Críticas por Pablo Villaça

Poster: Era Uma Vez em Nova York
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/08/2014 Unknown
Distribuidora
Europa Filmes

Direção

James Gray

Elenco

Marion Cotillard , Joaquin Phoenix , Jeremy Renner , Dagmara Dominczyk , Angela Sarafyan

Roteiro

James Gray , Ric Menello

Produção

James Gray

Fotografia

Darius Khondji

Música

Christopher Spelman

Montagem

Kayla Emter

Design de Produção

Happy Massee

Figurino

Patricia Norris

Direção de Arte

Pete Zumba

 

 


Era Uma Vez em Nova York
The Immigrant

Era Uma Vez em Nova York

Dirigido por James Gray. Roteiro de Gray e Richard Menello. Com: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner, Dagmara Dominczyk, Angela Sarafyan.

Era uma Vez em Nova York é uma obra com valores de produção fabulosos que, fortalecida pelo ótimo elenco, tem uma tendência alarmante de se entregar ao melodrama, como se parecesse desesperada para provocar as lágrimas do espectador. Sim, a trajetória da protagonista é dura e triste e os demais personagens são criaturas melancólicas em um mundo hostil, mas, justamente por isso, teria sido melhor se o diretor e roteirista James Gray houvesse permitido que o espectador apreendesse aquele sofrimento em vez de ser por ele martelado.

Ambientado em 1921, quando a imigrante polonesa Ewa Cybulski (Cotillard) chega a Nova York ao lado da irmã Magda (Sarafyan), o filme acompanha a moça quando esta é ameaçada de deportação e resgatada pelo judeu Bruno Weiss (Phoenix), que suborna um guarda a fim de retirá-la da ilha Ellis. Weiss, porém, não tem intenções nobres, já que imediatamente escala Ewa em seu espetáculo burlesco em uma pequena bodega que vende bebidas ilegais. Determinada a juntar dinheiro para resgatar a irmã, que encontra-se detida na ilha por apresentar sintomas de tuberculose, a protagonista logo se entrega à prostituição enquanto Bruno, que se descobre apaixonado pela moça, se debate entre o pragmatismo e o amor. E é então que, para complicar ainda mais o quadro, entra em cena o mágico Orlando (Renner), que compete com o outro pelo afeto da bela polonesa.

Trazendo uma fotografia belíssima de Darius Khondji, que, filmando a Nova York da década de 20 em tons de sépia e pontualmente mergulhada nas sombras, parece emular o trabalho de Gordon Willis em O Poderoso Chefão Parte 2, este Era uma Vez em Nova York faz um trabalho de recriação de época soberbo, desde os figurinos sujos e amarrotados até os prédios certamente construídos através da computação. Porém, mais importante que isso é a habilidade de Gray de conferir calor humano àqueles personagens tão miseráveis, que jamais surgem como simples mocinhos e vilões, mas como como indivíduos multifacetados que, mesmo odiando as próprias ações, são obrigados a executá-las a fim de se manterem vivos.

Neste aspecto, a performance de Joaquin Phoenix é particularmente bem-sucedida: seu Bruno é um homem que, inicialmente apresentando-se como um amigo gentil e interessado no bem-estar de Ewa, logo revela uma faceta explosiva e raivosa. Ainda assim, em nenhum momento questionamos o amor que ele genuinamente sente pela moça, mesmo que – como aponta Orlando – ele pareça mandar mensagens opostas ao seu sentimento, já que agencia o aluguel de seu corpo a estranhos. Desta maneira, um dos aspectos mais interessantes do filme reside em nossas expectativas constantes quanto às ações e reações de Bruno, sendo uma pena que, no terceiro ato, ele acabe se entregando a um monólogo que expõe de forma verbalizada o que era muito mais instigante quando apenas sugerido através de suas atitudes. Enquanto isso, Marion Cotillard encarna Ewa como uma mulher estoica que, inicialmente ingênua e frágil, logo se torna uma criatura cínica e amarga, ao passo que Jeremy Renner, como Orlando, pouco pode fazer com o personagem a não ser vivê-lo como um homem apaixonado e, por isso mesmo, propenso a fazer tolices.

Cruzando eventualmente a fronteira rumo ao melodrama, A Imigrante logo parece criar situações trágicas apenas com o intuito de trazer sua protagonista em desespero, o que, claro, apenas deixa o espectador mais consciente da manipulação da narrativa. Por outro lado, é impossível não se encantar com a beleza das imagens criadas por Khondji, destacando-se, claro, o plano que traz um personagem sendo surrado em um túnel e aquele, absolutamente magnífico e repleto de simbolismos, que encerra a projeção.

Marcando a quarta colaboração entre Gray e Phoenix (depois de Caminho Sem Volta, Os Donos da Noite e Os Amantes), Era uma Vez em Nova York é, também, a mais fraca delas – o que não quer dizer que o filme seja ruim. Apenas decepcionante.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2013.

8 de Outubro de 2013

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.