Festivais e Mostras Festival de Cannes 2017 - Dia #02

Dia 02

Vamos direto aos filmes, pois o tempo é pouco e o cansaço já se acumula.

4) A forma narrativa cinematográfica conta com alguns padrões clássicos de estrutura e desenvolvimento, sendo o mais comum deles o que se baseia em uma lógica de causas e consequências. Há outros empregados com menos frequência, claro – e um deles é o paralelismo, que ancora sua narrativa não em torno de incidentes que levam a outros, mas sim em comparações recorrentes entre duas linhas diferentes. Pois é justamente esta estrutura que Todd Haynes adota em seu novo trabalho, Sem Fôlego, se saindo extraordinariamente bem nos dois primeiros atos até que, ao tentar coalescer as subtrama no terceiro, descarrilha de maneira decepcionante.

Roteirizado por Brian Selznick a partir de seu próprio livro, o filme acompanha o garotinho Ben (Oakes Fegley), que, depois de perder a mãe (Michelle Williams) em um acidente, passa a morar com os tios e os primos. Certa noite, ao descobrir um endereço em um livro que pertencia à mãe, o menino suspeita se tratar do contato do pai que nunca conheceu e, ao tentar ligar para este, é vitimado por uma descarga elétrica e perde a audição – o que apenas o deixa mais determinado a fugir com o propósito de encontrá-lo. Intercalada a estes acontecimentos há a história da pequena Rose (Millicent Simmonds), que, em 1927, coleciona todas as notícias publicadas sobre a famosa atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore), decidindo deixar sua casa para procurá-la em Nova York (uma jornada que se torna mais difícil em função de sua surdez).

A partir daí, Haynes e o excelente montador brasileiro Affonso Gonçalves iniciam uma série de paralelos entre os dois personagens-mirins e suas trajetórias: além da questão auditiva e da fuga de casa, ambos visitam o Museu de História Natural e, em certo momento, testemunham simultaneamente uma forte tempestade (Rose, em um filme; Ben, do lado de fora de sua janela). Da mesma maneira, logo que vemos o anúncio da chegada do som ao Cinema, em 1927, Ben perde a audição em 1977, num contraste que igualmente revela o cuidado da carpintaria dramática do longa.

Mas a estratégia estilística de Haynes é mais ambiciosa e complexa: enquanto a fotografia de Edward Lachman retrata a década de 70 em cores saturadas e quentes na maior parte do tempo, as sequências ambientadas na década de 20 são registradas em preto-e-branco e – o mais interessante – sem diálogos (e sem intertítulos; os formalistas amariam esse detalhe). Em vez disso, o sempre brilhante compositor Carter Burwell cria uma trilha que inclui representações de alguns dos sons mais marcantes destas passagens, como o bater de uma porta ou um gesto abruto feito por alguém. Esta decisão, por sinal, é duplamente eficaz, já que emula as técnicas cinematográficas da época e sugere o universo silencioso no qual Rose vive. (E é triste perceber que, fã de Cinema, ela se tornará ainda mais isolada quando os filmes passarem a conter diálogos, já que isto a impedirá de acompanhá-los.) Para completar, o design de produção faz um trabalho excelente de recriação de épocas, ao passo que a sutil maquiagem utilizada para modificar levemente o formato dos olhos de Julianne Moore representa um detalhe admirável e importantíssimo.

Assim, é uma pena que o roteiro passe a apresentar tantos problemas a partir da segunda metade da projeção, começando pela longa e desnecessária sequência ambientada no museu, durante à noite, e que obriga um personagem a ocultar certa informação apenas para estender a narrativa (aliás, este mesmo personagem depois retornará de maneira artificial e implausível, protagonizando até um ridículo flashback para explicar esta sua volta). Contudo, o tropeço mais grave de Sem Fôlego reside na maneira como amarra as pontas de suas duas linhas narrativas principais, já que investe num longo monólogo expositivo que chega a conter uma absurda “pausa” dramática quando certa figura deixa que outra leia um texto apenas para, em seguida, entregar as páginas restantes.

Amarrado por um plano final que tenta soar comovente quando é apenas maniqueísta, o filme ainda falha em explicar por que, afinal, Ben não foi procurado por alguém que sabia de sua existência e parecia ter vontade de conhecê-lo, deixando esta tarefa para uma criança tão jovem – e esta pergunta, quando levada em consideração dentro do contexto do ato final da projeção, acaba por fragilizar ainda mais o resultado alcançado por uma obra que vinha caminhando tão bem até chegar ali.

5) Antes de atingir os 10 minutos de projeção, Blade of the Immortal, novo filme de Takashi Miike, já contabiliza no mínimo algumas dezenas de mortos deixados no rastro do samurai Manji (Takuya Kimura) – um número que, nas duas horas seguintes, deve se aproximar da casa de duas centenas. Este é, em essência, o propósito principal do longa e também sua grande virtude narrativa; fora isso, porém, a verdade é que não tem muito a oferecer.

