Cinema Expresso

A Idade do Ouro (L’âge d’or, França, 1930)
A pior maneira de se assistir a A Idade do Ouro é tentando decifrá-lo – o que seria uma tarefa não só exaustiva, já que cada plano parece trazer duzentos simbolismos, mas também inútil, já que é bastante provável que boa parte destes “simbolismos” sejam apenas resultado das ideias de Buñuel e Dalí acerca do que ficaria interessante na tela e ajudaria a criar uma atmosfera onírica intensa. Sim, há instantes em que as alegorias se tornam claras (como o burguês com o rosto coberto de moscas), mas há vários outros nos quais o diretor busca mesmo testar novas formas de levar o público a experimentar o Cinema. E o que importa é que, mesmo indecifrável, o filme jamais deixa de ser fascinante. 5/5
A Outra (Another Woman, EUA, 1988)
É incompreensível que este filme não seja citado com mais frequência quando se discute a obra de Woody Allen, já que, obra-prima inquestionável, é um de seus melhores trabalhos. Aliás, é uma pena que haja tão poucos filmes adultos (sobre e para) como este: é admirável sua complexidade ao discutir desejo, arrependimentos, a consciência do envelhecimento e da finitude e nossa capacidade de auto-ilusão. Além disso, mesmo para os padrões de Allen este é um elenco único: não só Gena Rowlands evoca de maneira magnífica o autocontrole que tanto prejudica a protagonista, mas cada membro secundário surge perfeito, de Philip Bosco a John Houseman (em seu último papel), passando por Martha Plimpton, Ian Holm e, claro, Mia Farrow. Mas é mesmo Gene Hackman quem me destrói em cada uma de suas aparições: quanta frustração por um amor que não se concretiza. Ao rever a amada anos depois (mesmo que num sonho desta), ele teme ouvi-la dizer que se arrependeu por não ficar com ele. Imaginem que coisa linda e triste: ouvi-la dizer que deveria ter ficado com ele provocaria dor em vez de júbilo. Só um artista maduro seria capaz de perceber isso. E Woody Allen, claro, percebeu. 5/5
A Rosa de Ferro (Le rose de fer, França, 1973)
Fugindo dos vampiros que protagonizaram todos os seus filmes anteriores, Jean Rollin ainda assim comprova, aqui, sua marca como um diretor de terror diferente do habitual: além da bela fotografia (algo ao qual ele sempre dedicou atenção), este A Rosa de Ferro usa a premissa (que muitos empregariam para um horror comum) a fim de construir uma narrativa mais preocupada com a atmosfera do que com uma trama. Sim, o ritmo é problemático – especialmente na longa sequência de dança final -, mas o tom de pesadelo é sempre envolvente. 4/5
A Sereia Negra (La sirène des tropiques, França, 1927)

Além de ser o filme de estreia de Josephine Baker, ainda traz Buñuel como assistente de direção – mas nada disso salva o longa, que consegue a proeza de obrigar a dançarina/atriz, que era negra, a protagonizar não só uma sequência de blackface, mas também de whiteface. 1/5

Publicidade
Adrenalina Máxima (Sonatine, Japão, 1993)
É curioso notar como Takeshi Kitano subverte o gênero e a própria expectativa do público ao iniciar o filme seguindo as convenções esperadas e subitamente revelando que seu propósito é analisar como aqueles personagens se comportam em uma situação atípica de “férias” quase forçadas. No processo, ele extrai humor e humaniza indivíduos frios e implacáveis cujas explosões inesperadas de violências são retratadas com um distanciamento que oscila entre o divertido e o macabro. 4/5
Advantageous (Idem, EUA, 2015)
O roteiro tem o interesse óbvio de desenvolver e discutir vários temas simultaneamente: da obsessão com a juventude e a beleza até a maneira com que a sociedade tenta impor às mulheres um ideal estético cruel e impossível de se atingir, passando também pelo sexismo no qual ainda vivemos e que insiste em encarar a força de trabalho feminina como algo menos valioso. Infelizmente, além de contar com uma estrutura problemática, o filme ainda falha ao não conseguir explorar com eficiência nenhum dos tópicos, optando, em vez disso, por tentar provocar o choque com uma revelação tola que abre espaço apenas para o melodrama. 2/5
Alegrias a Granel (Whisky Galore!, Inglaterra, 1949)

Filme de estreia do diretor Alexander Mackendrick, esta comédia da Ealing combina o charme das locações à excentricidade daqueles que as ocupam, transformando uma premissa aparentemente simples em uma comédia adorável. 4/5

Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso (Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day, EUA, 2014)
Contando com momentos que são realmente inspirados, o filme compensa os outros que nem são tanto assim graças à sua breve duração, que não abusa do espectador, e principalmente à simpatia do elenco. 3/5