Críticas por Pablo Villaça

Poster: Ela, de Spike Jonze
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
14/02/2014 Unknown
Distribuidora
Sony Pictures

 

 


Ela, de Spike Jonze
Her

Ela, de Spike Jonze

Dirigido por Spike Jonze. Com: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Chris Patt, Rooney Mara, Olivia Wilde, Matt Letscher, Portia Doubleday e as vozes de Scarlett Johansson, Brian Cox, Bill Hader, Spike Jonze e Kristen Wiig.

Há pouco tempo, um de meus personagens favoritos de uma série de tevê que acompanho foi executado de maneira cruel por um dos vilões da produção. Nos dias seguintes, me descobri angustiado, triste e, não pela primeira vez, percebi que me encontrava em luto por alguém que jamais havia vivido de fato. Não fiquei surpreso: este não é um sentimento diferente da alegria que experimentamos quando vemos o casal de uma comédia romântica se beijando no aeroporto, quando ela se encontrava prestes a partir, ou do terror que sentimos quando Freddy Krueger se aproxima de uma vítima. Os protagonistas de todos estes momentos podem ser ficcionais, mas o arrepio na espinha, o acelerar do coração e a lágrima que provocam são inquestionavelmente reais.

Mesmo considerando todos os nossos defeitos como membros de uma espécie fadada à autodestruição, somos criaturas com necessidades óbvias de amar, de compartilhar experiências, de oferecer nosso carinho e de sentir algum afeto em troca.

Este novo e fabuloso trabalho dirigido e escrito por Spike Jonze aborda estas necessidades ao nos apresentar a Theodore Twombly (Phoenix), que, numa Los Angeles futura, tenta lidar com a separação da esposa com quem conviveu desde a infância, Catherine (Mara). Funcionário de uma empresa que se dedica a produzir cartas escritas à mão para clientes que querem expressar seu carinho por alguém, Theodore decide comprar um novo sistema operacional que, divulgado como o que há de mais novo em inteligência artificial, é supostamente capaz de interagir com os usuários de maneira bastante particular – mas, ainda assim, é com certa surpresa que o rapaz se descobre cada vez mais próximo (e mesmo apaixonado) pelo software que, autobatizado de Samantha (voz de Johansson), não só organiza sua vida como aparentemente ainda corresponde aos seus sentimentos.

A pergunta é: o amor que o protagonista sente pelo sistema operacional é real? E é realmente recíproco? Esta é uma questão que o longa parece apresentar já em sua cena inicial, bem antes de conhecermos Samantha: abrindo a narrativa com uma declaração feita por um Theodore aparentemente em modo confessional, olhando para a câmera e abrindo seu coração, Ela logo revela estar testemunhando apenas uma das ficções concebidas pelo rapaz em seu emprego. No entanto, mesmo que os sentimentos que ele manifesta nas cartas sejam artificiais, falsos, as reações que provocarão nos eventuais leitores serão absolutamente reais – e não é isto que, enfim, é o mais importante?

Amamos livros. Amamos personagens da ficção, brinquedos, canções e odores. Amamos ideias e seus criadores. Amamos cores, que nada mais são do que frequências específicas de fótons de luz. Amamos alguém com quem conversamos no Facebook ou no Whatsapp e com quem vivemos relações que começam, se desenvolvem e mesmo terminam através dos balõezinhos impessoais e artificiais de um aplicativo de telefone – o que não torna estes sentimentos menos dolorosos ou reais. Os avatares que vemos nas redes sociais se tornam eventualmente tão autênticos quanto os indivíduos que representam – e, em maior ou menor grau, podemos dizer que amamos não aquelas pessoas com as quais nos envolvemos, mas sim a ideia que construímos delas. Uma representação concebida através de suas ações e de nossa percepção e interpretação destas.

