Críticas por Pablo Villaça

Poster: Contato
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/09/1997 Unknown
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Contato
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Contato

Dirigido por Robert Zemeckis. Com: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Tom Skerritt, William Fichtner, James Woods, Angela Bassett, Rob Lowe, Jake Busey, Jena Malone, John Hurt.

(Atenção: esta análise - minha milésima publicada no Cinema em Cena - revela pontos importantes da trama do filme. E a propósito: todas as fotos podem ser ampliadas através de um clique.)

Silêncio absoluto enquanto a vinheta da Warner, o nome da companhia produtora e o título do filme são exibidos na tela. Subitamente, nos descobrimos orbitando a Terra enquanto uma cacofonia de transmissões de rádio e televisão nos atordoam pelo volume e pela poluição sonora que provocam. É então que, lentamente, iniciamos uma jornada pelo universo que irá durar os próximos minutos, afastando-nos de nosso velho e conhecido planeta enquanto experimentamos uma espécie de viagem no tempo à medida em que os sons fugidos de nossa atmosfera se revelam mais e mais antigos – até que, eventualmente, nos encontramos envoltos pelo silêncio opressivo de um espaço que desconhecemos e percebemos que viajamos mais do que a mais velha de nossas emissões sonoras. E quando começamos a perceber a dimensão daquilo que nos cerca – e que vai muito além de nossa capacidade de abstração -, estamos de volta ao ponto de partida, retornando à Terra através do portal representado pelos olhos azuis e jovens de Ellie Arroway, nossa protagonista.

  

  

Durando pouco menos de quatro minutos, esta espetacular seqüência funciona quase como um curta-metragem que resume, em si, a essência da narrativa de Contato, que usará uma jornada inesquecível pela Ciência e pelo Universo como forma de ilustrar a trajetória interna, emocional e psicológica, da complexa personagem que combina, em seu sobrenome, os significativos substantivos “flecha/seta” e “caminho”.

Inspirado no soberbo livro do astrônomo e astrofísico Carl Sagan (que, morto durante as filmagens, acabou sendo ostensivamente homenageado ao longo do filme através da recorrente aparição da letra “C”), Contato é uma ficção científica que confere peso semelhante aos dois termos do gênero: se sua narrativa ficcional é intrigante e bem desenvolvida, sua ciência jamais se entrega ao implausível, buscando um embasamento teórico até mesmo para a mais absurda de suas suposições e criações. Obra centrada na exploração cuidadosa das idéias e conseqüências de sua intrigante premissa, ela é corajosa ao jamais fugir de debates naturais ao tema, como a contraposição/complementação de Ciência e Religião – e, assim, apresenta sem cinismo ou crítica a tendência humana diante do desconhecido de buscar conforto no sobrenatural: ou alguém duvida que, como visto aqui, um contato confirmado com uma espécie alienígena realmente levaria multidões amedrontadas aos templos e igrejas ao redor do mundo? Ao mesmo tempo, porém, o belíssimo roteiro de James V. Hart e Michael Goldenberg equilibra estas grandes discussões com outras de ordem mais intimista e que flertam com questões filosóficas e existenciais comuns a todos nós – entre elas, claro, a morte (ao perguntar ao pai sobre o alcance de seu rádio-amador, a pequena Ellie indaga se o aparelho poderia chegar até sua mãe, já falecida, estabelecendo o primeiro elemento de uma rima temática que se complementará quando, ao fim de sua jornada propiciada pela tecnologia, a heroína reencontrará o pai morto).

  

  

Usando conceitos científicos como “buracos de minhoca” e pontes de Einstein-Rosen com a naturalidade esperada de personagens que passaram a vida em meio a estas complexas formulações hipotéticas, Contato atrai o espectador para sua narrativa não só através de seu didatismo, mas, principalmente, ao construir uma protagonista multifacetada e fascinante, estabelecendo suas motivações principais através do relacionamento mais importante de sua vida: aquele que manteve com o pai. Vivido por David Morse com calma e doçura, Ted Arroway assume a condição de pai viúvo com aparente tranqüilidade, cumprindo com visível amor o papel fundamental de expandir a mente de sua jovem filha (Malone) através de conversas sobre a paixão que têm em comum pela astronomia. Esta expansão, aliás, é representada de maneira quase literal pelo mapa no qual a garota registra os lugares mais distantes que já alcançou com seu rádio – e que, pouco depois, renderá uma nova e elegante rima com o mapa no qual, já adulta, manterá o registro dos pontos nos quais (observem a contraposição) não conseguiu encontrar algum tipo de presença inteligente.

