Críticas por Pablo Villaça

Poster: W.
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/04/2009 Unknown
Distribuidora

 

 


W.
W. (George W. Bush) ou Dubya

W.

Dirigido por Oliver Stone. Com: Josh Brolin, Richard Dreyfuss, Jeffrey Wright, Toby Jones, Thandie Newton, Scott Glenn, Bruce McGill, Dennis Boutsikaris, Toby Jones, James Cromwell, Ellen Burstyn, Elizabeth Banks, Jesse Bradford, Michael Gaston, Jason Ritter, Noah Wyle, Rob Corddry, Ioan Gruffudd, Colin Hanks, Marley Shelton.

 

Logo no primeiro minuto de projeção de W., novo filme de Oliver Stone, somos levados ao Salão Oval da Casa Branca e testemunhamos uma reunião entre Bush Jr., Condoleezza Rice, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Karl Rove, Colin Powell, George Tenet e Paul Wolfowitz – toda a quadrilha que aterrorizou o mundo por oito anos. É um momento curioso que surge como uma mistura de documentário e esquete do Saturday Night Live – e esta sensação de estranhamento perdura por quase todo o filme.

           

Voltando a lidar com os bastidores do poder depois do fantástico JFK e do correto Nixon, Stone desta vez cria uma narrativa com claros tons satíricos, enfrentando, no processo, a dificuldade de reencenar eventos recentes e que, portanto, encontram-se vivos na memória do espectador. Para isso, adota uma cronologia não-linear que acompanha os tropeços políticos de George W. Bush (Brolin) na Casa Branca enquanto, através de flashbacks espalhados ao longo da projeção, testemunhamos sua trajetória pessoal, de alcoólatra irresponsável até o momento em que, encontrando a religião e abandonando a bebida, decide seguir os passos do pai e candidata-se a Governador do Texas. A partir desta estrutura pouco original, o roteiro de Stanley Weiser (Wall Street – Poder e Cobiça) não se furta de incluir alguns dos elementos mais pitorescos da carreira de Bush Jr., como seu desmaio ao engasgar com um pretzel, seu hábito de batizar amigos e jornalistas com apelidos pejorativos e, claro, suas constantes gafes verbais (ao falar sobre seus projetos para a Educação, ele pergunta: “Nossas crianças “tá” aprendendo?”.

           

Tentando funcionar como estudo de personagem, o filme conta com a vantagem de lidar com uma figura conhecida que, de uma maneira ou de outra, é suficientemente intrigante para ancorar a narrativa: massacrado pelo peso do legado da família Bush (e que fique claro: quando digo “legado”, refiro-me à influência histórica, não ao que realizaram de fato), Bush Jr. é um adulto imaturo e inconseqüente que, sentindo-se inferiorizado diante do irmão caçula, Jeb (Ritter), passa a vida ansioso para conquistar a aprovação do pai, mesmo que esta necessidade por vezes se manifeste de maneira claramente agressiva.

           

Infantilizado até mesmo por ser tratado como “Junior” por George Sr. (Cromwell), não é à toa que eventualmente ele passa a insistir em ser chamado de “W.”, usando a inicial de seu nome do meio como forma de manifestar sua independência e seu suposto amadurecimento. Ainda assim, conseguir que o pai o respeite se revela um obstáculo intransponível – e, em seus insistentes esforços para obter este respeito, W. fracassa em posições cada vez maiores até se tornar – inacreditavelmente – Presidente do país mais poderoso do planeta. Esta conquista, diga-se de passagem, é algo que seria absurdo se não fosse verdade: avesso à leitura (em certo instante, ele comemora o fato de um importante relatório ter apenas três páginas), administrador incompetente (todas as suas empresas fracassam) e incapaz de se expressar sem cometer constantes gafes (a prisão de Guantánamo vira “Guantanamera”), Bush Jr. ainda assim conseguiu uma carreira meteórica: embora até os 48 anos de idade não houvesse feito nada de relevante em sua vida, ele se elegeu Governador do Texas em 1994, conseguindo a reeleição em 98 e se candidatando à Presidência em 2000.

           

Mas seria Bush o proverbial “sábio idiota” ou, na realidade, ele apenas cultivava a imagem de tolo para se beneficiar? De certa forma, Weiser e Stone advogam as duas teorias: por um lado, é óbvio que Júnior não é uma criatura das mais brilhantes e depende da orientação de seu comparsa Karl Rove (Jones) e, posteriormente, de seu desprezível vice Dick Cheney (Dreyfuss; por outro, já ao trabalhar na primeira campanha de seu pai à Presidência, W. exibe um claro talento para a estratégia política ao usar terceiros para divulgar spots que, caso distribuídos diretamente por ele, poderiam gerar uma polêmica prejudicial a Bush Sr.. Além disso, em dois momentos distintos ele protesta ao perceber que Rove e Cheney estão tentando manipulá-lo, o que denota ao menos uma certa perspicácia – o que não o impede, porém, de vestir a máscara de “homem simples” em público, levando o eleitor a apoiá-lo através da simpatia e não de sua (inexistente) experiência ou de seus (rasos) projetos.