Não é à toa que, de maneira inteligente, Jonze e seu designer de produção K.K. Barrett concebem a Los Angeles do filme como uma cidade dominada por cores chapadas, que, sugerindo um mundo diferente do nosso em função de sua estilização, ainda assim jamais soa absurdo ou desagradável. Sim, estamos vendo o “futuro”, mas um futuro perfeitamente plausível. Antes de dormir, por exemplo, Theodore busca uma interação virtual que o leve a um gozo rápido e impessoal, o que não é muito diferente das salas de bate-papo ou de algo como o ChatRoulette, ferramentas que, de certa forma, basicamente transformam o ser humano do outro lado da tela em um mero aplicativo de estímulo e satisfação pessoal cujo objetivo final é o orgasmo inevitavelmente solitário. Assim, quando o rapaz começa a se relacionar com Samantha, fica claro que o que constroem se torna mais real do que a interação breve e impessoal com a “sexykitten” (ponta de Kristen Wiig) encontrada numa consulta rápida na Internet.

Isto, porém, transforma Samantha em alguém real? Ora, a voz que expressa a programação do sistema operacional é capaz de evocar dor, confusão, ansiedade e carinho. Parece compreender as frustrações e os anseios de Theodore com uma sensibilidade que se torna possível graças à sua capacidade de vasculhar os arquivos de seu computador e decifrar sua personalidade. Mais do que isso: ela exibe empatia. Suspira. Sofre – ou emite sons que sugerem sofrimento e que, por isso, tocam o protagonista. Ao suspirar, Samantha não está exibindo um traço biológico, mas um comportamento. E mesmo possuindo um intelecto vastamente superior ao do namorado (“namorado”?), ela jamais o julga por suas limitações, exibindo um traço claramente humano: aquele que dita que o sentimento fatalmente sobrepujará a razão. Com isso, ela se torna tão real (algo que se deve também, claro, ao trabalho formidável de Scarlett Johansson) que nem mesmo os amigos de Theodore parecem questionar seu relacionamento – mesmo que, aqui e ali, a voz de Samantha exiba – num toque brilhante do desenho de som – um componente eletrônico no final de suas frases.

Claro que, para que acreditemos neste romance, a performance de Joaquin Phoenix também se mostra essencial – e, aqui, o ator cria um de seus personagens mais sensíveis e vulneráveis. Sempre caminhando de maneira tristonha, Theodore não é, contudo, um ser antissocial, mantendo amizades fora do mundo virtual e se apresentando como um colega de trabalho agradável (uma decisão inteligente do roteiro, que, assim, demonstra que seu relacionamento com Samantha é uma opção, não uma fuga). Gentil e sensível, o sujeito encara os sentimentos de Samantha com respeito absoluto – e mesmo que questione o bom senso daquele namoro, ele jamais trata a “companheira” como um código binário de programação, demonstrando interesse pelos questionamentos da Voz e mesmo ciúme ao vê-la descobrir novas possibilidades. Neste aspecto, Phoenix merece aplausos por, mesmo constantemente sozinho em cena, convencer o espectador de estar sempre acompanhado pela namorada invisível.

E o fato é que ele está, já que os sentimentos construídos ali são autênticos. Claro, ela não tem um corpo, mas ele, por outro lado, não tem a capacidade intelectual da namorada – e relacionamentos não sempre assim: uma confluência de falhas e virtudes? Ora, o próprio Theodore, ao lembrar da ex-esposa, reconhece que ambos se tornaram quem são graças à troca de experiências e à convivência. Neste sentido, cada namoro que atravessamos não se resume ao prazer sexual/sentimental da presença do ser amado, envolvendo também um crescimento inevitável em função da troca de ideias, das discussões resultantes e do desejo de enxergar o mundo através do olhar do outro.

Um “outro” que, diga-se de passagem, surge mais como uma concepção do que como uma realidade absoluta. Quando relembramos um amor antigo, por exemplo, estamos construindo uma mera versão da pessoa que amamos, filtrando – de acordo com nossa necessidade inconsciente – seus defeitos ou virtudes. Assim, o sentimento resultante é genuíno ou fruto de memórias recontextualizadas? Realmente brigávamos o tempo todo com aquele(a) ex? Ele(a) era de fato nossa melhor experiência sexual? Ou estas impressões viscerais – e, portanto, aparentemente autênticas – são resultado de uma reinterpretação puramente racional?

Nossos sentimentos, enfim, são reais ou apenas expressões químicas de nossos pensamentos e dores? Não, mais importante do que isso: faz alguma diferença?

De acordo com este lindo filme de Spike Jonze, não, não faz.

E qualquer um que já tenha amado e sofrido por amor irá se reconhecer nesta constatação.

09 de Fevereiro de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.