Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Legado Bourne
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/09/2012 Unknown
Distribuidora
Universal

 

 


O Legado Bourne
The Bourne Legacy

O Legado Bourne

Dirigido por Tony Gilroy. Com: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Edward Norton, Stacy Keach, Scott Glenn, Donna Murphy, Zeljko Ivanek, Louis Ozawa Changchein, Albert Finney, David Strathairn, Joan Allen.

O Legado Bourne já seria um filme medíocre caso fosse lançado como uma produção original - e o fato de o roteiro insistir em inserir a história no meio da franquia estrelada por Matt Damon serve apenas para torná-lo ainda mais decepcionante em função da comparação. Assim, todas as vezes em que o nome do antigo herói ou a imagem de Damon surgem na tela, somos lembrados de que poderíamos estar assistindo a algo muito melhor, o que não é um efeito dos mais desejados.

As referências à trilogia original, aliás, já surgem na abertura da projeção através do plano que traz um corpo flutuando na água – desta vez, não o de Jason Bourne, mas do agente/espião/sei-lá-o-quê Aaron Cross (Renner), que se encontra sozinho em um lugar remoto e gelado desempenhando uma série de atividades desgastantes enquanto se medica e recolhe amostras do próprio sangue por algum motivo. Eventualmente, somos informados de que Cross é, como Bourne, resultado de um experimento médico para criar indivíduos superiores do ponto de vista físico e mental, fazendo parte de um programa secreto chamado Outcome – e que, correndo o risco de ser exposto agora que Jason está à solta, é encerrado pelo frio coronel Eric Byer (Norton), que ordena a morte de todas as “cobaias”. Perseguido e dependente dos medicamentos para não retornar à condição de mero humano, o herói acaba se aliando à médica Martha Shearing (Weisz), também transformada em arquivo vivo pela decisão de Byer.

Se toda a subtrama relacionada à criação de “super-homens” é tola como nos antecessores, ao menos naqueles filmes isto era apenas uma desculpa para a busca de Bourne pela própria identidade – e, mais do que isso, para sua investigação a respeito do próprio caráter: o fato de ter esquecido o que fazia antes e de condenar quem era poderia absolvê-lo? Assim, é curioso que Jason Bourne, mesmo vitimado pela amnésia, tenha conseguido se estabelecer como um personagem com uma personalidade infinitamente mais interessante do que Aaron Cross, que mesmo sabendo quem é e por que decidiu se submeter ao programa Outcome, permanece uma figura oca e unidimensional. Para piorar, os roteiristas (e irmãos) Dan e Tony Gilroy (este último, responsável também pelos roteiros da trilogia original) criam uma motivação inacreditável para Aaron: o medo experimentado pelo herói de retornar ao Q.I. que possuía antes dos medicamentos e que, pelo que ele sugere, era digno de Forrest Gump. Assim, quando ele começa a exibir certa distração pela falta dos remédios, sei que isto deveria ressaltar a tensão de sua situação, mas confesso que ri ao esperar vê-lo babando e respondendo a tudo com um sonoro “Duh!”. Há muitas ameaças capazes de levar o espectador a temer por um herói de ação, mas a possibilidade de ver James Bond se tornar Homer Simpson não é uma delas.

Mas Tony Gilroy não falha só como roteirista; sua abordagem na direção é incrivelmente problemática: tentando simular o estilo hiperativo das câmeras de Doug Liman e Paul Greengrass, responsáveis pelos primeiros longas, o diretor do ótimo Conduta de Risco cria sequências de ação que beiram o incompreensível – e me detenho no “beiram” porque a outra estreia da semana, Abraham Lincoln, ultrapassa esta barreira em cinco mil quilômetros. Para constatar a incapacidade do cineasta de conduzir bem a ação, basta observar a longa perseguição que ocorre no terceiro ato e durante a qual mal conseguimos compreender a relação espacial entre os envolvidos e como agem em cada instante – e quando a personagem de Weisz quase cai da moto, custamos a entender o que estava tentando fazer e como retorna ao banco.

Ainda assim, O Legado Bourne conta com seus bons momentos: o plano que acompanha o herói escalando uma parede e entrando em uma casa até atirar em um inimigo é inventivo e eficiente – e o tiroteio em um laboratório é construído de forma realista, tensa e chocante (e é uma pena que de certa forma represente o auge do longa, já que ocorre antes da metade da projeção). Da mesma forma, a fotografia do sempre excelente Robert Elswit é hábil ao mergulhar os perseguidores de Cross em uma paleta fria e dessaturada que ressalta a impessoalidade daqueles indivíduos, distanciando-os das cores mais intensas e naturalistas que acompanham as ações do herói. Em contrapartida, é difícil perdoar um filme que apresenta um importante vilão apenas no terceiro ato – especialmente quando este vilão é uma criatura que destoa completamente do universo da história, surgindo mais como um Exterminador T-800 do que como um ser de carne e osso.

Prejudicado também por um final insatisfatório que parece mais preocupado em introduzir uma possível continuação do que em amarrar bem as pontas da história que vinha contando, este filme acaba manchando uma franquia até então impecável – e o melhor seria fazermos como Jason Bourne e esquecê-lo assim que possível.

06 de Setembro de 2012

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.