Conversa de Cinéfilo 80 - O Crítico e seus Críticos

A crítica não é uma resposta; é um processo. Ao escrever sobre um filme, minha pretensão não é a de determinar para os leitores quais devem ser suas reações ao vê-lo, mas sim a de explicitar, na medida do possível e de minhas próprias habilidades como crítico e escritor, como os realizadores construíram os sentimentos que o espectador julga serem frutos de geração espontânea. Se, além disso, houver a possibilidade de discutir os temas desenvolvidos pela narrativa e seus contextos históricos, políticos e culturais, melhor ainda. Uma obra não existe no vácuo; é resultado não apenas da sensibilidade e das ideologias de seus criadores, mas também da interpretação de quem a aprecia – e ainda que haja um indiscutível componente subjetivo nesta última, é perfeitamente possível analisar objetivamente os demais elementos que a ela nos conduziram.

Aí reside a confusão habitual quanto ao trabalho e a função do crítico: “quem ele se julga para determinar do que devo ou não gostar? Ora, gosto não se discute!”. Este é um tema que discuto praticamente desde que iniciei minha carreira, há 23 anos (um dos primeiros textos publicados no Cinema em Cena, diga-se de passagem, trazia o título “Para que serve a crítica, afinal?”), e que segue estranha e desnecessariamente controverso depois de todo este tempo. Mesmo que todos concordemos que “gosto não se discute”, o propósito da crítica jamais foi o de fazê-lo. Se alguém diz gostar de Transformers 4 ou de É Fada!, por exemplo, eu não tentarei convencê-lo de que está “errado” – e nem poderia fazê-lo, já que há apenas um especialista acerca de nossos gostos: nós mesmos.

No entanto, se a afirmação é a de que estes filmes são “bons”, a discussão se torna possível, já que há elementos concretos que podem ser convertidos em argumentos e debatidos: princípios de linguagem cinematográfica, de estética, desenvolvimento estrutural dos temas, arquitetura dramatúrgica do roteiro, inserção histórica do longa no contexto do gênero e assim por diante (e cada um destes tópicos inclui diversos outros: análise da mise-en-scène, do uso de cores, da montagem, etc).

Não é à toa que as palavras “crítica” e “critério” dividem a mesma raiz etimológica grega, krites (julgar). Assim, se a primeira vem de kritikos (habilitado para julgar), a segunda tem origem em kriterion (padrão; meio para se julgar). (Daí também partiu a versão do latim, critica – “apreciação”.) O que isto nos diz é que o crítico profissional não escreve simplesmente a partir de sua subjetividade ou de seu “gosto”, mas de elementos teórico-práticos que acumulou ao longo dos anos através de estudos e da experiência. Portanto, quando escreve um texto sobre, digamos, Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1, ele ou ela não está simplesmente proclamando sua opinião puramente subjetiva acerca do romance entre Bella e Edward, mas levando em consideração toda a construção em torno deste.

Frequentemente, quando aponto problemas em algum texto sobre um filme que inspirou paixões, recebo mensagens raivosas de fãs indignados com minha postura – e nem sequer é preciso que a crítica seja negativa; basta ter algumas observações fugindo do puramente lisonjeiro para que isto ocorra. Foi assim com Os Vingadores e, mais recentemente, com La La Land, obras das quais gostei, mas que ainda assim traziam tropeços óbvios. Uma das reclamações mais comuns, por exemplo, é uma variação de “Você deu três estrelas para La La Land e cinco para (o filme do qual não gostei). Absurdo!”.

Em primeiro lugar, não “dei estrelas”; escrevi 1.600 palavras com observações que, inclusive, traziam exemplos retirados do longa para ilustrá-las melhor. Este, por sinal, é um dos motivos que me levam a detestar cotações: Arte não é algo que se mensure em estrelas ou porcentagens; Arte se debate (e também se sente, mas falarei sobre isso adiante). Quando um agregador de críticas como o Rotten Tomatoes ou o MetaCritic aponta que “93%” dos críticos aprovaram La La Land (ou que a cotação média resulta neste valor), isto não significa que 93% deles amaram o filme; apenas que o aprovaram. Eu, por exemplo, comentei vários elementos problemáticos da obra, mas minha crítica no Rotten Tomatoes é “fresh”. E o que complica ainda mais é que muitas das notas e porcentagens presentes nestes sites refletem uma percepção subjetiva acerca do texto, já que – de novo – Arte não é Ciência Exata. (E o MetaCritic classifica O Poderoso Chefão 2 como “80%”, colocando-o abaixo de La La Land – o que, podemos todos concordar, trata-se de pura heresia.)

