Críticas por Pablo Villaça

Poster: Super 8
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
12/08/2011 Unknown
Distribuidora

 

 


Super 8
Super 8

Super 8

Dirigido por J.J. Abrams. Com: Joel Courtney, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills, Kyle Chandler, Ron Eldard, Glynn Turman, Noah Emmerich, Dan Castellaneta, Bruce Greenwood.

Super 8 vale mais pelo sentimento de nostalgia que inspira do que pela qualidade de sua narrativa. Apropriadamente produzido por Steven Spielberg e trazendo a vinheta marcante de sua Amblin no início da projeção, o filme de J.J. Abrams é uma clara homenagem a trabalhos como Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T. e Os Goonies (cujo argumento é de Spielberg), bebendo assumidamente no clima de produções similares realizadas no fim da década de 70 e início da de 80.

Escrito pelo próprio Abrams, o roteiro acompanha um grupo de crianças que, no verão de 1979, se esforça para finalizar um filme amador em 8mm que parece tentar combinar o noir com o gênero zumbi (imaginem Sam Spade numa produção de George Romero). Certa noite, enquanto rodam uma cena numa estação ferroviária, acabam testemunhando um desastre espetacular que envolve uma aparente conspiração governamental para ocultar uma criatura que logo começa a atacar a cidade. Buscando desvendar o mistério por trás do ser ameaçador, elas ainda devem lidar com a incompreensão dos adultos, com o surgimento do primeiro amor e, claro, com as dificuldades de se rodar uma produção independente.

Assumindo o ponto de vista das crianças como base da narrativa, Super 8 tem seus melhores momentos justamente ao enfocar a dinâmica entre os jovens, desde a fascinação que o desconhecido desperta no grupo até a falta de foco presente em suas conversas – como na cena em que, numa lanchonete, começam a debater o que testemunharam e logo desviam para brincadeiras, provocações e discussões paralelas. Além disso, Abrams não demora a adotar temas recorrentes na filmografia de Spielberg, como a ausência da figura paterna, e também elementos visuais típicos das obras infanto-juvenis da carreira do cineasta, como a abundância de lanternas e bicicletas. Da mesma maneira, o diretor emprega várias outras assinaturas narrativas do “mentor”, como os travellings recorrentes que se aproximam dos rostos dos atores e a própria utilização marcante da trilha sonora (e, neste sentido, Michael Giacchino, colaborador habitual de Abrams, acerta em cheio ao criar temas que remetem diretamente às trilhas características das aventuras/fantasias da década de 80).

Com uma fotografia que oscila bem entre a escuridão assustadora e o cotidiano iluminado e nostálgico dos heróis (além de, claro, exagerar nos reflexos luminosos – ou flares – que se tornaram quase uma assinatura de Abrams), Super 8 é impecável em seus valores de produção, desde o design que reconstrói com eficiência o período enfocado até os detalhes de objetos de cena e figurinos (como a óbvia peruca que cobre a cabeça de um quase figurante e que ajuda a compor a lógica daquela cidade e de seus habitantes). De forma similar, os efeitos visuais também são eficientes – especialmente na sequência envolvendo o desastre de trem, que ainda conta com um design de som espetacular. Por outro lado, os efeitos sonoros desapontam por apostar no clichê ao conceberem o rugido da criatura – que, como em Cloverfield, também decepciona em seu visual confuso e sem personalidade (o que explica em parte por que o filme funciona melhor enquanto Abrams não a revela, extraindo uma lição importante de Tubarão ao mantê-la escondida durante a maior parte do tempo nas sombras, atrás de árvores ou mesmo de imensos sinais luminosos).

Aliás, quanto mais Super 8 revela ao espectador, pior fica: não só sua criatura é patética (incluindo aí a revelação-“clímax” de seus olhos, numa tentativa pavorosa de humanizá-la), como também suas motivações – e é impossível, em retrospecto, defender a explicação do filme para o que ocorre com os humanos capturados pelo “monstro” (especialmente se considerarmos o que ocorre no terceiro ato e que é conveniente e artificial em excesso). Além disso, a subtrama envolvendo as relações de Joe (Courtney) e Alice (Fanning, fabulosa) com seus respectivos pais são maniqueístas e melodramáticas, tentando desavergonhadamente emocionar através do clichê e de uma resolução nada convincente. Como se não bastasse, Abrams ainda cria um vilão fraquíssimo que, mesmo vivido pelo bom Noah Emmerich, não passa de uma caricatura do militar enlouquecido.

Assim, é lamentável que, mesmo triunfando como viagem de nostalgia, Super 8 falhe como filme, empalidecendo diante de outras obras com propostas similares e realizadas de maneira bem mais eficiente (como, por exemplo, O Gigante de Ferro e A Casa Monstro). Talvez J.J. Abrams devesse ter seguido os passos de seus jovens personagens e sacrificado um pouco da técnica em prol da intuição – e não é à toa que o melhor momento do longa vem nos créditos finais, quando finalmente podemos assistir ao curta rodado pelas crianças e no qual o diretor parece ter se permitido a pura diversão.

Mas nunca é um bom sinal quando uma produção oferece sua sequência mais memorável depois que chega ao fim.

12 de Agosto de 2011

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.