  

Sem oferecer à filha confortos artificiais acerca da morte da mãe (“Nem a maior antena poderia alcançá-la” é sua resposta à pergunta mencionada anteriormente), Ted surge como um homem racional que encara as grandes questões do universo de maneira sensata e pragmática, argumentando, por exemplo, que a falta de vida inteligente fora da Terra implicaria “num terrível desperdício de espaço” – e sua objetividade obviamente exercerá imensa influência na maneira com que Ellie, já adulta (e vivida por Jodie Foster), irá encarar os desafios à sua frente. Assim, é compreensível que a morte precoce do sujeito provoque um incontornável vazio emocional em sua filha, que se isola sentimentalmente ao mesmo tempo em que usa a figura do pai como modelo para suas aventuras românticas, o que resulta num claro conflito interno (seu interesse pelo personagem de Matthew McConaughey é despertado quando este repete, sem saber, uma frase de Ted, mas é também sua curiosidade acerca do pai de Ellie que leva a moça a se afastar).

Protegendo-se através de uma racionalidade implacável, Ellie é uma astrônoma incapaz de ver qualquer romantismo nas estrelas e astros que observa (Vênus, o mais sedutor dos planetas, é “repleto de gases venenosos”) e, quando um senador pergunta estupidamente por que o sinal alienígena consiste em números primos e não em palavras em inglês, ela não hesita em responder sem qualquer diplomacia que “70% do planeta fala outra língua”, complementando, como boa cientista, que a “matemática é a única linguagem universal”. Dona de um espírito naturalmente contestador, ela mal consegue conter seus impulsos combativos, empenhando-se para se embelezar antes de uma festa na qual irá encontrar o pastor Palmer Joss (McConaughey), mas partindo imediatamente para o confronto de idéias ao finalmente se ver diante do sujeito, que, afinal, defende uma crença que ela descartou ainda na infância (ao tentar confortá-la após a morte do pai, um padre argumenta ser difícil entender as “vontades de Deus” apenas para ser surpreendido pela resposta adulta da menina, que ignora qualquer sugestão metafísica: “Eu deveria ter guardado os medicamentos dele no andar de baixo”).

Atriz talentosíssima que sempre confere imensa força dramática às suas criações, Jodie Foster demonstra conhecer Ellie Arroway com profundidade não só através de momentos de maior intensidade emocional (que não são muitos, já que a personagem se esforça para se manter sob controle), mas principalmente através de escolhas sutis como as tosses nervosas que ela exibe ao depor diante da comissão que definirá o primeiro “viajante espacial” ou – ainda mais sintomático – o riso incontido que revela seu entusiasmo diante de todo o projeto. Firme em suas convicções de que apenas aquilo com base na Ciência (ou, no mínimo, em evidências palpáveis) deve ser levado em consideração, ela não hesita em renegar qualquer crença no Divino – e, mesmo relutante, o pastor Joss demonstra aceitar a racionalidade da amada ao presenteá-la com um colar que traz, no lugar do crucifixo, um símbolo de seu temperamento científico: uma bússola. Este presente, aliás, demonstra a inteligência da dupla de roteiristas ao funcionar também como um elemento importante que revela a coesão interna da narrativa, já que, ao surgir pela primeira vez em cena, ainda aos 13 minutos de projeção, é acompanhado por uma brincadeira de Ellie, que diz a Palmer para guardá-lo já que o objeto “poderá salvar sua vida algum dia” – o que se confirmará profético quase duas horas depois, quando a protagonista, ao abandonar sua poltrona na pequena nave a fim de recuperar a bússola que saíra flutuando, evita ser atirada de encontro à parede do aparelho.

