Críticas por Pablo Villaça

Poster: Serpico
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
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Serpico
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Serpico

Série Jovens Clássicos #01

Dirigido por Sidney Lumet. Com: Al Pacino, John Randolph, Tony Roberts, Barbara Eda-Young, Cornelia Sharpe, Jack Kehoe, Biff McGuire, Norman Ornellas, Allan Rich, Ed Crowley, Charles White, Richard Foronjy, M. Emmet Walsh, Judd Hirsch, F. Murray Abraham.

Na Hollywood contemporânea, quando um jovem ator descobre o sucesso, imediatamente busca converter a fama em poder, investindo seu tempo em projetos formulaicos que garantam grandes bilheterias e, conseqüentemente, sua ascensão na indústria. Nem sempre foi assim – e basta observarmos a trajetória de Al Pacino para constatarmos isso: depois de estourar em O Poderoso Chefão, dezenas de roteiros caíram em seu colo, mas, com exceção do romance Um Momento, Uma Vida (1977), o ator concentrou-se em obras desafiadoras e complexas nas quais lutava contra as tentativas dos executivos de transformarem-no em mais um “galã”, como Um Dia de Cão (no qual roubava um banco para pagar a cirurgia de mudança de sexo do namorado vivido por Chris Sarandon) e, é claro, este Serpico.

Inspirado na trajetória real do policial nova-iorquino Frank Serpico, narrada no livro de Peter Maas, o roteiro de Waldo Salt (Perdidos na Noite, Amargo Regresso) e Norman Wexler (Os Embalos de Sábado à Noite) antecipa em 20 anos a introdução de outro espetacular trabalho de Al Pacino, O Pagamento Final, apresentando seu personagem quando este está sendo encaminhado ao hospital depois de ser baleado. Barbudo e usando diversas bijuterias, Serpico parece um hippie comum e, assim, é com certa surpresa que constatamos se tratar de um policial ferido durante uma missão. O mais intrigante, porém, é perceber a comoção provocada pela notícia de sua hospitalização: por que, afinal de contas, um tira barbudo seria tão importante? E por que vários de seus colegas parecem tão satisfeitos com a possibilidade de vê-lo morto? A triste resposta surge através de um diálogo que traz um aparente paradoxo: “Quem pode confiar em um policial que não aceita suborno?”, pergunta alguém.

A partir daí, um longo flashback tem início para explicar as circunstâncias que levaram ao atentado à vida de Serpico, começando em sua formatura na Academia de Polícia: jovem idealista e íntegro, o rapaz observa com preocupação as concessões éticas feitas por seus colegas de farda em troca de pequenos favores, como permitir o estacionamento em fila dupla diante de um restaurante que não cobra pelo almoço fornecido aos policiais. Sentindo-se igualmente desconfortável com os métodos violentos de seus companheiros, o rapaz solicita transferência de um distrito a outro, sempre esperando encontrar parceiros mais íntegros, mas suas esperanças são rapidamente destruídas quando, já em seu primeiro dia em uma nova delegacia, alguém lhe entrega um envelope contendo o suborno da semana.

Ilustrando de maneira angustiante o dilema vivido por seu personagem-título, o filme aborda a corrupção como algo endêmico que, mais do que aceita por todos, é praticamente imposta aos policiais da cidade: dividido entre a vontade de mudar o sistema e a repulsa de se tornar um dedo-duro, Serpico procura ignorar o problema e até mesmo tenta compreender a postura de seus colegas, já que muitos são pais de família que, ganhando mal como defensores da Lei, acabam ferindo-a no intuito de complementarem suas rendas. Isto, porém, leva-o a ser visto com desconfiança pelos colegas, colocando Serpico numa posição delicada: afinal, basta que seus parceiros desapareçam num momento de perigo para que ele se torne mais uma vítima fatal da luta contra o crime.

Exibindo a segurança e a intensa presença cênica já vistas em Os Viciados e O Poderoso Chefão, seus dois grandes trabalhos anteriores (antes disso, ele estreara numa ponta em Uma Garota Avançada, de 1969), Al Pacino demonstra inteligência ao criar um imenso contraste entre a futura angústia de Serpico e a maneira irreverente e jovial com que este surge nas cenas logo após formar-se como agente da Lei – e é comovente constatar que aquele mesmo rapaz com o quepe de policial virado para trás e que insiste em atender até mesmo os chamados feitos fora de seu setor acabará dando lugar ao homem tenso e amargo que desconfia de tudo e de todos, tornando-se nervoso e absolutamente intratável.

  

Além disso, a influência da atuação naturalista pregada por Lee Strasberg (de quem Pacino foi aluno e com quem ele contracenaria em O Poderoso Chefão 2) e consagrada por Marlon Brando pode ser observada em maravilhosas sutilezas na performance do ator, como ao brincar com um elástico enquanto conversa com um amigo (lembrem-se de Brando pegando a luva de Eva Marie Saint em Sindicato de Ladrões), ao tomar o cuidado de enxaguar uma vasilha antes de usá-la para dar água a um cão ou mesmo ao manter-se concentrado no personagem e na cena depois de quase cair ao tentar sentar-se. Da mesma maneira, ao encarnar Serpico como um homem de modos calmos na maior parte do tempo, Pacino confere, por contraste, maior impacto aos momentos em que o policial estoura – como na brilhante cena em que, depois de prender um sujeito protegido por seus colegas de distrito, o herói finalmente perde a serenidade ao perceber que ninguém leva o delito do criminoso a sério (e a decisão do cineasta Sidney Lumet de filmar a cena em um plano conjunto longo é fabulosa, já que permite que percebamos o desconforto crescente dos demais detetives à medida que Serpico se torna cada vez mais nervoso).

