Críticas por Pablo Villaça

Poster: Fruitvale Station - A Última Parada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
31/01/2014 Unknown
Distribuidora

 

 


Fruitvale Station - A Última Parada
Fruitvale Station

Fruitvale Station - A Última Parada

Dirigido por Ryan Coogler. Com: Michael B. Jordan, Octavia Spencer, Melonie Diaz, Ahna O’Reilly, Kevin Durand, Chad Michael Murray, Ariana Neal.

Rodney King e Trayvon Martin são apenas dois dos nomes mais conhecidos entre os milhares e milhares de jovens negros que, ao longo das décadas, foram vítimas de violência sistêmica por parte das autoridades ou – ainda mais assustador – por milicianos que, então, foram absolvidos de qualquer culpa pelas vidas que destruíram. E estou me referindo apenas aos Estados Unidos, que tantos conservadores brasileiros, numa mentalidade colonialista, apontam como um exemplo eterno a ser seguido. Sim, há pontos admiráveis na cultura norte-americana (e eu, como amante das Artes, seria tremendamente hipócrita caso negasse isto), mas alegar que aquele é um país “de igualdades” é mais que cegueira; é mau-caratismo.

Dirigido e escrito pelo estreante Ryan Coogler, Fruitvale Station resgata a história de mais um destes jovens negros massacrados: Oscar Grant. Morto – não: executado – por policiais na madrugada da virada de 2008 para 2009, o rapaz de 22 anos de idade teve seus últimos momentos registrados por dezenas de vídeos amadores que capturaram a ação absurda das autoridades numa estação de metrô – e quando vemos um destes registros logo na abertura do filme, podemos constatar como toda uma vida vitimada pela intolerância e pelo abuso de poder justificaria a postura defensiva, mas nada violenta, de Oscar ao ser encurralado na mureta da estação por um bando de brutamontes de distintivo. A partir daí, Coogler retorna 24 horas no tempo e transporta o espectador para o último dia da vida de Oscar Grant (Jordan), permitindo que testemunhemos suas interações com a namorada, com a filha de 4 anos e com a mãe (Spencer).

Rodado de forma direta, quase sugerindo um registro documental, Fruitvale Station evita qualquer sombra de melodrama ao acompanhar seu protagonista, que, vivido de maneira expressiva e carismática pelo jovem Michael B. Jordan (digno de prêmios), tampouco é retratado como um santo à espera do martírio. Dono de um passado conturbado e claramente capaz de explosões pontuais – o que fica claro quando puxa um ex-chefe pelo braço -, Oscar é um indivíduo falho: demitido por se atrasar constantemente para o trabalho e visto num breve flashback quando ainda se encontrava preso, o sujeito se mostra, por outro lado, disposto a tentar mudar e exibe imenso carinho pela família. Neste sentido, diga-se de passagem, as belas atuações de Melonie Diaz, Ariana Neal e Octavia Spencer (aqui, sim, merecendo os aplausos que ganhou injustamente por Histórias Cruzadas) ajudam a humanizar ainda mais o protagonista ao evidenciar o carinho que desperta, respectivamente, em sua namorada, na filha e na mãe, que viriam a se tornar vítimas indiretas da violência sofrida por ele.

Hábil ao sugerir um cotidiano problemático, mas caloroso, Ryan Coogler e a diretora de fotografia Rachel Morrison constroem uma atmosfera inquieta com a câmera móvel, sugerindo uma tensão subjacente que percorre a narrativa. Em contrapartida, os quadros fechados usados para retratar o jantar da família Grant são inteligentes por não só aproximarem o espectador daquelas pessoas, mas também por criarem um clima de união entre aquelas pessoas – e me encantei particularmente com o plano que traz, no canto direito do quadro, a geladeira com diversos desenhos infantis e retratos da família enquanto, ao fundo, vemos aqueles indivíduos numa roda de oração antes do jantar. Além disso, ao constantemente sobrepor ao campo as telas do celular de Oscar enquanto troca mensagens com amigos e parentes, Coogler não só ressalta as ligações afetivas do personagem como nos lembra constantemente da onipresença daquela tecnologia que seria vital em registrar o fim do jovem.

Evitando pregações desnecessárias, o filme ainda assim sugere, aqui e ali, as desigualdades e preconceitos responsáveis por forjar uma atmosfera que resulta de forma tão frequente em atos de abuso contra minorias – como ao focar, mesmo com bom humor, a dificuldade de se encontrar um cartão de felicitações que não traga apenas famílias brancas no design ou na maneira com que a polícia se sente autorizada a abordar e oprimir alguém apenas em função da cor de sua pele. Ainda assim, é importante notar que Coogler não retrata nem mesmo os policiais envolvidos na tragédia como monstros unidimensionais – e ainda que se mostre brutal na abordagem inicial, o policial interpretado por Kevin Durand imediatamente revela uma faceta humana ao perceber que algo saiu tremendamente errado na plataforma do metrô.

Percorrido por uma sensação de tragédia iminente estabelecida pelo vídeo inicial, Fruitvale Station é um filme devastador por lembrar o público de algo que temos a tendência de esquecer quando lemos, vemos ou ouvimos notícias sobre atos de violência: a vítima era mais que um nome ou uma estatística; era um ser humano com sentimentos, história, amores, sonhos e família. Era um estranho, mas poderia ser um conhecido. Poderia ser... você ou eu, caso tivéssemos a cor de pele “errada” ou possuíssemos uma conta bancária com menos zeros do que o desejado.

Fruitvale Station nos lembra, enfim, de que somos todos Oscar Grant.

Ou Amarildo.

 

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2013.

2 de Outubro de 2013

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.