Festivais e Mostras Festival de Cannes 2017 - Dia #04

Dia 04

Como de hábito, direto aos filmes:

13) Durante o auge da epidemia de AIDS, nas décadas de 80 e 90, a síndrome era discutida publicamente (quando era) quase aos sussurros, como se o simples fato de mencioná-la ameaçasse os interlocutores. Como a questão envolvia também outro assunto que, por moralismo tolo, é abordado como um tabu igualmente constrangedor ainda hoje (sexo), o resultado era a desinformação quase completa por parte da maior parte da população, que via as vítimas do vírus HIV como um risco à própria sociedade, acreditando, do mesmo modo, que ser gay era uma condição quase obrigatória para contraí-lo. Para piorar, governos como os de Reagan, Thatcher e Mitterrand agiam com negligência e preconceito criminosos, dificultando pesquisas e, principalmente, a realização de campanhas informativas e de prevenção.

Foi neste contexto hostil que surgiu a ACT UP, uma organização não-governamental que, liderada principalmente por ativistas homossexuais, deu início a uma série de protestos públicos que visavam atrair a atenção do mundo para todas estas questões – e a história do grupo gerou, apenas em 2012, dois documentários: ACT UP! (de Scott Robbe) e Unidos na Raiva (de Jim Hubbard). Agora, na 70a. edição do Festival de Cannes, o roteirista, montador e diretor marroquino (mas radicado na França) Robin Campillo lança uma versão ficcionalizada envolvendo a filial parisiense da ONG e, em vez de investir numa trama específica, opta por retratar o coletivo se preparando e realizando ações pontuais, bem como as preocupações, debates e relações envolvendo seus integrantes.

É formidável, aliás, como o cineasta consegue conferir urgência a cenas que envolvem basicamente discussões sobre estratégias e pormenores de protestos específicos, trazendo peso dramático, por exemplo, para um confronto (verbal, mesmo que apaixonado) acerca do grau de hostilidade que as ações deveriam projetar. De forma similar, Campillo ilustra como os mesmos ativistas que num momento atiravam balões contendo sangue falso no rosto de um executivo de uma grande empresa farmacêutica podiam ser parte fundamental, em outro momento, dos planejamentos de estudos e testes clínicos, já que contavam com uma experiência que os cientistas não possuíam: a de saber como era o cotidiano de um paciente sob o efeito devastador das drogas de primeira geração criadas para combater a AIDS.

O mais admirável, contudo, é notar como o realizador compreende a complexidade do funcionamento de um grupo como o ACT UP, que, além de lidar com questões espinhosas, se tornava ainda mais complicado por ter o dever de representar subgrupos tão distintos – como fica claro, por exemplo, no instante em que uma transexual aponta como os protocolos de pesquisa das drogas não levavam em consideração a interação entre o AZT e a terapia hormonal envolvida no processo de transição de gênero (e, da mesma forma, Campillo inclui um ativista surdo que exige a presença de uma tradutora de libras para se comunicar com os companheiros).

Mas, ao contrário do que pode parecer a partir da discussão acima, 120 Batimentos por Minuto não é um filme deprimente: sim, ele lida com um tema pesado e o encara com seriedade, mas sua inteligência reside em compreender que aqueles personagens não são “apenas” ativistas, mas seres humanos com outros interesses e que gostam de se divertir, viver e amar (caso contrário, qual o propósito da luta?). Assim, não são poucos os momentos de humor da narrativa, já que os homens e mulheres retratados na obra são capazes até mesmo de rir da própria situação – como no instante em que Sean (vivido pelo argentino Nahuel Pérez Biscayart, grande destaque do filme) recita um monólogo melancólico apenas para fazer graça da solenidade que ele mesmo empregara.

Ao mesmo tempo, o longa evoca a urgência experimentada pelos ativistas, já que, com muitos deles infectados pelo vírus, o tempo é um fator fundamental para todos – e é comovente constatar como boa parte daqueles personagens sabe que os resultados de sua luta provavelmente beneficiarão outros e que eles mesmos não viverão para colher os frutos. Não menos frustrante é constatar como as corporações da indústria farmacêutica atrasavam a divulgação de resultados de testes e pesquisas para evitarem perder a vantagem na competição pelo mercado de medicamentos voltados para a síndrome.

Enquanto isso, 120 Batimentos merece aplausos, também, por não se render à covardia de retratar seus personagens gays como seres assexuados, algo tão comum em produções norte-americanas: aqui, eles se entregam ao sexo e ao prazer – e a narrativa inclui uma cena particularmente bela na qual um namorado masturba o outro, que se encontra preso a uma cama de hospital, num ato com conotação menos sexual e mais de puro consolo.

