Críticas por Pablo Villaça

Poster: Joe
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
Unknown Unknown
Distribuidora

 

 


Joe
Joe

Joe

Dirigido por David Gordon Green. Roteiro de Gary Hawkins. Com: Nicolas Cage, Tye Sheridan, Gary Poulter, Erin Elizabeth Reed.

Filme profundamente triste e povoado por personagens sem qualquer esperança no futuro, Joe é ancorado não só por uma direção sólida de David Gordon Green, que vem tentando se distanciar de seus tropeços cômicos em Sua Alteza? e O Babá(ca), mas também pela melhor atuação de Nicolas Cage desde Vício Frenético.

Escrito por Gary Hawkins a partir de um livro de Larry Brown, o longa se passa em uma pequena comunidade do Texas na qual vive Joe Ransom (Cage), que emprega trabalhadores locais na tarefa de envenenar árvores para que, já mortas, possam ser cortadas por fazendeiros da região sem que isto seja considerado crime. Certo dia, o sujeito conhece o jovem Gary (Sheridan), que se mudou para a cidade com a família depois que o pai alcoólatra, Wade (Poulter), foi mais uma vez escorraçado de onde moravam em função de suas ações. Aos poucos, Joe e Gary vão se tornando próximos, mas a amizade é complicada pelo temperamento explosivo do primeiro e pelos problemas do segundo com o pai.

Mostrando-se surpreendentemente contido pela primeira vez em muitos anos (mesmo exibindo um ou outro cageísmo pontual), Nicolas Cage oferece aqui uma das melhores performances de sua carreira: seu Joe é um homem simpático com os conterrâneos e adorado por quase todos, mas que obviamente enfrenta sérios problemas de personalidade. Estourado, alcoólatra e claramente depressivo e autodestrutivo, o sujeito já bebe uma dose de uísque ao acordar e parece estar lutando o tempo inteiro para controlar seus impulsos de agressividade. Ainda assim, ele demonstra uma preocupação genuína para com a garota que lhe pede abrigo e, especialmente, para com o adolescente que claramente tem sido uma vítima desde o nascimento. Trata-se de uma composição delicada, complexa e repleta de carisma que Cage acerta do início ao fim – e se o ator não for indicado a prêmios importantes, isto se deverá, infelizmente, à má fama adquirida nos últimos anos.

Enquanto isso, o jovem Tye Sheridan continua a construir a carreira mais meteórica dos últimos anos: depois de atuar nos excelentes A Árvore da Vida e Amor Bandido, o garoto volta a demonstrar imenso talento como Gary, que se mostra simultaneamente vulnerável e determinado. Em um instante, o menino se mostra revoltado com as atitudes do pai para, no momento seguinte, surgir brincando com o velho bêbado, evidenciando sentimentos conturbados que contrapõem sua lealdade familiar às dores trazidas pelo outro ao longo dos anos. Ainda assim, a grande revelação de Joe é mesmo o estreante Gary Poulter, que transforma Wade em um sujeito horripilante. Sempre bêbado, o velho é um homem de caráter violento e impulsivo, degradando a si mesmo e à família sem hesitar desde que isto possa lhe render uma dose a mais de álcool – e é realmente trágico que Poulter, um morador de rua, tenha morrido de forma trágica apenas meses depois desta sua estreia (e se considerarmos o desgaste de seu rosto, que parece muito mais velho que o de um homem de 53 anos, podemos constatar que há muito de sua vida na composição do personagem).

Hábil ao retratar o cotidiano daquela comunidade e empregando, como é seu hábito, rostos comuns em quase pontas, David Gordon Green adota uma abordagem simples e direta na maior parte da narrativa, evitando movimentos de câmera ou composições que chamem a atenção para si mesmos – o que não o impede, em certos momentos, de fazer opções corajosas como ao trazer um rápido plano no qual Gary empurra a câmera para longe de si, evidenciando sua raiva contida e o desejo compreensível de evitar o escrutínio por parte do espectador. Além disso, a rima visual criada entre o primeiro e o último plano do longa, que adotam quadros similares e, com isso, expõem claramente a evolução do personagem que aparece em ambos os momentos, demonstra inteligência e sensibilidade por parte do cineasta.

Sem medo de enviar o público para fora da sala de exibição tomado pela mesma angústia que corrói seus personagens, Green cria, em Joe, seu melhor trabalho. Que ele continue neste caminho.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2013.

6 de Outubro de 2013

 

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.