Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Fim da Escuridão
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/01/2010 Unknown
Distribuidora

 

 


O Fim da Escuridão
The Edge of Darkness

O Fim da Escuridão

Dirigido por Martin Campbell. Com: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Bojana Novakovic, Jay O. Sanders, Gabrielle Popa, Denis O’Hare.

Mel Gibson parece ter construído sua carreira sobre um alicerce de pais e maridos enlutados em busca de vingança: de Mad Max a O Patriota, passando por Máquina Mortífera, Coração Valente e até, de certa forma, O Preço de um Resgate e Sinais, o ator se especializou em construir tipos intensos e sofredores que, se derramam lágrimas em um instante, no segundo seguinte já estão com armas na mão e prontos para arrancar o sangue daqueles que destruíram sua família. Assim, depois de oito anos sem protagonizar um projeto, é natural que ele tenha escolhido um veículo no qual se sentisse confortável e que soasse familiar também para os espectadores – e mesmo não sendo um grande filme, este O Fim da Escuridão ao menos prova que Gibson ainda pode carregar um projeto com facilidade.

Inspirado numa minissérie realizada para a tevê britânica em 1985, o roteiro de William Monahan (Os Infiltrados) e Andrew Bowell gira em torno do detetive Tom Craven (Gibson), que, viúvo e solitário, recebe a visita de sua única filha, Emma (Novakovic), funcionária de uma grande empresa sobre a qual ele nada sabe. No entanto, depois que ela é assassinada na porta de sua casa, Craven passa a desconfiar que a moça tenha sido executada em função de algo que ocorreu em seu trabalho – e não por engano, como suspeitam seus colegas da polícia (que acreditam que o próprio Tom tenha sido o alvo do atentado). Enquanto busca evidências que comprovem sua teoria, o detetive acaba sendo abordado pelo misterioso Jedburgh (Winstone), cujos interesses se mantêm obscuros e que pode estar associado ao poderoso Jack Bennett (Huston), presidente da corporação que empregava Emma.

Dono de uma intensidade característica, Gibson encarna o protagonista como um sujeito determinado, mas instável: freqüentemente agindo por impulso, Craven se mostra um investigador capaz, mas também um homem realmente ameaçador (ao ouvir que seus inimigos estão armados e são perigosos, ele retruca sem hesitar: “E eu sou o quê?” – e acreditamos nele). Sem tentar disfarçar suas profundas linhas de expressão, as rugas em torno dos olhos e os cabelos mais ralos, o ator demonstra uma falta de vaidade reveladora e muito bem-vinda, já que sua aparência cansada contribui imensamente para o papel. Ao mesmo tempo, Gibson demonstra ainda possuir o mesmo ímpeto explosivo da juventude, mostrando-se sempre convincente nas seqüências de ação – e quando Craven saca a arma para disparar em um carro que vem em sua direção, sua expressão dura e concentrada e os gestos rápidos denotam a habilidade de um homem que não precisa pensar antes de agir.

Além disso, como os últimos anos trouxeram uma imensa e negativa exposição para o ator/diretor (além do anti-Semitismo patente de A Paixão de Cristo, ele manifestou seu preconceito em comentários igualmente reprováveis feitos durante uma bebedeira), é curioso observar que O Fim do Escuridão e o próprio Gibson não hesitam em fazer referências a alguns dos aspectos mais notórios da personalidade do astro: Craven é retratado como um homem que não gosta de álcool e que, ao ver a filha ferida, tenta lhe dar a extrema-unção (o ator é notório por ser um católico conservador) – isto para não esquecermos o momento em que, ao pressionar um importante político, o sujeito diz: “Você tem que decidir se quer ser o cara na cruz ou aquele que vai bater os pregos”. Porém, de forma curiosa, esses instantes acabam enriquecendo o personagem em vez de soarem como distrações. Além disso, a expressividade de Gibson, mesmo que às vezes peque pelo exagero, é sempre um aspecto fascinante em suas atuações – e reparem, por exemplo, no excepcional momento em que, em pé ao lado da pia, ele finalmente percebe algo feito pelos vilões e demonstra uma resignação frustrada diante da descoberta.

No entanto, o personagem mais interessante de O Fim da Escuridão talvez seja mesmo o enigmático Jedburgh encarnado de maneira complexa por Ray Winstone. Se parte do fascínio despertado pelo sujeito se deve ao fato de jamais compreendermos exatamente quais são seus interesses e motivações, o fato é que o ator merece créditos também por conferir uma curiosa aura de tristeza ao agente. Além disso, Jedburgh parece se encontrar num momento sensível em sua vida, já que, além de questionar com tristeza o fato de jamais ter tido filhos, ele confessa estar sofrendo alucinações relacionadas ao próprio pai – e como não apreciar um matador que, ao ter os olhos examinados por um médico, pergunta se este conseguiu enxergar “sua alma”? Em contrapartida, Danny Huston, como Jack Bennett, se beneficia mais da direção de arte do que de sua própria composição, já que descobrimos mais sobre a natureza ameaçadora do executivo através de seu escritório imponente do que pela maneira desinteressante com que ele se comporta. Finalmente, os eternos coadjuvantes Jay O. Sanders e Denis O’Hare encarnam com segurança os tipos ambíguos e antipáticos com os quais já estão mais do que habituados.

Responsável por comandar a minissérie original, o diretor Martin Campbell (Cassino Royale) se sai bem nas seqüências de ação vistas em O Fim da Escuridão, embora jamais consiga estabelecer um ritmo fluido para a narrativa – que, além disso, falha ao não criar a atmosfera de urgência tão importante para a história. Sim, o plano inicial, que mostra um lago à luz do luar e o surgimento de três corpos, é evocativo e parece sugerir uma atmosfera noir interessante, porém essa promessa jamais se sustenta, o que é lamentável. Da mesma maneira, para um longa que se propõe a seguir o subgênero “filme de vingança”, O Fim da Escuridão conta com um roteiro que parece se concentrar mais no falatório e na exposição do que na ação, o que acaba se revelando um problema. Além disso, a trama se apresenta mais complicada do que o necessário, pecando, também, por tentar incluir um subtexto político que definitamente não se adequa aos propósitos da narrativa.

Mas talvez o mais decepcionante seja perceber os esforços artificiais do roteiro para enviar o espectador para fora do cinema com uma sensação de “final feliz” – mesmo que, para isso, tenha que apelar para uma abordagem quase metafísica (para dizer o mínimo) que simplesmente vai de encontro ao tom realista adotado por Campbell até então.

Seja como for, é bom ter Mel Gibson de volta. Posso até não gostar do sujeito fora das telas, mas não há como negar que, diante das câmeras, ele é sempre fascinante.

29 de Janeiro de 2010

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.