Críticas por Pablo Villaça

Poster: Procedimento Operacional Padrão
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
31/10/2008 Unknown
Distribuidora

Direção

Errol Morris

Produção

Errol Morris

Fotografia

Robert Chappell , Robert Richardson

Música

Danny Elfman

Montagem

Andy Grieve

Design de Produção

Steve Hardie

Figurino

Marina Draghici

 

 


Procedimento Operacional Padrão
S.O.P. - Standard Operation Procedure

Procedimento Operacional Padrão

Dirigido por Errol Morris.

 

Quando as centenas de fotos expondo cenas de tortura na prisão de Abu Ghraib foram divulgadas na Internet, o mundo se viu diante de imagens que, por si só, resumiam à perfeição a insanidade e a crueldade facilitadas pelas políticas genocidas de George W. Bush e sua “guerra santa” contra o “terror”. Encobertos pela desculpa de buscar informações sobre células e ações terroristas, os militares norte-americanos ignoraram a Convenção de Genebra e passaram a tratar seus prisioneiros com uma brutalidade ímpar, recorrendo à tortura física, moral e psicológica sem qualquer puder – e, de repente, as evidências deste tratamento estavam à disposição de todos a um clique do mouse.

 

Mas o que aquelas fotos revelavam, precisamente? E o que não revelavam? E por que qualquer ser humano com o mínimo de bom senso (para não dizer caráter) tiraria ou posaria para aquelas fotos? São estas questões que o veterano documentarista Errol Morris busca investigar neste Procedimento Operacional Padrão. Ao contrário de tantos outros filmes sobre a guerra no Iraque, Morris não está particularmente interessado nos aspectos políticos do conflito ou nos equívocos de Bush Jr. (ao menos, não inicialmente), mas sim no contexto no qual aquelas imagens específicas foram feitas e por quê.

 

Sempre com seu interessante recurso de empregar um prisma diante das lentes para que os entrevistados vejam o rosto do diretor enquanto olham diretamente para a câmera (algo que fez em A Névoa da Guerra), Morris inclui depoimentos dos principais envolvidos naquele escândalo, incluindo Lynndie England, que ganhou fama (ou melhor: infâmia) ao posar segurando um detento por uma coleira. Mas o que vimos ali refletia a realidade? England realmente humilhava os detentos segurando-os com uma coleira? Ou aquela cena foi criada especificamente para a foto e, portanto, não teria ocorrido sem a presença das câmeras? E o mais importante: o que ocorria quando não havia câmeras por perto?

 

Argumentando que os principais atos de tortura ocorriam durante os interrogatórios e eram levados a cabo por militares de alta patente (em contraste com todos os punidos pelas fotos, que tinham baixa hierarquia), o filme procura demonstrar que, dentro de um contexto mais amplo, as imagens tiveram até um efeito positivo, já que foi somente graças a elas que os abusos em Abu Ghraib foram expostos – mas que, paradoxalmente, toda a investigação acabou se concentrando exclusivamente nos retratos, permitindo que os verdadeiros torturadores (e a política que os gerou) fossem ignorados pela mídia e pela opinião pública.

 

Interessante em função de sua abordagem diferenciada, Procedimento Operacional Padrão infelizmente falha ao cometer o mesmo equívoco que tenta apontar: concentrando-se exclusivamente nas fotos, Errol Morris também se esquece de nomear os grandes culpados que criaram as condições para que atos pavorosos como aqueles fossem cometidos em primeiro lugar. E, com isso, seu filme, embora intelectualmente fascinante, torna-se politicamente vazio. 

30 de Outubro de 2008

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.