Críticas por Pablo Villaça

Poster: Amor
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
18/01/2013 Unknown
Distribuidora
Imovision

 

 


Amor
Amour

Amor

Dirigido por Michael Haneke. Com: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell.

Depois de arrombarem a porta de um antigo apartamento, policiais franceses invadem o local. Cobrindo o nariz para evitar o mau cheiro, um deles abre as janelas enquanto os demais se ocupam em descobrir o que há em um aposento cuja entrada foi vedada com fita adesiva – e é ali que encontram o cadáver arroxeado de uma mulher idosa que, arrumada com cuidado sobre a cama, tem o corpo cercado por pétalas coloridas. Apenas três ou quatro minutos se passaram desde o início de Amor e o diretor austríaco Michael Haneke já ilustra, com sua brutalidade habitual, uma cena aparentemente cruel que, no detalhe das flores, revela a natureza por trás daquele ato: o sentimento que intitula a narrativa.

Filme relativamente doce para os padrões de um cineasta acostumado a torturar seu público e a encarar a humanidade com imenso ceticismo, Amor representa uma experiência difícil por nos lembrar o tempo inteiro de que todos dividiremos o mesmo desfecho: ricos ou pobres, conservadores ou liberais, ocidentais ou orientais, cessaremos de existir e nos converteremos em carne inanimada, em cadáveres de olhos apagados e esfíncteres abertos, cheirando a excremento e, em pouco tempo, a podridão sem em nada lembrarmos as figuras repletas de sonhos, mágoas, memórias, humores e amores que expuséramos ao mundo ao longo dos anos. Aliás, neste aspecto, Haneke já demonstra inteligência ao escalar os veteranos Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva nos papéis de Georges e Anne, casal que acompanharemos ao longo das duas horas seguintes – afinal, como representar melhor a implacável e inexorável passagem do tempo do que trazer, agora velhos e frágeis, os atores que víramos belos e cheios de vida em obras como Um Homem, Uma Mulher e Hiroshima Meu Amor?

Adotando um olhar objetivo e repleto de realismo através de sua estratégia habitual de rodar longos planos com uma câmera estática que só quebra esta imobilidade para acompanhar lateralmente os personagens em panorâmicas e travellings discretos, Michael Haneke nos apresenta a Georges e Anne em um período tranquilo de sua velhice: habituados e confortáveis com a presença um do outro após décadas de casamento, eles levam uma vida social ativa e parecem razoavelmente felizes em seu cotidiano tranquilo – até que o tempo os alcança e, cada vez mais adoentada, Anne se vê dependente do marido para tudo, o que leva a imensos sacrifícios por parte dos dois enquanto o apartamento vai se transformando em uma enfermaria triste à medida que passa a abrigar cadeira de rodas, cama de hospital e outros apetrechos médicos necessários para conduzir a mulher por mais um dia.

Remetendo ao doloroso drama islandês Vulcão, que demolia o espectador através dos ininterruptos gemidos de sofrimento de uma senhora inválida, Amor nos oferece contexto para a vida de seu casal principal através de pequenos interlúdios que servem como recortes de sua trajetória, desde os planos que revelam os vários aposentos que, vazios, expõem um mundo de histórias em sua aparência gasta, até o instante em que Anne folheia um álbum de fotografias que parecem ilustrar sua existência em pequenos saltos. Trata-se de uma abordagem evocativa, claro, mas seca como o restante da narrativa, já que Haneke não é diretor de se entregar ao melodrama – e, assim, as indignidades que passam a se acumular no cotidiano de Anne (como descobrir que urinou na cama e passar a usar fraldas que devem ser trocadas pelo marido) são enfocadas de forma direta, como simples fatos da vida. Além disso, o cineasta também explora pequenos e breves momentos de leveza na decadência da mulher, como na cena em que esta brinca com sua cadeira de rodas elétrica. O mais admirável em Amor, contudo, é o respeito que o diretor demonstra para com seus personagens – e mesmo que exiba passagens difíceis do dia a dia do casal, Haneke parece respeitar certos limites que acabam sendo expostos por uma fala dita por Georges: “Nada disso merece ser mostrado ou exibido” – uma postura diametralmente oposta àquela demonstrada, por exemplo, no desfecho do recente Lincoln, quando Spielberg simplesmente não resiste explorar a morte do presidente para arrancar algumas lágrimas adicionais.

Descartando qualquer trilha sonora que pudesse conferir drama artificial à narrativa, o diretor emprega, em vez disso, os sons diegéticos de maneira brilhante não só para criar determinadas atmosferas como também para oferecer informações importantes – e a torneira que Georges deixa aberta em certo momento, por exemplo, não só confere tensão à cena como, pouco depois, ao ser fechada fora de campo, nos alerta para o despertar de Anne. Da mesma forma, logo no início da projeção Haneke faz seu jogo habitual de obrigar o espectador a se encarar como tal ao incluir um longo plano no qual vemos uma plateia lotada que se prepara para assistir à performance de um músico – e como o cineasta se recusa a posicionar Georges e Anne no ponto mais forte do quadro, somos obrigados a percorrer os rostos de dezenas de figurantes em busca de alguma informação que possa ser relevante. Com isso, Haneke não apenas salienta o número de histórias possíveis presentes naquele ambiente como ainda força nossa identificação com o casal, que se encontra na tela como um reflexo do próprio espectador no meio de uma plateia.

Mas são as performances de Trintignant e Riva que acabam por conferir força descomunal ao filme: grisalhos, trágicos e vulneráveis com suas peles flácidas e repletas de manchas senis, eles incorporam com talento um casal que traz décadas de memórias compartilhadas – e parte da dedicação de Georges à esposa vem não só do amor e do carinho que sente por esta, mas da constatação de que boa parte do que ele próprio viveu reside agora apenas nas lembranças de Anne, morrendo com esta e destruindo boa parte de sua própria história. Além disso, vê-lo abraçado à mulher inválida enquanto a ajuda a percorrer pequenas distâncias em seu apartamento é um gesto que, por si só, carrega um mundo de significados – desde o mais simples (um homem que ajuda a esposa a se movimentar) até outros que evocam um passado de abraços apaixonados, de danças e carinhos.

Assim, não deixa de ser assustador pensar que, de certa forma, Anne é uma felizarda por ter tido a oportunidade de construir memórias e envelhecer – e que as indignidades de seu terceiro ato de vida são uma nota de rodapé sob o longo texto que representa sua jornada. E que, neste sentido, atravessamos nossas existências buscando estabelecer laços e despertar amores que nos tornem dignos de, ao fim, termos nossos corpos enfeitados com pétalas coloridas por aqueles que deixamos para trás.

20 de Janeiro de 2013

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.