Estabelecendo com clareza as personalidades das figuras centrais do longa, 120 Batimentos solidifica Robin Campillo como um cineasta de visão instigante e criativa, merecendo destaque o momento em que enfoca seu elenco dançando animadamente e, num rack focus, traz a poeira em suspensão iluminada por um holofote, transformando estas partículas em células sendo invadidas pelo vírus HIV e ressaltando o ataque mortal que ocorre nas veias dos personagens enquanto tentam extrair alguma alegria de seus difíceis cotidianos.

Contando ainda com um epílogo doloroso, mas necessário em sua observação do luto, esta produção já figura entre as melhores desta edição do festival – e eu não ficarei surpreso caso ela venha a se manter presente nas premiações do próximo ano.

 

14) Barbet Schroeder é um diretor medíocre – seus maiores triunfos, Barfly O Reverso da Fortuna, são apenas corretinhos. O fato é que seus tropeços são grosseiros demais e seus acertos, muito poucos para compensá-los. Ainda assim, mantive as esperanças ao me preparar para conferir o capítulo final de sua trilogia de documentários voltada para figuras perniciosas da História e que já haviam abordado o general Idi Amin e o advogado defensor de nazistas Jacques Vergès. Desta vez, Schroeder discute o monge budista Ashin Wirathu, que com sua retórica islamofóbica é um dos responsáveis por incitar o genocídio de muçulmanos residentes em Myanmar.

Pois se minhas esperanças não foram recompensadas, tampouco foram destroçadas: O Venerável W. é um documentário que faz uma boa curadoria de entrevistas – incluindo com o próprio Wirathu, que não hesita em destilar ódio diante da câmera -, emprega boas imagens de arquivo e é organizado de forma didática. Por outro lado, é excessivamente burocrático, limitando-se, na maior parte do tempo, às “cabeças falantes”, pecando também por repetir pontos já estabelecidos várias vezes e que parecem servir apenas para prolongá-lo.

Considerando a carreira de Schroeder, talvez fosse melhor que ele a encerrasse aqui; melhor do que isso provavelmente não ficará.

 

15) O Cinema do documentarista Eugene Jarecki é político por natureza: se eu seu ótimo Why We Fight ele dissecava como a indústria bélica havia tomado conta da economia norte-americana, basicamente exigindo guerras contínuas que a sustentasse, em Freakonomics (dirigido em formato de episódios ao lado de cinco outros diretores) ele voltava sua atenção para a perversidade da lógica de mercado e as distorções que esta incentivava por interesse especulativo. Assim, quando decidiu voltar seu olhar para a trajetória de Elvis Presley, naturalmente o cineasta enxergou nesta uma oportunidade de estabelecer um interessante paralelo entre a carreira do “Rei do Rock” e a “América” (como eles gostam de chamá-la, tomando todo o continente para si). No processo, Jarecki criou um filme repleto de ideias instigantes e que encara os obstáculos enfrentados pelo homem e pela mulher comuns com uma imensa empatia.

Estruturando a narrativa como um road movie, o que lhe permite visitar diferentes partes do país e também instantes diferentes da biografia do cantor, Promised Land é quase todo rodado a bordo de um Rolls Royce que pertenceu a Elvis e no qual este percorreu a famosa Rota 66 – uma viagem que Jarecki e sua equipe refazem durante a campanha presidencial de 2016 e que, justamente por esta razão, ressalta ainda mais o contraste nos estilos de vida e nas prioridades das populações urbanas e rurais.

Para surpresa de exatamente ninguém, o que o filme expõe é uma “América” com um imenso abismo econômico entre uma minúscula fração enriquecida da sociedade e as milhões e milhões de pessoas obrigadas a economizar cada centavo para que possam ter condições minimamente decentes de vida (e que, ainda assim, são felizardas, já que o desemprego em certas áreas da nação beira os 100%). Não que Jarecki finja estar desvendando um fenômeno novo; ele sabe (basta ver seus trabalhos anteriores) que encontrará uma nação sabotada pelo racismo sistêmico, por injustiças sociais e dominada pela desesperança; o fascinante é observar o lirismo com que nos apresenta aos seus achados.