Baseado em um manga criado por Hiroaki Samura, o roteiro de Tetsuya Oishi parte de um fiapo de história (samurai se torna imortal e, anos depois, aceita defender uma garota que quer se vingar do homem que matou seu pai) para criar sequências de duelos sangrentas e assumidamente absurdas que buscam despertar ao mesmo tempo o riso e uma descarga de adrenalina no espectador. Assim, não interessa o motivo que levou a feiticeira (se é que é uma feiticeira) a tornar o protagonista imortal ou mesmo apresentar os diversos vilões que este enfrentará – e, assim, a cada dez minutos uma figura nova surge em cena para desafiar o herói e ser por ele derrotado. (O curioso é que, mesmo sendo estabelecido como um grande guerreiro, Manji perderia praticamente todos os combates, vencendo apenas por ter a leve vantagem de não poder ser destruído.)

Isto, porém, é o que basta para que Miike e seu designer de produção Toshiyuki Matsumiya criem um universo multicolorido e fabulesco no qual cada personagem tem um visual marcante: das roupas roxo-amareladas de uma poderosa samurai aos cabelos espetados de um de seus colegas de vilania, passando, claro, pelo quimono vermelho da jovem Rin (Hana Sugisaki, irritante em seus gritos excessivos) e pelo rosto coberto de cicatrizes de Manji.

Entretendo pela ação contínua, Blade of the Immortal ainda assim acaba perdendo um pouco do ritmo graças às falas pausadas de praticamente todos os personagens e à sua duração, que estende a frágil premissa bem mais do que ideal. De todo modo, considerando como Miike vem errando bem mais do que acertando, este seu projeto mais recente acaba funcionando o bastante para entrar em sua coluna de resultados positivos.

 

6) O oposto, infelizmente, ocorre com Jupiter’s Mooni, novo trabalho do húngaro Kornél Mundruczó, cujo filme anterior, White Dog, foi uma das boas surpresas de 2014. Novamente investindo num tom de realismo fantástico, o cineasta conta aqui a história do refugiado sírio Aryaan (Zsombor Jéger), que, ao tentar entrar clandestinamente na Europa – mais especificamente, na Hungria – é baleado duas vezes por um policial, o que, por alguma razão jamais explicada, confere a ele o poder de voar. A partir daí, acompanhamos as ações do médico Stern (Merab Ninidze), que, tentando juntar dinheiro para se livrar de um processo por negligência, decide empregar o dom do imigrante para arrancar grandes somas de pacientes ansiosos por um milagre.

Não é difícil perceber que todos estes elementos funcionam como símbolos para que o o longa possa discutir não apenas a crise dos refugiados, mas o nacionalismo crescente dos países europeus e, particularmente, a virada da própria Hungria para a extrema direita. Ao longo da projeção, Aryaan é claramente usado pelo médico, que, por sua vez, mal esconde a própria decadência moral, alcançando aos poucos uma espécie de redenção à medida que passa a enxergar a beleza que o jovem representa (o mesmo não se aplica ao policial – representante do Estado – que insiste em perseguir o rapaz).

Infelizmente, por mais que aprecie a nobreza da mensagem de Jupiter’s Moon, não posso deixar de reconhecer a superficialidade que adota ao tentar transmiti-la, chegando a carregar nas comparações entre o sírio e a figura de Cristo (e considerando que a maioria da população síria é muçulmana, este é um paralelo no mínimo atrapalhado). Além disso, Mundruczó se encanta tanto com o efeito de Aryaan sobrevoando a cidade diante de uma câmera que gira em torno de eixos verticais e horizontais que para a narrativa umas cinco ou seis vezes para incluir longas passagens nas quais vemos basicamente a mesma imagem. Para completar, o arco dramático de Stern e seu apego ao refugiado são desenvolvidos de forma artificial, forçando uma aura de proteção paternal que não convence.

Uma decepção.

 

7) Já o último filme do dia, uma coprodução búlgaro-alemã, representou uma grata surpresa. Comandado por Valeska Grisebach, uma das poucas mulheres presentes na lista de diretores da seleção oficial do festival de 2017, Western é um estudo eficiente sobre a autoimagem masculina e a insegurança que a luta pelo posto de macho-alfa revela. Concentrando-se em um grupo de operários alemães que viajam para um vilarejo da Bulgária com o objetivo de instalar uma bomba d’água, o filme acompanha a dinâmica entre os estrangeiros e os locais, focando especialmente no taciturno Meinhard (Meinhard Neumann), um ex-legionário que, para seu próprio espanto, se apega aos habitantes do lugarejo, o que desperta o rancor de seu chefe direto, Vincent.

Escalando um elenco de não-atores para viver os personagens, Grisebach adota uma linguagem sóbria, próxima do cinema dos irmãos Dardenne e do Novo Cinema romeno, seguindo aquelas figuras em seu cotidiano de trabalho e lazer e extraindo, de conversas prosaicas, pequenas (mas importantes) informações sobre quem são e como se sentem. Descartando qualquer trilha não-diegética, a diretora constrói uma narrativa cujo naturalismo acentua a complexidade dos indivíduos que estuda, acumulando gradualmente uma força dramática surpreendente e levando o espectador a se apaixonar pelo protagonista e por seus novos amigos. E é preciso muito talento para despertar o sorriso da plateia apenas ao retratar um homem solitário ensaiando discretos passos de dança em meio a uma pequena multidão.

19 de Maio de 2017

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.