É frequente que leitores comentem aqui no Cinema em Cena que dei quatro estrelas para um filme, mas que a crítica parece descrevê-lo como cinco. Minha resposta é sempre a mesma: se você sente que a nota sugerida pela crítica soa como um cinco, considere-a desta maneira. (Em três diferentes ocasiões, tentamos eliminar as cotações do site, mas as reações negativas dos leitores nos fizeram voltar atrás todas as vezes.)

Da mesma forma, o que muitos parecem não entender é que uma crítica negativa (ou mediana) acerca de um longa que você amou não representa um julgamento a seu respeito. Particularmente, fico sempre feliz quando alguém se apaixona por um filme, mesmo que eu o odeie. Isto não quer dizer, contudo, que se torna necessário fingir que este é perfeito. É absolutamente possível amar um filme sem tentar defender absurdamente que se trata de uma obra-prima e também criticá-lo sem sugerir que é uma merda colossal; da mesma maneira, o amor pela obra não é um escudo contra críticas e nem deve ser usado para justificar problemas que esta possa vir a ter.

Porque esta é a complicação quando há um componente emocional: como o crítico canadense Geoff Pevere escreveu em 2006,

“Muitos escritores, psicólogos e filósofos já associaram a experiência de amar um filme à própria experiência de se apaixonar. Assim, quando algum espertinho da mídia aparece para dizer que você foi enganado ao deixar que isto acontecesse, é como se dissesse que você está errado ao amar seu cachorro. Você vai ficar com raiva.”

E é aí que se encontra o equívoco: não é isso que o crítico está dizendo. A origem de sua reação emotiva a uma obra pode se encontrar numa trilha sonora maniqueísta, mas isto não torna seu sentimento menos real. Por outro lado, creio ser importante lembrar o que escreveu o realizador francês Pierre Rissient, que foi assistente de direção de Godard em Acossado:

“Gostar de um filme não é o bastante. É preciso gostar pelos motivos certos.”

Eu incluiria aí o verbo “amar”.

Porém, é preciso compreender que a afirmação de Rissient não sugere que os “motivos certos” são aqueles ditados pelo diretor ou pelo crítico; como o mestre Roger Ebert apontou em um texto sobre o assunto,

(...) Você deve ser capaz de saber por que gosta de um filme e de explicar as razões para que outros possam aprender a partir de uma opinião que não seja a deles mesmos. Não é importante estar "certo" ou "errado"; é importante saber por que você tem uma opinião, entender como ela surgiu a partir do universo de todas as suas opiniões e ajudar outros a formarem suas próprias opiniões. Não há resposta correta. Há simplesmente o processo correto.”

É a isto que Rissient se refere quando diz “motivos certos”: a compreensão acerca de sua própria reação.

Assim, ao ler uma crítica que aparentemente desafia sua reação a algum filme, não perca tempo defendendo seu “gosto” ou insultando o autor. Em vez disso, debata os pontos levantados no texto. Se aponto problemas em um trabalho que você apreciou, não estou dizendo que você está “errado” ou que é um “idiota” ou que “foi enganado”. Como já discuti acima, ninguém está certo ou errado em gostar de um filme; o problema é quando o “gostar ou não” é usado como principal defesa ou ataque.

E mais: se você escolhe ler alguém apenas porque seus textos constantemente validam sua opinião, está perdendo uma imensa oportunidade. Em vez de encarar a crítica como um ataque à sua “opinião”, adote-a como um olhar diferente do seu e que talvez possa enriquecê-lo – para fazê-lo, não é necessário mudar sua posição; basta refletir sobre o que leu em vez de se preocupar simplesmente em desmerecê-la. Lembre-se: não é papel do crítico dar tapinhas na cabeça do leitor e dizer “você estava certo em amar/odiar aquele longa” – para ter esta confirmação, você só precisaria olhar no espelho. Não, não escrevo para debater o seu “gosto” ou o que você sentiu ao ver um filme; o que vou debater são os elementos de linguagem/estéticos/históricos/temáticos que causaram este sentimento.

Em resumo: a (boa) crítica não existe para te “convencer” de nada; existe para oferecer um olhar mais aprofundado sobre o que analisa. E só. Aproveite-a.

Um grande abraço e bons filmes!

(Ei, dá um segundinho, pode ser? Se você gostou deste texto - e se curte as críticas que lê aqui no Cinema em Cena -, saiba que ficamos bastante felizes, pois o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.