Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
01/05/2014 Unknown
Distribuidora
Sony Pictures

 

 


O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro
The Amazing Spider-Man 2

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

Dirigido por Marc Webb. Roteiro de Alex Kurtzman, Roberto Orci & Jeff Pinkner. Com: Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Sally Field, Colm Feore, Dane DeHaan, Campbell Scott, Chris Cooper, Embeth Davidtz, Marton Csokas, Denis Leary e Paul Giamatti.

Não sou fã de O Espetacular Homem-Aranha, “reimaginação” (nada imaginativa) que Marc Webb dirigiu há dois anos. Irregular do início ao fim, aquela produção soava como um cínico caça-níqueis que se limitava na maior parte do tempo a copiar a série de Sam Raimi de maneira pedestre apenas para pontualmente se arriscar em modificações desastrosas que serviam apenas para eliminar a já quase inexistente coesão do terrível roteiro. E é justamente por esta razão que a eficácia desta continuação é tão surpreendente, já que, ao contrário de seu antecessor, O Espetacular Homem-Aranha 2 salta com segurança do humor ao drama, criando ainda sequências de ação eficazes e finalmente definindo o temperamento de seu herói de maneira inquestionável. E mesmo que ainda empalideça diante de O Homem-Aranha 2, esta continuação é indiscutivelmente melhor que os três outros longas protagonizados por Peter Parker.

Escrito pelo estreante Jeff Pinkner ao lado dos veteranos Alex Kurtzman e Roberto Orci (responsáveis, entre outras coisas, pelo reboot da série Star Trek), o filme já começa com uma excelente sequência de ação que revela os momentos finais do casal Parker (Scott e Davidtz), saltando, então, para os dias atuais que trazem Peter (Garfield) obviamente se divertindo imensamente como o Homem-Aranha. Inseguro apenas com relação ao seu namoro com Gwen Stacy (Stone, adorável), já que prometeu ao pai da moça que se afastaria, Peter leva a sério seu papel de super-herói, sendo admirado pela população de Nova York por seus repetidos salvamentos espetaculares. Um de seus fãs, aliás, é o carente Max Dillon (Foxx), que, funcionário da Oscorp, acaba se envolvendo num acidente absurdo (claro) que o transforma no perigoso Electro – e quando tudo já parece complicado o bastante, Harry Osborn (DeHaan, um Leonardo DiCaprio demente), velho amigo do herói, retorna à cidade. E todos sabemos como isto irá terminar.

Hábil ao retratar a alegria do protagonista ao cruzar a cidade pendurado em sua teia, o diretor Marc Webb e o ator Andrew Garfield levam o espectador a experimentar a liberdade sentida por Peter em seus pequenos voos – e o senso de humor do sujeito ao lidar com os bandidos que insistem em enfrentá-lo torna-se, ao contrário do que ocorreu nos quatro capítulos anteriores, sua marca registrada definitiva (e o filme não teme remeter repetidamente à irreverente série de tevê através de seu inesquecível tema, que é assoviado por Parker e usado como ringtone de seu celular). Assim, se no longa passado Garfield parecia oscilar entre os modos deprimidos e as tiradas hilárias dependendo do uso do uniforme (o que parecia transformá-lo numa versão multicolorida de Bruce Wayne/Batman), aqui sua personalidade jovial mostra-se presente mesmo nos momentos nos quais ele precisa se desdobrar para não permitir uma única morte (embaraçando, no processo, o Superman de O Homem de Aço, que ajuda a matar meia Metrópolis).

Não que o filme em si não tropece em certos momentos ao buscar um tom para a narrativa: quando somos apresentados ao personagem de Jamie Foxx, por exemplo, a composição do ator, a abordagem do diretor e a trilha parecem flertar perigosamente com o mesmo camp que destruiu os Batmans de Joel Schumacher – e mesmo as calças pega-frango usadas pelo sujeito surgem como um exagero da figurinista Deborah Lynn Scott. É por isso que é um alívio perceber como a transição de Dillon de sujeito pacato e inofensivo a vilão perigoso é conduzida com talento por Webb e Foxx, ainda que a trilha continue a pecar pelo exagero e o conceito visual de Electro não seja dos mais criativos.

Errando também no excesso de diálogos expositivos e no sentimentalismo barato ao incluir um avião em perigo no terceiro ato (com toda a cidade em caos, era mesmo necessário estender os já generosos 142 minutos de projeção com cenas envolvendo controladores de voo e pilotos confusos apenas para entendermos o que já está óbvio?), O Espetacular Homem-Aranha 2 ainda escorrega ao trazer tia May (Field) dando ordens em um hospital, como se o próprio filme se esquecesse de que há pouco ela estava apenas começando sua nova carreira. Como se não bastasse, os efeitos digitais usados para criar o super-herói são irregulares, surgindo como uma artificial animação particularmente na cena que o traz dentro de um carro-forte. Além disso, a trilha composta por três profissionais insiste em comentar cada passagem da narrativa, indicando ao público o tom de cena por cena – e até mesmo quando desaparece subitamente, o objetivo é justamente que notemos sua ausência (como no instante em que Gwen comunica algo a Peter).

Por outro lado, se antes Marc Webb insistia em um tom constantemente sombrio (talvez motivado pela abordagem que transformou o Batman de Christopher Nolan em sucesso), aqui ele abraça de vez as cores fortes e a dinâmica dos quadrinhos, o que se revela a decisão correta, já que Peter Parker está longe de ser Bruce Wayne. Mais seguro também na condução da ação, o cineasta é particularmente feliz ao empregar o efeito bullet time para ilustrar o “sentido aranha” do herói, também saindo-se admiravelmente bem no complexo clímax do longa, que permite que compreendamos a geografia das cenas sem que para isso ele tenha que reduzir o ritmo da montagem. Além disso, as várias elipses que cobrem alguns meses da vida de Peter Parker, nos minutos finais de projeção, são ao mesmo tempo elegantes e econômicas.

Corajoso ao investir num desfecho dramático que se torna ainda mais eficiente graças à leveza que o antecipou por duas horas, O Espetacular Homem-Aranha 2 é o contraponto de todas as promessas não cumpridas de seu antecessor. Não justifica completamente a necessidade de um reboot tão pouco tempo depois da franquia original, é verdade, mas ao menos parece ter sido motivado pelo desejo de divertir – e não só pelo de render mais algumas centenas de milhões de dólares ao seu estúdio às custas da paixão do espectador por seu ótimo protagonista.

Observação: em algumas cópias, há uma cena de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido durante os créditos finais.

30 de Abril de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.