Festivais e Mostras Festival de Cannes 2017 - Dia #01

Dia 01

Vamos aos filmes?

1) Os Fantasmas de Ismaël, novo filme cineasta francês Arnaud Desplechin (Reis e Rainha, Um Conto de Natal), é uma colagem frágil e bagunçada de ideias, atmosferas e gêneros contrastantes. Contendo premissas que poderiam originar uns cinco roteiros diferentes (nenhuma delas particularmente original), o longa salta de um tom a outro com uma insegurança surpreendente para um diretor tão experiente, resultando numa narrativa sem a mínima coesão que enfraquece o drama de seus personagens ao investir na farsa e dificulta o riso ao conceber situações dramáticas demais.

Escrito por Desplechin ao lado de Léa Mysius e Julie Peyr, o filme já tem início in media res ao acompanhar um personagem que anda rapidamente em direção ao Ministério de Relações Exteriores francês enquanto uma música tensa toma conta da trilha sonora. Buscando ansiosamente por um certo Ivan Dedalus (Louis Garrel), ele coleta histórias sobre o passado do sujeito em cenas carregadas de zooms, diálogos expositivos e atuações caricaturais – até que finalmente descobrimos que tudo faz parte de um roteiro escrito pelo cineasta Ismaël Vuillard (Mathieu Amalric). A partir daí, a obra salta entre a história do personagem-título e o “filme dentro do filme”, o que não significa, contudo, que a carregada abordagem narrativa se altere de forma correspondente, já que os zooms e a trilha over seguem presentes.

Aliás, a trama principal que conduz o filme talvez seja mais problemática do que a concebida por Ismaël, já que gira em torno do desaparecimento da esposa deste, Carlotta (Marion Cotillard), há 21 anos, quando simplesmente saiu de casa e não voltou mais, sendo declarada como “falecida” tempos depois. Servindo como único apoio psicológico para o sogro, o também diretor Bloom (Lászlo Szabó), o protagonista acaba finalmente se envolvendo com outra mulher, a astrofísica Sylvie (Charlotte Gainsbourg) – até que, claro, sua ex-esposa reaparece e manifesta o desejo de reatar o casamento.

Pouco sutil ao estabelecer diversos paralelos entre a trajetória de Ismaël e a do filme por ele criado, Desplechin cria reflexos variados entre os personagens das duas narrativas: Ivan e Sylvie observam o céu com telescópios; Ismaël e Ivan se recusam a usar celulares; e Carlotta e Arielle (Alba Rohrwacher) se revelam companheiras desleais. Ao mesmo tempo, a natureza obcecada do protagonista é refletida por seu nome (eco de Moby Dick) e, talvez na referência mais óbvia, Carlotta “retorna dos mortos” assim como sua homônima de Um Corpo que Cai.

Contudo, por mais que o longa atire para todos os lados em suas reviravoltas e em suas “homenagens”, não demora a se tornar patente a falta de um centro que traga coesão ao projeto – e, assim, a montagem salta entre o presente e o passado e entre a realidade e a ficção sem qualquer lógica identificável, eventualmente abandonando subtramas de forma abrupta e frustrante (o que houve com o filho adotivo do protagonista? Por que Arielle age daquela maneira em sua última aparição? Quem era o tal russo e o que desejava?). Esta fragilidade diz respeito também às escolhas estéticas e de linguagem do diretor: além dos já mencionados zooms, por exemplo, as íris que marcam os flashbacks soam como preciosismos estéticos gratuitamente anacrônicos, ao passo que o terceiro ato representa uma conversão completa e artificial para a farsa, introduzindo um personagem (o produtor Zwy, vivido pelo sempre ótimo Hippolyte Girardot) cuja única função é (tentar) provocar o riso através de sua frustração crescente.

