Críticas por Pablo Villaça

Poster: Corrente do Mal
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/08/2015 27/03/2015
Distribuidora
A definir

 

 


Corrente do Mal
It Follows

Corrente do Mal

Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell. Com: Maika Monroe, Olivia Luccardi, Keir Gilchrist, Lili Sepe, Bailey Spry, Jake Weary, Daniel Zovatto.

Uma vizinhança calma num entardecer de outono. Ruas vazias, um ou outro vizinho chegando em casa com compras e folhas acumuladas nas sarjetas. Subitamente, a porta de uma das confortáveis casas se abre e uma garota dispara para fora numa corrida que se torna desajeitada em função dos saltos altos que ela calça. Desesperada, ela vasculha em torno de si e inicia outra fuga de algo que o plano aberto não consegue revelar por alguma razão. O que está havendo? Do que ela foge? Por que o desespero?

É assim que começa A Corrente do Mal, escrito e dirigido por David Robert Mitchell e que se revela um terror cada vez mais raro: aquele que, mesmo recaindo em clichês do gênero vez por outra, jamais se torna óbvio em seus sustos e prefere apostar na atmosfera de tensão crescente do que em momentos que tentam levar o espectador a saltar na poltrona através de acordes altos e súbitos na trilha sonora. Além disso, ao contrário de tantas obras similares, este longa não se torna pior à medida em que descobrimos o que há por trás de seu mistério – que, logo um personagem nos informa, consiste em uma espécie de maldição transmitida através do sexo e que condena o infectado a ser perseguido por algum tipo de espírito capaz de assumir qualquer aparência e que, mesmo caminhando de forma lenta, é inexorável em sua marcha de destruição, eventualmente alcançando sua vítima ao desgastá-la emocional e psicologicamente.

Não é preciso ser um grande estudioso de semiótica, aliás, para compreender as intenções de A Corrente do Mal: por mostrar-se como um inimigo que pode surgir a qualquer momento, jamais pode ser detido, adota qualquer forma e sempre alcança seus alvos, o vilão concebido por Robert Mitchell é claramente um símbolo da própria Morte e da passagem de tempo que acaba por nos entregar aos seus braços. Ao mesmo tempo, o fato de ser uma maldição que se contrai pelo sexo, a criatura tem, claro, certo teor moralista tão comum no gênero terror, embora, aqui, as coisas se tornem mais interessantes quando percebemos que, nos momentos-chave, o tal espírito parece assumir as feições dos pais de suas vítimas – e, num filme praticamente sem adultos, estas aparições súbitas das figuras de autoridade em instantes de destruição acabam por evidenciar a tentativa do roteiro de ilustrar, através do sobrenatural, as angústias, culpas e ansiedades adolescentes não só dos personagens, mas do próprio espectador (tenha este a idade que tiver).

Para ressaltar esta atemporalidade de sua mensagem, vale apontar, o design de produção do longa investe em detalhes que tornam a própria ambientação da trama difícil de ancorar em uma época específica: embora celulares sejam raros (ou mesmo inexistentes), uma personagem usa um leitor de textos similar ao Kindle ao mesmo tempo em que os aparelhos de tevê vistos em tela trazem desajeitadas antenas e aqueles seletores de canais redondos que emitiam um tactactac ruidoso ao serem girados. Da mesma maneira, quando um casal vai ao cinema, o local traz uma cortina vermelha gigantesca e se revela um palácio de projeção do tipo praticamente inexistente hoje em dia – e, para tornar tudo ainda mais curioso, conta com um músico tocando uma pianola ao lado da tela.

Enquanto isso, o diretor David Robert Mitchell adota uma estratégia narrativa inteligente ao frequentemente empregar panorâmicas lentas que vão revelando o ambiente em torno dos personagens gradualmente – e, ao contrário de boa parte dos colegas de gênero, que apostam em quadros fechados para sustos súbitos, aqui o cineasta investe em planos abertos justamente por saber que qualquer pessoa que surja caminhando em algum ponto da tela levará o espectador a uma tensão imediata. Por outro lado, os interiores são rodados de maneira claustrofóbica (em cenários apropriadamente enfumaçados) com o propósito de estabelecer o fato de que os heróis podem se encontrar em um beco sem saída caso o vilão surja de repente.

Investindo numa trilha com componentes eletrônicos que parecem fazer uma homenagem apropriada a John Carpenter e ao seu HalloweenA Corrente do Mal também acerta ao incluir momentos importantes de alívio cômico ao reconhecer o absurdo da situação vivida por aqueles jovens – e não deixa de ser divertido constatar, por exemplo, como um adolescente não hesitará em ir pra cama com uma bela mulher mesmo que saiba que isto o condenará a ser perseguido por um espírito que caminhará lentamente em sua direção até alcançá-lo e matá-lo (quem nunca?).

Impecável também em seu desfecho – outro ponto no qual boa parte dos filmes do gênero tendem a ir para o lugar comum do susto final -, A Corrente do Mal é uma obra que comprova que, nas mãos de um bom diretor, um longa de terror é uma obra de arte tão digna e memorável quanto o mais lacrimoso dos dramas de época. 

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2014

27 de Setembro de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.