Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Espelho
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
03/07/2014 Unknown
Distribuidora
PlayArte

 

 


O Espelho
Oculus

O Espelho

Dirigido por Mike Flanagan. Roteiro de Mike Flanagan e Jeff Seidman. Com: Karen Gillan, Brenton Thwaites, Katee Sackhoff, Rory Cochrane, Annalise Basso, Garrett Ryan, James Lafferty, Kate Siegel.

O Espelho, em teoria, poderia ser apenas mais um entre tantos exemplares do gênero “terror” que Hollywood produz rotineiramente: apresentando-se como uma mistura dos subgêneros (se é que podemos chamá-los assim) “casa mal-assombrada”, “objeto possuído”, “terror familiar”, “espectro feminino de cabelos escuros” e “protagonista temendo a insanidade”, o filme tinha tudo para ser uma produção burocrática dependente da trilha sonora para causar sustos e com personagens unidimensionais cujos destinos são irrelevantes para o espectador. Poderia. Em vez disso, o longa dirigido por Mike Flanagan a partir de um roteiro co-escrito por ele e Jeff Seidman surge como um projeto que investe na tensão constante em vez de no choque pontual e que se mostra surpreendentemente eficiente ao criar uma atmosfera densa durante a maior parte da projeção.

Iniciando a narrativa já com a imagem de duas crianças que, aterrorizadas, olham através da fresta da porta enquanto o pai com expressão dura percorre os corredores sombrios da casa segurando um revólver, O Espelho logo passa a acompanhar o jovem Tim Russell (Thwaites), que, liberado de um sanatório depois de 11 anos de internação, tenta lidar com a tragédia de ter sido obrigado a matar o pai depois que este assassinou a esposa e se preparava para executar os dois filhos. Convencido de que os incidentes sobrenaturais que vivenciou foram apenas um mecanismo encontrado por sua mente para aliviar a dor, Tim é surpreendido ao perceber que a irmã Kaylie (Gillan) não só ainda acredita que o pai foi influenciado por algum tipo de espírito maligno como ainda encontra-se determinada a provar isto. Para alcançar este objetivo, a moça recupera o antigo espelho que julga responsável pela tragédia e planeja uma série de experimentos devidamente registrados em vídeo – o que dá início, claro, a mais uma noite de terror para os irmãos.

Alternando entre este experimento presente e os incidentes passados que revelam o que houve com os pais dos jovens (Cochrane e Sackhoff), O Espelho poderia facilmente ser prejudicado pelo fato de já sabermos como aqueles eventos antigos irão terminar. Porém, em vez de simplesmente preencher as lacunas, o bom roteiro vai gradualmente alterando a estrutura da narrativa: por um lado, acompanhamos, sim, um mergulho na insanidade por parte do patriarca da família ao melhor estilo O Iluminado; por outro, porém, a fronteira entre flashbacks e presente vai se diluindo a ponto de não sabermos mais se estamos de fato revendo fatos já ocorridos e, portanto, imutáveis ou se estamos testemunhando uma espécie de jornada temporal. Quando a montagem (feita pelo próprio Flanagan) usa fusões engenhosas para alternar entre as duas épocas, acabamos experimentando a sensação de que tudo ocorre simultaneamente, transformando aquelas figuras do passado em fantasmas, mas também em projeções de suas versões contemporâneas – e, assim, é fascinante perceber como, às vezes, a versão adulta de um dos irmãos acaba interagindo com a infantil do outro. Desta forma, a fluidez cronológica de O Espelho acaba se tornando seu maior e mais inesperado atrativo, contribuindo para a tensão e complexidade da história.

Demonstrando habilidade também como diretor de terror, Flanagan usa os recursos habituais do gênero para manter o espectador tenso: quadros constantemente fechados que sugerem alguma presença sinistra logo após os limites da tela; personagens que são situados no canto do quadro, evocando uma claustrofobia sufocante; sussurros distantes e ameaçadores; figuras que surgem subitamente em cena; entre outros clichês narrativos que acabam funcionando bem por serem empregados para ajudar o filme em vez de funcionarem como base deste. Além disso, a fotografia de Michael Fimognari mostra-se impecável ao empregar mudanças no esquema de luz para converter uma casa moderna, espaçosa e aconchegante em um ambiente sufocante, opressivo e ameaçador, ao passo que o design de produção acerta não só na concepção da casa, mas no uso de cores – e observem, por exemplo, como o verde presente nos figurinos iniciais de Kaylie fazem uma rima visual importante com as plantas que se tornam as primeiras “vítimas” do espelho, sugerindo que a própria garota teve sua vida ressecada pelas ações do objeto (e também é sintomático que a primeira aparição do espelho ocorra em um ambiente de paredes vermelhas).

Eficaz ao suavizar a necessidade dos diálogos expositivos ao trazer a moça contando a história trágica do personagem-título em uma apresentação que faz todo o sentido do ponto de vista narrativo, O Espelho é uma obra que trabalha por seus sustos em vez de tentar conquistá-los artificialmente através de acordes súbitos na trilha sonora ou de gatos que saltam sobre a mocinha vindos sabe-se-lá-de-onde. E só isso já o coloca acima de 90% das obras do gênero que saem de Hollywood todos os anos.

03 de Julho de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.