E, ainda assim, aqui e ali Os Fantasmas de Ismaël quase sobrevive a todos os seus equívocos graças às performances de Amalric e Gainsbourg, que conferem intensidade dramática a figuras que o roteiro imagina unidimensionalmente. Já Cotillard e Garrel... bom, basta dizer que esta é a segunda vez em que participam do mesmo projeto e que, considerando a mediocridade do primeiro (Um Instante de Amor), devemos torcer para que jamais se envolvam em uma terceira colaboração.

 

2) Sea Sorrow é um filme de boas intenções e péssima execução. Marcando a estreia na direção da octogenária atriz Vanessa Redgrave, o documentário tem o nobre propósito de discutir a atual e trágica crise dos refugiados, que, tentando escapar de zonas de guerra que basicamente se converteram em abatedouros, chegam aos milhões em países europeus, sendo frequentemente recebidos com um ódio inspirado pela xenofobia e pela pura falta de humanidade. Politicamente ativa durante quase toda sua vida, Redgrave obviamente sente a dor dos imigrantes e experimenta uma mais do que compreensível revolta diante da retórica nacionalista fascistoide de parte dos políticos do continente, mas estes sentimentos são atirados no longa de maneira desajeitada e desorganizada, levando-o a soar menos como uma produção profissional e mais como um trabalho de escola mal feito.

E isto é uma pena, já que seus primeiros minutos se revelam bastante promissores ao trazerem alguns jovens muçulmanos sendo amparados por uma organização católica e alimentados por uma freira idosa. Lamentavelmente, não demora muito até que os problemas da narrativa comecem a sabotar seus objetivos – e logo, por exemplo, Redgrave e seu montador intercalam os depoimentos com o mesmo plano externo que exibe um bosque sob a chuva, traindo a falta de um senso de ritmo que evite que a obra se torne entediante.

Porém, o maior pecado de Sea Sorrow não é o de ser aborrecido, mas de ser óbvio: ao longo de seus 74 minutos de duração, o filme pouco faz para levar quem não reconhece o horror da situação dos refugiados a fazê-lo, limitando-se a pregar para os convertidos, o que é um tremendo desperdício de oportunidade, já que a frieza e o distanciamento dos noticiários pouco fazem para humanizar de fato aqueles homens, mulheres e crianças, tratando-os como números ou apenas como um fenômeno político-social. Sim, em um ou dois momentos (e só) a produção oferece imagens chocantes de vídeos amadores, mas até mesmo estes perdem – em duração e destaque – para a velha versão dos telejornais ao exibir uma matéria da TV francesa na íntegra.

No restante do tempo, porém, o documentário se limita a uma série de discursos feitos por um político próximo à diretora e também outros recitados por esta – que, para piorar, inclui no filme sua sobrinha Jemma Richardson, sua filha Joely Richardson e sua neta Daisy Bevan, conferindo uma aura (provavelmente injusta) de vaidade a um projeto que não deveria tê-la (e o momento no qual expõe um “cartaz” feito pela neta mais nova pode até ser doce como testemunho de seu amor e orgulho de avó, mas é constrangedor como elemento de um documentário que pretende debater algo tão sério).

Igualmente malsucedida é a ideia – até boa em teoria – de comparar a atual crise de refugiados àquela protagonizada por judeus durante a Segunda Guerra: se por um lado é uma forma de tentar criar uma identificação entre o público distante dos conflitos na Síria e na Líbia com as vítimas destes, por outro é desenvolvida de maneira preguiçosa, levando-a a fracassar. Enquanto isso, o contraste que o filme tenta estabelecer entre o discurso de Eleanor Roosevelt ao defender a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a terrível realidade que torna aquela iniciativa um sonho distante é outro conceito no qual Redgrave investe repetidamente, mas com pobres resultados.

Para piorar, a produção ainda traz figuras como Ralph Fiennes e Emma Thompson recitando passagens de A Tempestade ou lendo jornais da época da Segunda Guerra – e, nestes casos, é difícil defender estas intervenções mesmo como sendo ideias mal executadas, já que a relevância destas é clara apenas para a diretora. Ainda assim, nada é mais embaraçoso do que o chroma key utilizado na maior parte da projeção para exibir imagens atrás da diretora/entrevistada, já que o resultado poderia ter saído da ilha de um videomaker amador da década de 80.

