Cinema Expresso

Starry Eyes (Idem, EUA, 2014)
Um terror psicológico eficiente, o filme estabelece uma alegoria angustiante dos sacrifícios exibidos para o estabelecimento de uma carreira de sucesso numa Hollywood que devora os ingênuos e premia os narcisistas. Com uma interpretação central intensa da bela Alexandra Essoe, o longa funciona como exercício de gênero, mas também como um tratado impiedoso sobre a Cidade dos Sonhos. 4/5
Tempo de Despertar (Awakenings, EUA, 1990)
Decidi fazer Medicina por causa deste filme – decisão errada, motivo certo: a humanidade do médico retratado por Robin Williams aqui é algo que deveria ser comum a todos os membros desta profissão em vez de ser um atributo cada vez mais raro. Aliás, é incrível como Williams captura todos os trejeitos do fabuloso Oliver Sacks com perfeição: a timidez, a maneira de colocar os braços em frente ao corpo como se se defendesse do mundo, a dificuldade em olhar as pessoas nos olhos. Já a performance de De Niro impressiona pela composição física: a maneira como ele retrata os tiques, as contrações involuntárias, as quebras de padrão na fala. Trata-se de um filme tão delicado e ao mesmo tempo tão demolidor. Admiro imensamente, por exemplo, como a diretora Penny Marshall confere importância aos personagens secundários, criando pequenos momentos de humanidade - como a enfermeira que acha que vai ser xingada quando é chamada abruptamente ou a reação de Lucy ao vento. Que filme. 5/5
The Arms Drop (Våbensmuglingen, Dinamarca, 2014)
Conseguindo evitar que as reencenações, normalmente uma praga em documentários, prejudiquem o filme, este projeto resgata uma passagem curiosa da história recente da Índia para escancarar os abusos, a corrupção e o jogo de interesses dos governos indiano e britânico, ilustrando como a falta de transparência na diplomacia acabou trazendo consequências devastadoras para as vidas de um ex-agente da inteligência e de um ativista dinamarquês bem intencionado, mas determinado a investir numa solução pavorosa para ajudar aqueles que eram oprimidos pelas autoridades de Nova Déli. Ainda assim, o excesso de tangentes compromete o ritmo do documentário, o que é uma pena. 3/5
The Battered Bastards of Baseball (Idem, EUA, 2014)
Não é necessário ser fã de baseball ou mesmo entender o básico do jogo para compreender perfeitamente a loucura representada pelo projeto iniciado por Bing Russell (pai de Kurt). Hilário ao recuperar a atmosfera irreverente e adolescente do time independente criado pelo sujeito, o documentário é um tributo merecido a um sonhador – e muitos dos absurdos apontados pelo filme se encaixariam em qualquer esporte, incluindo o futebol brasileiro e seus dirigentes. 4/5
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The English Surgeon (Idem, Inglaterra, 2007)
Basicamente um registro humanista dos esforços feitos por um cirurgião inglês para ajudar pacientes ucranianos abandonados por um sistema de saúde falido, o documentário e seu personagem-título inspiram ao mesmo tempo em que evocam o desespero e a tristeza de pessoas que mantêm a esperança diante de tantos sinais de que nada ficará bem. 4/5
This Is Spinal Tap (Idem, EUA, 1984)
Incrivelmente influente ao estabelecer as regras do mockumentary (embora não tenha inventado o gênero), o filme funciona não só graças ao talento do elenco para o improviso, mas por levar bastante a sério as características musicais da banda ficcional que move a narrativa. Além disso, é importante notar como há vários pequenos arcos ao longo da projeção, desde a relação entre Nigel e David até o destino dos bateristas da banda, demonstrando que o improviso, embora abundante, não ignorou a importância da estrutura. 5/5
Tinker Bell e o Monstro da Terra do Nunca (Tinker Bell and the Legend of the NeverBeast, EUA, 2014)
A animação é surpreendentemente cuidadosa para um projeto originalmente concebido para lançamento em vídeo – como indica, por exemplo, o momento no qual as pupilas da protagonista se dilatam no escuro. Mas, mais do que isso, este é um raro longa infantil que gira em torno não só de personagens femininas, mas em um universo no qual as mulheres exercem papel dominante, frequentemente salvando os homens em vez de se comportarem como mocinhas em perigo. Para completar, a relação entre Fawn (não, a protagonista não é Tinker Bell, o que torna o título incorreto) e o Monstro é delicada e sensível, merecendo destaque também o design de produção colorido e vivaz. É uma pena que, em função do modelo de produção, a história seja pouco ambiciosa, não encontrando tempo para expandir os personagens, o universo e suas relações. 3/5
Tomboy (Idem, França, 2011)
O filme faz um belo estudo sobre o despertar da sexualidade na adolescência ao mesmo tempo em que discute a definição de gênero com complexidade e delicadeza – algo que só se torna possível graças à performance madura, corajosa e surpreendente de Zoe Heran (e também do restante do ótimo elenco infantil). 4/5