           

Escolha inesperada para o viver o protagonista, Josh Brolin surpreende ao encarnar Bush Jr. com uma precisão admirável: dos maneirismos (incluindo o menear de cabeça e o franzir da testa) à voz de W., passando pela notória risadinha do sujeito e pela pronúncia equivocada de várias palavras (“nukelar” em vez de “nuclear”, por exemplo), Brolin faz um trabalho impecável, conseguindo ainda conferir ao personagem uma vulnerabilidade emocional e psicológica fundamental para o sucesso da narrativa. Da mesma maneira, o elenco secundário impressiona pelas caracterizações: Dreyfuss surge tão maquiavélico quanto o original; Wright transforma Powell no único compasso moral da quadrilha (embora eventualmente ceda aos demais, condenando seu legado graças a esta fraqueza; Jones retrata Rove como o verme manipulador que mal consegue esconder a própria arrogância e Cromwell investe dignidade a Bush Sr., que, comparado ao filho, se estabelece como um grande estrategista político e militar ao compreender a estupidez que seria levar a guerra até a porta de Saddam Hussein. Em contrapartida, Thandie Newton surge absolutamente constrangedora como Condoleezza Rice, ultrapassando a imitação e se convertendo numa patética caricatura.

           

Bem mais contido visualmente do que em seus trabalhos anteriores, Oliver Stone adota, como estratégia narrativa, o farto emprego de closes, buscando investigar os rostos de seus personagens com o propósito de salientar as mínimas mudanças de expressão – e em vários momentos ele emprega lentes específicas para deformar levemente a imagem, ressaltando com isso o desconforto e a angústia do protagonista. Além disso, a escolha de músicas tem o claro objetivo de ridicularizar a gangue de W., como na cena em que vemos Bush e seus asseclas caminhando por seu rancho, completamente perdidos, enquanto traça a estratégia de invasão ao Iraque (e Stone frisa o despreparo daquelas pessoas ao enfocá-las em um plano geral que as transforma em pequenos pontos confusos na paisagem). Da mesma forma, quando W. decide lançar a invasão e inicia uma prece na “sala de guerra”, o cineasta ilustra a certeza que o sujeito tem de estar agindo a mando divino (ele é uma espécie de Elwood Blues, provavelmente) ao enfocá-lo em um contra-plongé que projeta, sobre a cabeça do Presidente, um halo formado pelas luzes fosforescentes da sala – que, claro, imediatamente se apagam.

           

Surpreendente por se revelar um retrato simpático (ou, no mínimo, condescendente) de George W. Bush – especialmente por se tratar de um projeto de Oliver Stone, famoso por suas posições de esquerda -, W. finalmente advoga a tese de que Bushinho sempre agiu movido pela necessidade de aceitação (por parte de seu pai, sua mãe, seu irmão, sua esposa, etc). Não há dúvida de que, até certo ponto, este seu complexo de inferioridade diante da família tenha realmente servido como elemento motivador de suas ambições políticas, mas tampouco é suficiente para explicar W. como indivíduo. Além disso, o filme pouco se concentra em sua relação com Laura (Banks, ótima), o que é lamentável, já que esta certamente exerceu imensa influência sobre o marido.

           

Aliás, W. peca muito pela omissão, ignorando vários momentos fundamentais da trajetória do personagem-título, como sua primeira e controversa eleição à Presidência; sua reação imediata ao 11 de Setembro; sua inação diante da tragédia provocada pelo furacão Katrina; sua irresponsabilidade como guia da principal economia do planeta; entre diversos outros exemplos que jamais poderiam ter sido ignorados numa cinebiografia de Bush Júnior. Por outro lado, o diretor acerta ao incluir imagens de arquivo que ilustram as conseqüências reais e sangrentas das decisões militares do sujeito, já que, de outra maneira, muitos espectadores poderiam permitir que a simpatia pela fragilidade emocional de W. os levasse a ignorar o desastre que sua gestão representou.

           

Por que, afinal, George Walker Bush simplesmente fez jus ao seu pavoroso currículo ao assumir como Presidente dos Estados Unidos, desmantelando o forte legado econômico de seu antecessor, transformando o país no grande vilão do planeta no exato momento em que estávamos todos dispostos a encará-lo como vítima e sacrificando milhares de vidas em sua busca pelo amor de papai.

           

A terapia teria custado menos ao mundo.

 

Observação: ao final dos créditos, a inicial “W.” surge a partir da transformação de um crucifixo cristão, num resumo perfeito do que representou a gestão do 43º. Presidente dos Estados Unidos.

 

25 de Abril de 2009

 

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.