Pecando também por incluir apenas duas ou três entrevistas com refugiados (ou seja: com as pessoas em torno das quais o filme gira), Sea Sorrow pode até ter o coração no lugar certo, mas o resto, infelizmente, está todo errado.

 

3) Durante os primeiros minutos de Nelyubov (ou Falta de Amor), enquanto o diretor Andrey Zvyagintsev abria a narrativa com planos gerais trazendo paisagens cobertas pela neve, lembrei-me do húngaro On Body and Soul, um de meus favoritos do último festival de Berlim e que contava com uma introdução similar. Aliás, esta não é a única similaridade entre os dois projetos, já que ambos também nos apresentam a personagens quebrados que parecem não fazer ideia de como se relacionar uns com os outros – e até mesmo o talento daquele longa para a metáfora é refletido aqui em um belo plano no qual, depois de ouvirmos notícias sobre a intervenção militar russa na Ucrânia, vemos uma mulher correndo em uma esteira (ou seja: sem sair do lugar) enquanto usa uma roupa de treinamento com a palavra “Rússia” estampada em letras enormes em sua frente.

Na maior parte do tempo, contudo, este novo trabalho do diretor de Leviatã adota uma abordagem direta, seca, ao acompanhar o casal formado por Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Alexei Rozin), que já se encontra naquela fase de um casamento em crise na qual cada fala soa como uma provocação, mesmo que não seja. Infelizes com tudo e descontado esta infelicidade em todos que os cercam, Zhenya e Boris ferem principalmente o filho Alyosha, que, com apenas de 12 anos de idade, desaparece após ouvir mais uma pesada briga entre os pais. Quando finalmente percebem o sumiço do garoto, os dois iniciam uma busca desesperada com a ajuda de uma ONG especializada em localizar crianças desaparecidas.

Impiedoso na maneira como retrata a crueldade mútua do casal e que transforma Alyosha em um dano colateral, já que planejam um futuro novo no qual o filho será essencialmente exilado em uma série de instituições (como um colégio interno e o exército), Loveless faz um comentário certeiro sobre a necessidade contemporânea de pintar um retrato idílico da própria existência nas redes sociais mesmo quando a realidade encontra-se em total desarranjo – e a compulsão de Zhenya de publicar selfies e fotos de pratos de restaurante em seus perfis é indicativa deste contraste. Ao mesmo tempo, o filme humaniza a personagem ao demonstrar como sua natureza amarga tem raízes no tratamento que recebia da própria mãe (e mesmo esta é poupada da demonização quando, após uma cena na qual age de forma impiedosa, a câmera se detém em seu rosto por alguns segundos para registrar sua solidão).

Construindo uma atmosfera de tensão crescente ao ilustrar com detalhes o processo da busca por Alyosha, o diretor Andrey Zvyagintsev explora bem os temas do ótimo roteiro de Oleg Negin ao adotar longos planos que ressaltam a tristeza sufocante de todas aquelas pessoas – e mesmo as cenas de sexo são fotografadas com melancolia, nas sombras, como se trouxessem mais dor do que prazer aos amantes.

Fazendo jus às belas imagens iniciais, que trazem árvores secas como as vidas dos personagens, Loveless é uma obra mergulhada em dor e arrependimento, mas que compreende que há pessoas incapazes de mudar mesmo depois das mais terríveis experiências. Para completar, poucos planos no Cinema este ano terão a força daquele que traz uma criança chorando silenciosamente atrás da porta enquanto escuta seus pais planejando descartá-la. E ainda não sei dizer o que é mais comovente: seu choro solitário ou que tenha aprendido a escondê-lo.

18 de Maio de 2017

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.