  

Casal interessante justamente pelas posições diametralmente opostas que assumem diante da Fé, da Razão e do conceito de Deus, Ellie e Palmer protagonizam algumas das discussões mais instigantes do longa – e mais uma vez os roteiristas (e Sagan) merecem créditos por apresentarem os pontos de vista dos personagens com honestidade, sensibilidade e sem julgamentos prévios. Palmer, por exemplo, contrapõe a exigência de provar a existência de Deus ao sugerir que Ellie “prove” que amava o pai, numa lógica que, mesmo falha (afinal, Deus é, para ele, um “ser”, ao passo que o amor de Ellie é um sentimento), é eficaz o bastante para ilustrar sua visão sobre a fé. Da mesma maneira, por mais injusta que seja sua pergunta a Ellie durante o depoimento desta diante do comitê (“Você acredita em Deus?”), é fácil compreendermos por que, para ele, é importante que o enviado terrestre represente a crença que a maior parte da população mantém numa manifestação divina – o que, claro, não responde a questão seguinte sobre qual “Deus” deveria ser representado na missão (mas, mais uma vez, o filme é certeiro, já que os pastores, reverendos e afins têm o hábito de ignorar as demais religiões).

Fechando o elenco principal, o diretor Robert Zemeckis faz uma curiosa homenagem a outra icônica produção do gênero ao escalar a dupla Tom Skerritt e John Hurt, que anteriormente haviam dividido a tela em Alien, o Oitavo Passageiro. Assumindo um papel menor (mas importantíssimo), Hurt encarna o bilionário S.R. Hadden, que, literalmente vivendo no céu (ele permanece o tempo inteiro em um avião e, posteriormente, em uma estação orbital), surge em cena sempre que a protagonista se encontra diante de um obstáculo aparentemente intransponível – e, assim, sua permanência longe do solo ganha contornos ainda mais irônicos ao percebermos que ele é a mais pura encarnação do deus ex machina. Enquanto isso, Skerritt tem a oportunidade de estabelecer o cientista David Drumlin como uma figura mais complexa: sujeito politicamente ambicioso, ele exibe uma arrogância natural ao sempre tratar Ellie como uma subordinada mesmo depois que esta prova seu valor diante dos poderosos de Washington (ao agir assim, ele se coloca de forma inteligente acima dela, mantendo seu poder e influência). Não se acanhando em assumir os créditos pelas descobertas da moça, ele inicialmente se apresenta como um indiscutível antagonista – até que, diante das evidências apresentadas por Ellie, não consegue conter sua curiosidade de homem da ciência e passa a auxiliá-la em diversas ocasiões, comprovando possuir uma inteligência aguçada que passa a ser ofuscada apenas por seu talento político: ao perceber, por exemplo, que Ellie se prejudicara ao expor seu ateísmo, ele logo se certifica de encaixar uma menção casual a Deus em uma entrevista, numa postura tão estudada quanto sua insistência em repetir a mesma piadinha para repórteres diferentes.

  

É importante apontar que parte da riqueza destas composições deve-se também ao cineasta Robert Zemeckis, que, embora um diretor notadamente técnico, sempre se mostrou inspirado em suas escalações de elenco e que é conhecido por oferecer imensa liberdade criativa aos seus atores. Conferindo invejável fluidez à narrativa, Zemeckis é responsável, ao lado do montador Arthur Schmidt, por diversas transições não só bastante econômicas, mas extremamente elegantes, como aquela em que, depois de enfocar a pequena Ellie dizendo que precisará de uma “antena maior”, faz um travelling para a esquerda e, através de uma fusão, repete o gesto da personagem de colocar os cabelos atrás da orelha para ilustrar a passagem do tempo, encerrando a elipse com a imagem da realização do objetivo estabelecido pela moça: uma colossal antena. Da mesma maneira, o cineasta frisa a obsessão da protagonista ao enfocar constantemente o céu estrelado, fugindo desta lógica em dois momentos precisos: ao substituí-lo por um céu triste e nublado visto através de árvores de outono (refletindo a tristeza provocada pela morte de Ted) e ao trazer Ellie sentada ao anoitecer à beira de um cânion e sob um horizonte melancólico, ilustrando o fato de que, impedida de continuar suas pesquisas, encontra-se mais uma vez frustrantemente presa à Terra.

