Críticas por Pablo Villaça

Poster: Whiplash: Em Busca da Perfeição
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
08/01/2015 10/10/2014
Distribuidora
Sony

 

 


Whiplash: Em Busca da Perfeição
Whiplash

Whiplash: Em Busca da Perfeição

Dirigido e roteirizado por Damien Chazelle. Com: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang.

Imagine um filme que escalasse o sargento Hartman vivido por R. Lee Ermey em Nascido para Matar no lugar do Mr. Holland de Adorável Professor e terá uma ideia do que verá em Whiplash: Em Busca da Perfeição. Escrito e dirigido pelo jovem Damien Chazelle, de apenas 29 anos de idade (e também responsável pelo roteiro de – vá entender – Toque de Mestre), este longa representa uma experiência atípica ao levar o espectador ao riso com os excessos do mestre vivido por J.K. Simmons ao mesmo tempo em que provoca um profundo incômodo diante de seus métodos cruéis, conseguindo ainda, no processo, despertar uma discussão inesperada, mas relevante, sobre Educação e a fronteira entre incentivo e abuso.

Interpretado pelo excelente Miles Teller (que descobri em The Spectacular Now e que só melhora a cada novo trabalho), o jovem baterista Andrew Neyman tem o sonho de se tornar um dos maiores músicos de seu tempo. Para isso, consegue uma vaga no mais prestigiado conservatório do país e tenta atrair a atenção do regente mais célebre da instituição, o exigente e mítico Terence Fletcher (Simmons), que comanda uma banda de jazz considerada como berço de grandes profissionais. Aos poucos, porém, a disciplina militar mantida por Fletcher, que remete quase àquela do sargento Hartman já mencionado (com direito a um trompetista que, humilhado pelo condutor, chega mesmo a se parecer com o pobre soldado Pike de Nascido para Matar), começa a prejudicar o equilíbrio psicológico e emocional de Andrew, que passa a se dedicar aos ensaios de maneira quase autodestrutiva.

Explorando ao máximo um papel feito por encomenda para sua persona dominadora, J.K. Simmons praticamente se coloca entre os favoritos aos prêmios de atuação de 2014 ao encarnar Fletcher como um homem seguro de sua posição entre seus pares: ao entrar em um aposento, ele não abre as portas, mas as escancara como se um monarca estivesse invadindo a sala; ao selecionar um aluno para sua banda, anuncia a escolha como se concedesse o mais cobiçado dos prêmios; e ao conduzir os ensaios, trata seus pupilos com uma ferocidade que só se torna possível graças à certeza de que estes se submeterão aos abusos. Ao mesmo tempo, o Fletcher de Simmons é um homem capaz de demonstrar imensa sensibilidade, como ao chorar diante da execução perfeita de uma composição, e mesmo de gentileza, como ao conversar com a filha pequena de um amigo. Em contrapartida, suas interações com os alunos – e com Andrew, em particular – parecem sempre conter a semente de uma nova brutalidade, transformando até mesmo conversas aparentemente gentis em possíveis armadilhas psicológicas. Competente de maneira quase sobrenatural, Fletcher é capaz de identificar um instrumento levemente desafinado em meio a dezenas de notas e não hesita em protestar contra um erro grosseiro cometido por um músico ao ouvir apenas duas batidas.

Enquanto isso, Miles Teller evita a estratégia óbvia de converter Andrew em um herói típico ao mesclar sua natureza sonhadora com um toque excessivo de ambição e arrogância – e por mais que torçamos pelo sucesso do rapaz, não podemos deixar de notar como sua presunção se mostra danosa não só a ele mesmo, mas a todos que o cercam. Isto, claro, não compromete nossa admiração diante de sua dedicação absoluta ao instrumento, já que se entrega a sessões que cortam suas mãos sem levá-lo a interromper a prática. Com isso, a dinâmica que se estabelece entre Andrew e Fletcher é quase a de um casal disfuncional ou mesmo com componentes de sadomasoquismo, o que traz compreensíveis preocupações ao pai do garoto, vivido com doçura por Paul Reiser.

Ciente de que a natureza de brilhante improviso do jazz só é possível graças a muito ensaio e ao talento descomunal dos músicos, Damien Chazelle concebe as sequências musicais de Whiplash com uma linguagem mais comum em filmes esportivos, trabalhando com o montador Tom Cross para estabelecer uma energia intensa que acompanha os ritmos em cortes que revelam detalhes dos instrumentos, olhares e movimentos dos músicos, ações do condutor e as mãos frenéticas que executam cada nota.

Bem-sucedido também ao evitar que as ofensas disparadas por Fletcher tirem o espectador do filme, já que conseguem até provocar o riso sem que isto diminua o impacto que as palavras têm sobre os personagens (como deveriam ter, já que são recheadas de homofobia e racismo), Chazelle finalmente chega à discussão central de seu longa ao levar o público a rechaçar os métodos do condutor ao mesmo tempo em que reconhece sua eficácia em elevar os músicos a um nível diferenciado. “Não há duas palavras mais danosas do que ‘bom trabalho’”, afirma Fletcher em certo momento – e considerando que, de fato, boa parte dos grandes gênios já produzidos pela Humanidade fizeram sacrifícios pessoais que muitos de nós considerariam excessivos, não é absurdo imaginar que haja certa razão na lógica do sujeito, mesmo que questionemos seus extremos. Não que ele aja apenas por virtuosismo, já que também é capaz de atos de chocante mesquinharia e frieza – mas, ainda assim, é inegável que, nos momentos-chave, seu amor pela música se revela infinitamente maior do que a raiva que nutre.

Trazendo uma sequência final que conduz o espectador ao fade out final de maneira espetacular, levando-nos a deixar a sala de projeção com uma sensação de entusiasmo único pela música e pelo talento que testemunhamos, Whiplash é um filme que faz jus à própria ambição e que certamente merece os aplausos de reconhecimento que seu protagonista tanto cobiça. 

30 de Setembro de 2014

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2014.

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.