Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Inferno de Henri-Georges Clouzot
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/05/2010 Unknown
Distribuidora

 

 


O Inferno de Henri-Georges Clouzot
L´enfer d´Henri-Georges Clouzot

O Inferno de Henri-Georges Clouzot

Dirigido por Serge Bromberg e Ruxandra Mendrea. Com: Catherine Allégret, Romy Schneider, Bérénice Bejo, Jacques Gamblin.

Cineasta incrivelmente metódico que planejava cada um de seus quadros com a precisão de um relojoeiro, Henri-Georges Clouzot era visto quase como um adversário, um “anti-exemplo”, para os realizadores que encabeçavam a nouvelle vague – e embora Godard, Truffaut & Cia. tenham realizado sua parcela de obras-primas, o fato é que Clouzot era um gênio justamente por se dedicar com tamanho cuidado aos seus projetos.  Ainda assim, em 1964, o diretor francês acabou sendo derrubado justamente por sua natureza obsessiva de encarar o trabalho.

Determinado a repetir a proeza de Fellini 8 ½ e “reinventar o Cinema”, Clouzot escreveu um roteiro que girava em torno de um casal (vivido por Serge Reggiani e Romy Schneider) que entrava em profunda crise graças aos ciúmes doentios do marido por sua maravilhosa esposa. A idéia de Clouzot era fazer com que L’enfer (O Inferno) se destacasse justamente ao dar vida aos delírios enciumados de Reggiani: enquanto as cenas “normais” seriam rodadas em preto-e-branco, as fantasias do sujeito surgiriam em Technicolor. Mas não só: o diretor pretendia criar efeitos ópticos inovadores através de jogos de sombras, luzes, maquiagem, sobreposição de imagens e todo um arsenal que montaria ao longo de meses e meses de intermináveis testes. E foi aí que o sonho da maioria dos cineastas se transformou na maldição do cineasta: ao ganhar dos estúdios norte-americanos que co-produziram o longa a possibilidade de trabalhar com um orçamento colossal, Clouzot praticamente enlouqueceu, entregando-se a todo e qualquer desvario que lhe surgisse à mente, já que agora havia alguém disposto a pagar por suas viagens autorais.

O resultado foi um inferno que conferia nova dimensão ao título do projeto: os atores eram torturados por uma infinidade de testes de luzes e maquiagens (Schneider, em certo momento, surge esfregando os olhos doloridos depois de ser submetida a uma destas sessões; o cronograma de filmagens sofria a pressão da drenagem do lago que deveria servir como um dos cenários principais da história; o ator principal abandonou a empreitada por não suportar o temperamento de seu diretor; e, claro, o próprio Clouzot finalmente se tornou vítima de um ataque cardíaco. 185 latas e 13 horas de imagens capturadas depois, L’enfer foi abandonado.

Todos estes incidentes descritos acima vêm à tona ao longo de O Inferno de Clouzot, documentário que, como principal destaque, recuperou o material rodado em 1964 graças a uma doação da viúva do cineasta – e é impressionante constatar a qualidade das imagens (um dos diretores do filme, Serge Bromberg, trabalha justamente com a preservação de películas). Mas não só a clareza das cenas impressiona; o conteúdo das latas, também: não há como sabermos se L’enfer prestaria como longa-metragem, mas parece correto afirmar que as experimentações de Clouzot certamente se destacariam (é fascinante, por exemplo, notar as mudanças na expressão de Schneider em planos sem cortes que eram criadas apenas a partir do jogo de sombras sobre o rosto da atriz). Igualmente interessante é perceber o próprio processo de criação do diretor e reparar, por exemplo, como seus storyboards indicavam uma pré-visualização precisa daquilo que ele gostaria de rodar, já que, nos planos filmados, a similaridade é patente (inclusive na posição de figurantes).

Aliás, fica óbvio, também, que L’enfer seria uma obra imensamente sensual: absurdamente linda, Romy Schneider parece ter aceitado sem reservas a visão de Clouzot – e vê-la girando os quadris ao esquiar na água ou brincando com uma mola na cama é algo que tiraria o sono de qualquer espectador. Por outro lado, as falas reencenadas por atores modernos indicam que os diálogos precisariam de mais trabalho para que pudessem funcionar bem.

Infelizmente, com exceção das imagens recuperadas, o documentário não tem muito a oferecer: as entrevistas com ex-colaboradores de Clouzot são burocráticas e pouco reveladoras (com exceção do assistente de câmera que explica que os insistentes zooms in e out exigidos pelo cineasta foram batizados como “coito óptico” pela equipe; as reencenações surgem desnecessárias; a duração é maior do que o que seria necessário; e informações importantes são ignoradas pela dupla de diretores – como, por exemplo, o fato de Claude Chabrol ter rodado o roteiro de Clouzot em 1994, com Emmanuelle Béart no lugar de Schneider (falo, claro, de O Ciúme).

Chabrol, que, vale lembrar, foi um dos cabeças da mesma nouvelle vague que desprezava Henri-Georges Clouzot. O mundo dá voltas.

(Texto originalmente publicado durante a cobertura da Mostra de SP 2009.)

29 de Outubro de 2009

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.