  

     

  

É claro, porém, que estes instantes de maior sutileza também cedem lugar, aqui e ali, aos planos nos quais Zemeckis dá vazão às suas invencionices técnicas, desde os dois momentos em que a câmera atravessa o vidro da porta de Ellie num travelling contínuo até o excelente plano-seqüência que, buscando frisar a urgência do primeiro contato com o sinal alienígena, acompanha a heroína do seu carro até o centro de controle de sua pesquisa enquanto dispara ordens pelo rádio. No entanto, talvez o exemplo mais espetacular da criatividade do cineasta seja aquele que acompanha o esforço da pequena protagonista para salvar o pai: desesperada ao descobri-lo caído na cozinha, ela dispara escada acima numa câmera lenta que remete a um terrível pesadelo até finalmente chegar ao armário do banheiro – quando, então, percebemos que tudo o que havíamos visto até então era o reflexo da ação projetado no espelho (o que é naturalmente impossível, implicando, claro, em uma brilhante trucagem no computador). Contudo, o golpe final da seqüência surge quando o espelho, voltando a se fechar, revela a foto de Ted e Ellie – uma imagem tocante e emblemática que ganhará ainda mais peso ao descobrirmos que a garota guardará aquele retrato por toda a vida.

  

  

  

  

  

Mas Contato não é só um filme de idéias, atuações e técnicas: é também uma obra que estabelece de forma impecável a atmosfera de sua narrativa. Desde os pequenos momentos de humor (o que dizer de um personagem que, batizado de Kent Clark, é cego, mas tem audição apuradíssima?) até os instantes de maior tensão, Zemeckis constrói uma experiência sempre fluida e envolvente. Observem, por exemplo, a cena que traz Ellie nos instantes que precedem sua jornada: recolhida ao seu minúsculo aposento, que treme sobre o mar agitado, ela se encontra quase em posição fetal enquanto o som da chuva surge ameaçador ao fundo – algo que imediatamente deixa o espectador angustiado e apreensivo. Da mesma forma, o cineasta é hábil ao apresentar o fanático religioso vivido por Jake Busey rapidamente em dois instantes diferentes, preparando-nos para a ação terrorista a ser executada pelo sujeito ao estabelecê-lo como uma figura inquietante e agressiva muito antes do atentado em si.

  

O que nos traz a esta que é uma das seqüências mais tensas de Contato e que merece uma análise cuidadosa por ilustrar o talento do diretor ao construí-la: já no início, Zemeckis introduz a ameaça de maneira sutil, quase imperceptível, ao enfocar Ellie de costas para os monitores de segurança – que revelam a entrada em cena do pregador-terrorista (o cineasta aumenta nossas chances de notá-lo ao situá-lo na metade direita, mais forte, do quadro). Segundos depois, o sujeito volta a aparecer num dos monitores, agora com o rosto bem mais visível, mas a protagonista novamente falha em percebê-lo. A tensão é momentaneamente quebrada com a piada feita por alguns técnicos diante do narcisismo de David Drumlin e só então, ao aproximar-se do centro de segurança, Ellie repara o fanático na base de lançamento. Alarmada, ela entra em contato com Drumlin através dos fones de ouvido, permitindo que Zemeckis enfoque a conversa numa abordagem interessante ao usar os monitores como uma alternativa inventiva ao tradicional plano/contraplano. A partir daí, o cientista gira para procurar a ameaça e o diretor, concebendo um quadro que quase remete ao split screen, estabelece a geografia da cena ao simular um confronto direto entre Drumlin e o terrorista, que parecem se encarar diretamente em função da posição dos monitores (sendo observados por Foster). A seqüência chega ao fim trazendo o ponto de vista da câmera montada no uniforme de David, que acaba registrando a própria morte de forma chocante e cuja violência Zemeckis salienta através de uma panorâmica que enfoca a explosão em vários monitores até chegar, enfim, às vidraças que expõem o aparelho à distância. É um momento dramático perfeito e construído com precisão, figurando facilmente entre os melhores instantes da carreira do diretor.

  

  

  

E que ainda assim empalidece diante do clímax de Contato, que traz a esperada jornada de Ellie a bordo da nave construída a partir da mensagem alienígena: empregando os ótimos efeitos visuais não só para ilustrar a viagem pelo universo, mas também a fratura no espaço-tempo vivenciada pela heroína (observem como, em certo instante, várias expressões faciais diferentes parecem surgir simultaneamente em seu rosto), esta seqüência-chave do longa acaba se convertendo em um instante de lirismo arrebatador, culminando no sublime momento em que, atordoada pela beleza do que vê e sentindo-se incapaz de descrevê-la, Ellie diz aquela que, para mim, é a fala mais linda da obra:

- Eles deveriam ter enviado um poeta.