  

 

Mas Frank Serpico é mais do que um policial: ao contrário de tantos outros longas que definem seus personagens através de suas profissões, aqui o protagonista demonstra ter vários outros interesses além de tentar “resolver o caso e prender o vilão”: fruto de uma época de intensa agitação cultural (o final dos anos 60 e início dos 70), Serpico se interessa por arte e busca conviver com pessoas de diferentes meios, manifestando sua sintonia com a época até mesmo através de sua aparência (e deixar o bigode e o cabelo crescerem serve até mesmo para auxiliá-lo a trabalhar disfarçado) Aliás, é fascinante perceber a diferença de visão demonstrada por este filme (que abraça a cultura hippie e sua curiosidade intelectual) e a do fascistóide McQ – Um Detetive Acima da Lei, dirigido por John Sturges no ano seguinte (1974, portanto) e que trazia John Wayne como um detetive que também enfrentava a corrupção policial, mas que tinha verdadeiro desprezo pelos jovens cabeludos de sua época (é uma pena, aliás, que a única parceria entre Sturges e Wayne seja tão estúpida).

  

Pacino, porém, não é o único destaque do elenco: assumindo um papel normalmente ingrato – o da namoradinha do herói -, Barbara Eda-Young transforma Laurie em uma figura tridimensional ao retratar sua dedicação a Serpico, mas também sua crescente frustração ao vê-lo tornar-se obcecado por seus problemas profissionais. Sim, a moça ama o detetive, mas sente dificuldade em conviver com alguém que está sempre à beira de um ataque de nervos (quem não sentiria?), o que a deixa com um ainda mais incômodo sentimento de culpa. Enquanto isso, John Randolph realiza a proeza de inspirar confiança no espectador assim que surge em cena – algo difícil em um filme recheado de traidores e corruptos (e o mais interessante é que consegue isso ao viver seu personagem como um homem mal-humorado que parece só se comunicar aos gritos). E se Judd Hirsch, F. Murray Abraham e M. Emmet Walsh aparecem em pequenas pontas, o ótimo Tony Roberts usa o pragmatismo de seu Bob Blair como um importante contraponto à impetuosidade de Serpico.

Diretor relativamente pouco valorizado diante de sua imensa contribuição ao Cinema, Sidney Lumet confere verossimilhança à narrativa através de detalhes como a preocupação de um policial em anotar a placa de um carro atingido acidentalmente durante um tiroteio e o cuidado de Serpico ao preencher os relatórios das prisões que efetua. Além disso, o cineasta ilustra o sentimento de isolamento do protagonista ao enfocá-lo em planos abertos que o deixam pequeno diante do mundo e também estabelece a urgência de sua situação ao incluir closes ameaçadores dos detetives que cercam o herói no parque. Já em outro momento, Lumet utiliza lentes específicas para achatar o quadro, anulando a perspectiva de profundidade e levando o cenário a “crescer” sobre Serpico, num resultado claramente opressivo.

  

 

  

 

  

 

  

Aliás, a montagem da hoje lendária Dede Allen (que ajudara a revolucionar a linguagem narrativa cinematográfica poucos anos antes, em Bonnie e Clyde) é impecável, alternando seqüências nas quais opta por acompanhar os personagens de maneira mais calma e contemplativa com outras infinitamente mais nervosas e agitadas, empregando com inteligência cortes bruscos, elipses, saltos no eixo e transições de cena indicadas com agilidade pelo som. O trabalho de Allen é particularmente memorável no instante em que o atentado à vida de Serpico é encenado, quando a tensão é construída com precisão através de planos-detalhe da mão do policial lutando para se desvencilhar da porta e sendo arranhada pela madeira ao mesmo tempo em que ouvimos o choro de uma criança e vemos a expressão desesperada do personagem ao perceber a gravidade da situação.

  

 

  

É importante observar, também, a riqueza do filme em seus demais quesitos técnicos, desde os figurinos utilizados por Al Pacino, que ajudam a compor o personagem com eficiência, até a direção de arte, que reflete a personalidade de Serpico na decoração de seu apartamento (e note, também, como o grande número de máquinas de escrever na sala ao lado daquela ocupada pelo assistente do prefeito ajuda a ressaltar a burocracia infernal que colabora para emperrar os esforços do policial). Finalmente, a escolha perfeita das locações contribui para criar a atmosfera urbana e decadente tão importante para o sucesso do longa.

  

No final das contas, contudo, o que importa mesmo é a trajetória emocional e psicológica do personagem-título – e sua tragédia reside não só na situação impossível que o envolve, mas na destruição irremediável de seu sonho de ser um policial eficiente num departamento íntegro. Assim, quando Serpico finalmente deixa escapar um pequeno choro, percebemos que, de um modo ou de outro, sua batalha já foi perdida e lamentamos não apenas sua desilusão, mas também o cinismo do mundo no qual ele (e, ainda hoje, todos nós) vivemos.


27 de Setembro de 2007

A série Jovens Clássicos tem, como objetivo, homenagear filmes que, apesar de produzidos apenas nos últimos 30 anos, já podem ser considerados como parte fundamental da História do Cinema. Como não poderia deixar de ser, no entanto, já abro esta série ferindo minhas próprias regras, já que Serpico completou, em 2007, 34 anos de existência.

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.