E o principal destes é, claro, a ruína completa do “sonho americano” e que, na prática, significa a exploração contínua de minorias em prol das já mais do que enriquecidas classes dominantes – algo que, de certa forma, é refletido na crítica contundente feita por alguns dos entrevistados, que apontam como o sucesso de Elvis é uma comprovação destas desigualdades raciais, já que, ao apropriar-se de elementos musicais da cultura negra, o cantor alcançou um sucesso que outros artistas falharam em obter por terem a cor de pele “errada”. Aliás, a relação que Jarecki e seu filme constroem com a figura de Presley é complexa justamente por discussões como esta: se por um lado fica patente a admiração do diretor pelo músico, por outro é possível perceber como as ressalvas feitas por músicos e acadêmicos negros, que argumentam com solidez sobre o legado ambíguo do Rei, balançam o documentarista e sua percepção. Ainda assim, Promised Land, mesmo não endeusando Elvis, pinta um retrato certamente trágico do cantor.

Aberto a incorporar na narrativa os incidentes da própria produção, Jarecki não demora a notar, por exemplo, como o fato de o Rolls Royce estragar durante as filmagens é, de certo modo, uma metáfora curiosamente apropriada e que, durante as quase duas horas de projeção, evidenciam para o espectador como os Estados Unidos, de vitrine para a democracia, se converteu em um triste alerta para os excessos desumanos do capitalismo.

Afinal, como aponta alguém em certo ponto do filme, a “América” de hoje pode até ser uma espécie de Elvis Presley – mas sua versão inchada, enfiada em um macacão cafona e resfolegante enquanto falha ao tentar se lembrar das letras das músicas que o tornaram famoso.

 

16) Godard é um babaca. As histórias envolvendo atitudes lamentáveis do cineasta são tão numerosas que nem podem mais ser chamadas de “decepcionantes”, já que para que desapontassem precisaríamos ter uma expectativa diferente acerca de sua personalidade. Isto não desmerece sua Arte, claro, posto que um número considerável dos criadores mais visionários da História é composto por indivíduos com atitudes reprováveis em suas vidas pessoais. Ainda assim, não deixa de ser curioso que só esta 70a. edição do Festival de Cannes traga dois filmes que apontam a escrotice do célebre cineasta francês: o documentário Visages, Villages, no qual destrata gratuitamente sua amiga Agnès Varda (e sobre o qual já escrevi aqui no site), e a ficção baseada em fatos reais Le redoutable, inspirada na autobiografia de Anne Wiazemsky e dirigida por Michel Hazanavicius.

Aliás, não é a primeira vez que Hazanavicius comanda uma obra que aborda o mundo do Cinema: há poucos anos, seu O Artista se transformou em um fenômeno surpreendente, chegando a vencer o Oscar de Melhor Filme. Aqui, o cineasta busca retratar um período específico da carreira de Godard (Louis Garrel), começando em 1967, quando rodou A Chinesa e se envolveu com Wiazemsky (Stacy Martin), até 1979, quando o casal se separou. A maior parte do longa, contudo, se concentra durante os protestos de maio de 1968, que inflamaram a verve revolucionária do diretor, levando-o a atuar para o cancelamento do festiva de Cannes daquele ano.

Contando com uma caracterização surpreendentemente convincente de Garrel como Godard (com atenção para a dicção particular deste), Le redoutable é, ainda assim, um veículo que deveria garantir o estrelato absoluto para Stacy Martin, atriz que eu já havia elogiado ao escrever sobre Ninfomaníaca e que aqui evoca a rica trajetória emocional de sua personagem, da adoração absoluta pelo parceiro ao seu gradual desencantamento. Além disso, a câmera a trata com uma fascinação inquestionável, detendo-se em sua beleza como forma de sugerir o olhar repleto de desejo do próprio Godard.  

Aliás, Hazanavicius compreende que fazer um filme sobre o ícone da nouvelle vague exige uma linguagem que busque algo diferente do convencional e, para cumprir este objetivo, frequentemente faz pequenos jogos com a linguagem ou com simples brincadeiras estéticas, como ao manter o ruído da máquina de escrever mesmo quando Godard para de datilografar ou ao exibir a imagem em negativo, alternando-a com a fotografia normal em um ritmo que respeita o do disco arranhando que acompanha a sequência. De maneira similar, o longa utiliza legendas para revelar o subtexto de uma troca diálogos (sim, como Woody Allen fez em Annie Hall) e investe na metalinguagem ao trazer “Godard” acusando os atores de estupidez, já que repetem qualquer coisa que o diretor ordenar (e só falta Garrel piscar para a câmera neste momento) ou enfocar uma conversa entre o casal principal sobre nudez desnecessária no cinema enquanto se encontram nus. Sim, são piadas óbvias, mas que ao menos reconhecem as estratégias do próprio roteiro.