  

Maduro, desafiador e inteligente, Contato ainda se engrandece por não buscar oferecer o impossível: uma explicaçãozinha mastigada e artificial para a natureza dos alienígenas e do próprio universo. Embora bem mais avançados tecnologicamente do que os terráqueos (e como não seriam?), eles se encontram igualmente no escuro diante dos grandes mistérios da origem da vida, desconhecendo até mesmo quem foram os responsáveis por criar o sistema de transporte que emprega as pontes de Einstein-Rosen. E é aí que a filosofia de Carl Sagan se torna mais importante e estabelece o centro temático/ideológico do filme: diante da impossibilidade de desvendarmos estas questões tão fundamentais sobre nossa existência, resta-nos apenas a alternativa de encontrarmos amparo uns nos outros. Estamos, afinal, todos juntos nesta jornada originada pelo e rumo ao desconhecido – e é trágico, portanto, que ainda insistamos na destruição mútua, na intolerância e no preconceito enquanto percorremos este caminho assustador e solitário.

A experiência de Ellie, aliás, assume um caráter propositalmente religioso em sua essência: em primeiro lugar, ao assumir a aparência do pai de Ellie para deixá-la mais à vontade, o ser com o qual a moça conversa ainda confere ao encontro uma atmosfera de fenômeno sobrenatural, pós-morte – especialmente por ocorrer num ambiente que claramente foi construído a partir das lembranças da pequena Ellie (reparem como a “praia” que abriga a conversa remete ao desenho feito pela menina no início da projeção). No entanto, ainda mais importante do que isso é o fato de a protagonista retornar de sua viagem sem qualquer evidência que comprove sua experiência, o que a coloca, como cientista, na irônica posição de ser obrigada a pedir que seus pares acreditem em sua palavra sem que possa oferecer qualquer prova empírica do que está afirmando:

- Eu passei por uma experiência. Eu não posso prová-la nem explicá-la. Mas tudo que sei como ser humano, tudo que sou, me diz que aquilo foi real. Eu recebi algo maravilhoso, algo que me mudou para sempre. Uma visão do universo que nos diz inegavelmente quão pequenos e insignificantes, mas quão raros e preciosos todos somos. Uma visão que mostra que pertencemos a algo maior e que nenhum de nós está sozinho.

Ela poderia, claro, estar falando de Deus.

A diferença é que, como cientista (mas, principalmente, como ser racional), Ellie compreende que sua experiência individual não é prova de absolutamente nada e – ao contrário de religiosos em todo o mundo – aceita, ainda que lamente, que sua verdade pessoal não seja adotada como dogma ou como fato inconteste pelo resto da humanidade. Isto, porém, não importa: sua jornada particular, interna, se completa naquele exato momento, já que Palmer, compreendendo que Ellie vivenciou algo que ele, como homem de fé, pode compreender, estabelece com a moça uma ligação que até então ela só vivera com o pai.

Ellie finalmente reencontrou a possibilidade de cumprir o propósito manifestado pelos alienígenas e se tornou capaz de estabelecer um laço significativo com outro ser humano.

Quanto à sua experiência “religiosa-científica”, o que lhe resta é a chance de compartilhar com outros “crentes” o que viveu, o que a transforma, mais uma vez com imensa ironia, em uma espécie de profeta.

Mas um profeta que, diferentemente de tantos outros que, sem qualquer prova ou razão, se enxergam no direito de tentar ditar as regras pelas quais todos viveremos, é plenamente capaz de dizer três palavras que sempre colocarão a Ciência acima do dogma cego:

 Eu não sei”.   

  

31 de Julho de 2010

A série Jovens Clássicos tem, como objetivo, homenagear filmes que, apesar de produzidos apenas nos últimos 30 anos, já podem ser considerados como parte fundamental da História do Cinema. Longas abordados anteriormente: Serpico, Todos os Homens do Presidente, Fogo Contra Fogo, Frankenstein de Mary Shelley e Busca Frenética.

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.