a usar o sexo como arma, ao passo que John Cusack surge aqui interpretando com competência um tipo raro em sua carreira: um homem violento e profundamente repugnante. Assim, comparado a estes três intrigantes personagens, o Jack de Zac Efron se estabelece como um jovem desinteressante, o que não é culpa do ator, que faz o melhor que pode com uma figura insípida. Enquanto isso, Macy Gray e David Oyelowo representam indivíduos que encontram maneiras diametralmente opostas para lidar com o preconceito racial do qual são vítimas frequentes em uma década na qual a sociedade norte-americana ainda engatinhava na luta contra a segregação: enquanto a primeira se mostra resignada sem, contudo, jamais perder a dignidade, o segundo adota modos arrogantes (e mesmo um sotaque britânico) para facilitar sua aceitação por um mundo que ainda enxergava negros profissionalmente bem-sucedidos quase como aberrações.

Mas a questão é: se Obsessão tem interesse em se apresentar como uma narrativa sobre racismo, por que demora tanto a introduzir a questão – e, quando o faz, insiste em mantê-la na periferia da trama principal, que prefere acompanhar as investigações de Ward e a paixão de Jack por Charlotte? Da mesma maneira, embora fique patente que o filme busca estabelecer um paralelo entre o preconceito racial e aquele contra homossexuais, esta comparação é apresentada de forma súbita, desajeitada e frágil por apelar para extremos de comportamento (tanto por parte da vítima, que de repente deixa a cautela habitual de lado em função da bebida, quanto por parte de seus algozes e amigos). Além disso, como esta subtrama demora a ganhar peso, acaba dando a impressão de um mero desvio na trama, o que é lamentável. Como se não bastasse, o roteiro jamais se preocupa em explicar por que Anita ganha tamanho foco ao surgir como narradora – uma narração que, por sinal, surge problemática ao trazer vários eventos que a narradora não testemunhou e outros que, embora tenham sido acompanhados por ela, são ignorados sem maiores explicações.

Um sintoma claro desta multiplicidade de interesses por parte do diretor Lee Daniel pode ser observado em sua dificuldade para encontrar um tom para a narrativa: em certo instante, o cineasta parece buscar criar suspense, abandonando-o em seguida para investir numa cena que beira o surreal ao trazer um encontro erótico absurdo entre Charlotte e Hillary – que, por sua vez, empalidece diante do instante inexplicável no qual o filme para a fim de acompanhar um incidente supostamente cômico (com conotações eróticas) que resulta… bom, você vai reconhecer o incidente em questão ao vê-lo na tela, não se preocupe.

Fotografado com eficiência por Roberto Schaefer, que sugere o clima sufocante e desconfortavelmente úmido da Flórida, Obsessão traz também uma série de recursos estilísticos típicos do final da década de 60 e início da de 70, como telas divididas, zooms bruscos e fusões que flertam com a cafonice, o que confere à narrativa um certo charme insuspeito. Por outro lado, ao incluir uma série de fades durante uma cena de sexo, Daniels carrega a mão ao buscar criar uma expectativa artificial e apelativa sobre o que permitirá (ou não) que vejamos, o que remente a um sexploitation dos mais baratos.

Mas é mesmo ao parecer apoiar – mesmo que acidentalmente – a pena de morte que Obsessão cruza a fronteira do vulgar e se torna moralmente repreensível, ignorando sem perceber a causa que o personagem de McConaughey (o mais íntegro de todos) buscava defender com tamanho empenho, traindo não só o sujeito, mas tudo que o próprio filme vinha construindo até então.

30 de Setembro de 2013

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.