Corajoso ao criar um retrato tão crítico de um ídolo (especialmente se considerarmos que se trata de uma produção francesa), Le redoutable traz um Godard arrogante, egoísta e cruel, mesmo que também sugira que estas características contribuíram para o sucesso de sua identidade criativa. Mais inesperado, por outro lado, é notar como a obra sugere a insegurança como um fator importante na insistência do realizador em quebrar propositalmente qualquer convenção que surja em seu caminho e que, em alguns (ou muitos) pontos de sua carreira o fizeram soar quase como uma caricatura de si mesmo.

O que, em última análise, termina por humanizá-lo ainda mais.

 

17) Depois de anos em uma carreira mediana como ator, Taylor Sheridan estreou como roteirista em 2015 como uma imensa promessa ao escrever o brilhante Sicário, voltando a acertar no ano seguinte com A Qualquer Custo – e se ambos os filmes lidam com homens áridos e violentos habitando universos similares, é perfeitamente possível encarar este Wind River como o terceiro capítulo de uma trilogia informal, já que acompanha o caçador Cory Lambert (Jeremy Renner) em uma região que, embora substitua a secura dos dois primeiros longas por tempestades de neve, não é menos inóspita que a daquelas produções. Desta vez, porém, Sheridan também estreia como diretor, apresentando-se talvez não como a revelação que foi como roteirista, mas certamente como dono de um potencial que merece ser explorado.

Inspirado em fatos reais, Wind River se passa em uma reserva indígena na qual o cadáver congelado de Natalie (Kelsey Asbille), uma jovem local, foi encontrado com sinais de estupro e espancamento. Deslocada para investigar o caso apenas por estar próxima da região, a agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olson) requisita a ajuda do protagonista para se guiar na paisagem coberta de neve, sendo ocasionalmente aconselhada também pelo xerife Ben (Graham Greene).

O interesse do diretor, no entanto, não é exatamente o de explorar a trama policial ou de criar um clima de mistério, mas sim o de investigar as motivações psicológicas daqueles indivíduos e também a maneira como os nativos lidam com a dizimação de sua cultura – e, em certo instante, ao surgir com o rosto pintado em uma “máscara mortuária”, um descendente tribal confessa ter sido obrigado a imaginar os padrões com os quais cobriu a face, já que não teve ninguém para ensiná-lo acerca dos costumes de seus antepassados. Não é à toa, aliás, que uma das primeiras imagens que vemos quando Cory chega à reserva é uma bandeira dos Estados Unidos hasteada de ponta-cabeça, sendo também importante notar como o sujeito insiste para que o filho valorize as tradições de sua família (sua ex-esposa, vivida por Julia Jones, é descendente indígena).

Claro que, sendo um pouco cínico, eu poderia apontar que, apesar das boas intenções, Sheridan faz uma opção clara por contar sua história a partir do olhar de dois brancos (os personagens de Renner e Olsen), mas a verdade é que os comentários sociais feitos pelo cineasta não são aprofundados a ponto de esperarmos algo diferente. Em vez disso, o roteiro usa a situação miserável e decadente da tribo (e de seus jovens) como uma forma de criar uma atmosfera melancólica em torno de Cory, que também lida com a dor de ter perdido a filha mais velha em circunstâncias parecidas com aquelas que vitimaram Natalie. Seja como for, isto ao menos permite que Jeremy Renner crie um personagem cujo sofrimento comove precisamente por evitar histrionismos, beneficiando-se também do cuidado com detalhes como o modo particular como segura sua arma para evitar acidentes. Enquanto isso, Elizabeth Olsen faz o que pode com uma figura que o roteiro não se preocupa muito em desenvolver, ao passo que o veterano Graham Greene combina humor e secura em uma performance que o estabelece como um Tommy Lee Jones de etnia nativo-americana.

Infelizmente, a partir do final do segundo ato, Sheridan desiste de sua abordagem evocativa ao se entregar a um tiroteio absurdo e a “revelações” sobre as circunstâncias da morte de Natalie que soam anticlimáticas quando deveriam ser o oposto.

De todo modo, é preciso reconhecer como o diretor estreante amarra bem as rimas temáticas do filme: se um de seus primeiros planos traz lobos se preparando para atacar um rebanho de ovelhas, aos poucos Wind River expõe como, no esquema geral das coisas, todos temos um pouco de lobo e ovelha. “Eu quero lutar contra o mundo”, desabafa um jovem local, em certo instante da narrativa, expondo sua frustração com tudo que o cerca – e a resposta que ouve do protagonista, em vez de atuar como consolo, apenas ressalta como a desesperança é mesmo a reação mais apropriada:

“Eu também queria, mas decidi lutar contra o sentimento em si”, ele diz, completando: “O mundo me venceria.”

21 de Maio de 2017

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.