Críticas por Pablo Villaça

Poster: Faroeste Caboclo
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
30/05/2013 Unknown
Distribuidora

 

 


Faroeste Caboclo
Faroeste Caboclo

Faroeste Caboclo

Dirigido por René Sampaio. Com: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Felipe Abib, Antônio Calloni, César Troncoso, Marcos Paulo, Cinara Leal, Juliana Lohmann, Rodrigo Pandolfo.

Tudo pode servir de inspiração ao Cinema: livros, peças teatrais, poesias, quadros, videogames e até mesmo jogos de tabuleiros – e mesmo que adaptações diretas de canções não sejam tão comuns, tampouco são raríssimas (vide a filmografia dos Beatles, o ótimo Unidos pelo Sangue e o curioso Deixem-nos Viver, por exemplo). Além disso, se há uma música nascida para o Cinema, esta é a famosa composição de Renato Russo, que traz em sua letra uma narrativa verdadeiramente épica e com óbvio potencial dramático. O que é surpreendente é que a obra tenha originado um filme com personalidade própria que, evitando reverenciar sua fonte excessivamente, toma liberdades pontuais e se apresenta como um trabalho forte e independente da canção.

Com um roteiro escrito a quatro mãos por Victor Atherino e Marcos Bernstein (colaboradores em Somos Tão Jovens), o longa acompanha, claro, a jornada de João (Boliveira), que, nascido em Santo Cristo, se muda para Brasília ao tornar-se adulto, tornando-se parceiro do primo Pablo (que belo nome, o do personagem de César Troncoso) e apaixonando-se pela universitária Maria Lúcia (Valverde). Entre pequenos flertes com o crime e muitas tentativas de levar a vida honestamente, João acaba tornando-se inimigo do traficante Jeremias (Abib), que conta com o brutal policial Marco Aurélio (Calloni) como seu protetor.

Abrindo a narrativa em um primeiríssimo plano que, ao remeter aos quadros clássicos de Sergio Leone, já indica a intenção do filme de levar seu título a sério, Faroeste Caboclo mergulha em um longo flashback a fim de contextualizar o duelo apresentado em seus segundos iniciais – e a ótima montagem de Márcio Hashimoto é inteligente ao empregar raccords elegantes nos saltos temporais que se mostram comuns na primeira metade da projeção (como ao usar o elevar de uma arma por João para retornar a um momento similar em sua infância). Assim, aos poucos o filme vai preenchendo a história do protagonista, permitindo que conheçamos suas motivações à medida que acompanhamos seu envolvimento com novos personagens. Da mesma maneira, é admirável testemunhar a economia da narrativa, que salta anos na cronologia através de um contra-plongé envolvendo um balde em um poço e outros tantos ao trazer João saindo da FEBEM quando julgávamos que ainda estava entrando na instituição.

Enquanto isso, a ótima fotografia de Gustavo Hadba estabelece com segurança o desenvolvimento da trama, saltando do sertão dessaturado e quente da infância/adolescência de João (incluindo dois belíssimos planos que retratam sua despedida da mãe) às noites de neon e cores de Brasília, passando pela escuridão opressiva de celas de cadeia até culminar na cena final, que contrapõe o terreno poeirento e marrom ao vermelho do sangue dos personagens e ao branco da cocaína que torna o confronto inevitável. Neste meio tempo, Hadba e o diretor René Sampaio criam imagens poderosas como aquela que traz Maria Lúcia caminhando sofrida em direção a um exterior superexposto que a engole e também como o lindo plano que usa o reflexo invertido da lataria de um carro para contrapor o casal principal, ilustrando seu desentendimento.

Brincando com a expectativa do público, que certamente entra na sala já esperando reconhecer na tela os elementos da música, René Sampaio ainda demonstra irreverência ao trazer uma banda que, vista nas cenas em Brasília, é claramente uma representação da jovem Legião Urbana, aproveitando também para incluir, logo no início, um plano-detalhe da famosa Winchester 22 que desempenha papel tão marcante na canção (e vale apontar como o filme emprega os acordes iniciais da composição apenas para abandoná-los até os créditos finais, numa decisão inteligente e corajosa).

Beneficiado pela experiência do preparador Sérgio Penna, Faroeste Caboclo também se destaca graças ao seu forte elenco: se Antônio Calloni já surgia ameaçador em Anjos do Sol, por exemplo, aqui é a vilania encarnada, transformando Marco Aurélio em uma força capaz de levar o espectador a realmente temer pelo destino do herói, ao passo que Felipe Abib, como Jeremias, cria uma figura que oscila bem entre um playboyzinho patético e um sociopata em formação. Já o uruguaio César Troncoso, tão adorável em O Banheiro do Papa, converte Pablo (lindo nome) em um tipo cuja simpatia e devoção à família consegue nos fazer ignorar até mesmo sua natureza impiedosa, enquanto Isis Valverde evoca com sensibilidade a transição importante de Maria Lúcia, que, de jovem perdida e deprimida, parece reencontrar a própria alegria ao se apaixonar por João.

O que nos traz a Fabrício Boliveira, centro inquestionável do projeto e que confere uma intensidade fundamental a João de Santo Cristo. Dono de olhos ameaçadores e de uma postura capaz de indicar sem hesitação sua dominância na selva que passa a habitar (como no instante em que deixa claro a um capanga do primo que agora irá ocupar o banco da frente do carro), Boliveira ainda assim sugere com eficiência os esforços de seu personagem para fazer aquilo que considera certo – e a flor de madeira que esculpe para a amada é um símbolo perfeito de sua personalidade ao mesmo tempo bruta e delicada.

Protagonizado, enfim, por um homem de poucas palavras e muita raiva, Faroeste Caboclo é um neo-western feijoada (sim, há o clássico) que, como se não bastasse todos os seus acertos, ainda transforma em campo de duelo o mais brasileiro dos espaços: um campo de futebol de várzea. E se o diretor René Sampaio já demonstrou tamanha segurança em seu longa de estreia, mal posso esperar para acompanhar seus próximos projetos.

11 de Junho de 2013

 

Observação: Também gravei um breve videocast sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.