Críticas por Pablo Villaça

Poster: Depois de Lúcia
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/03/2013 Unknown
Distribuidora
Imovision

Direção

Michel Franco

Elenco

Tessa Ia , Hernán Mendoza

Roteiro

Michel Franco

Produção

Michel Franco

Fotografia

Chuy Chávez

Montagem

Michel Franco

Design de Produção

Evelyn Robles

 

 


Depois de Lúcia
Después de Lucía

Depois de Lúcia

Dirigido por Michel Franco. Com: Tessa Ia, Hermàn Mendoza.

Depois de Lúcia é o melhor filhote do Novo Cinema romeno... a ser produzido fora da Romênia. Adotando a estratégia da maior parte daquelas obras ao manter a câmera sempre estática e ao desenvolver sua narrativa a partir de longos planos que praticamente incluem cenas inteiras antes de cada corte, o filme de Michel Franco acabou sendo selecionado para representar o México na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo injustamente deixado de fora da lista de finalistas.

Concentrando-se na história da adolescente Alejandra (Ia) e de seu pai Roberto (Mendoza), a narrativa acompanha a dupla enquanto esta decide se mudar de Puerto Vallarta para a cidade do México após a morte da mãe da garota em um acidente de carro. Adaptando-se bem à nova escola enquanto o pai assume o posto de chef num restaurante renomado, Alejandra acaba cometendo um erro estúpido ao transar com um colega de sala em uma festa, permitindo que ele filme tudo – e quando o vídeo é visto por todo o colégio, ela passa a sofrer bullying sistemático por parte de todos.

Bullying, aliás, que aqui assume contornos de psicopatia coletiva, já que as humilhações sofridas pela menina ultrapassam em muito as já suficientemente abusivas agressões verbais, passando para torturas físicas que gradualmente se aproximam do insuportável e que são retratadas pela câmera impiedosa de Michel Franco como atos sempre realistas e sem qualquer dose de sensacionalismo – e os já citados planos extensos empregados pelo cineasta tornam a experiência torturante para o espectador, que é obrigado a testemunhar aquelas atrocidades na total passividade forçada pela existência da quarta parede, impedindo que façamos aquilo que nossos impulsos ditam, que é confortar Alejandra, alertar seu pai para os abusos e castigar os bullies.

E é aí que se encontra a inteligência narrativa de Depois de Lúcia: como o próprio título indica, tudo que ocorre durante a projeção acaba sendo fruto direto ou indireto da morte da mãe da protagonista, que, por não querer atormentar ainda mais o já deprimido Roberto, mantém em segredo tudo que vem sofrendo na escola, exibindo uma aparência de normalidade absolutamente convincente em suas interações com o sujeito. Este, por sua vez, se revela um pai compreensivo e amoroso – e confrontado com a revelação de que a filha fumara maconha, por exemplo, ele opta por uma conversa franca e madura em vez de por uma punição precoce. Por outro lado, à medida que a narrativa se desenvolve, torna-se claro que Roberto encontra-se num processo profundo de depressão: guardar os utensílios de cozinha dispara choros convulsivos e, aqui e ali, ele se entrega a pequenas explosões que se tornam cada vez mais intensas, iniciando com um pedido de demissão impensado, passando por uma briga no trânsito e culminando numa ação, durante o terceiro ato, que indica a dimensão da raiva que reprimiu desde que perdeu a esposa.

O que nos traz, claro, ao impiedoso plano que encerra a narrativa e que, deixando o espectador em suspenso (embora as consequências do que vimos sejam óbvias e nada auspiciosas), conclui um estudo de personagem complexo e corajoso, retratando uma questão cada vez mais relevante, comum e preocupante (o bullying escolar) através de nosso envolvimento com os multifacetados personagens.

Depois de Lúcia se torna, assim, não apenas um drama delicado e eficaz, mas também um filme contemporâneo e essencial.

10 de Outubro de 2012

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2012.

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.