Festivais e Mostras Festival do Rio 2015 - Dia 04

Hoje foi dia de encontrar vários alunos entre as sessões do Festival do Rio – e somente a sessão de Mundo Cão contava com quase meia dúzia deles, o que me deixou feliz ao percebê-los acompanhando a programação do evento.

A minha maratona, aliás, começou com um filme curioso.

Quando Mate-me Por Favor (Idem, 2015) tem início, o rosto fortemente maquiado de uma bela jovem toma conta da tela. Embriagada e com os olhos lacrimejantes, a garota começa a caminhar pelas ruas desertas da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, até chegar a uma área desocupada e tomada por uma leve vegetação. Segundos depois, ela estará morta ao ser atacada por um serial killer que está aterrorizando a região.

Rodada de maneira absolutamente artificial, a sequência parece trazer todos os clichês dos slasher movies da década de 80: a câmera que acompanha a vítima (uma garota bonita e sensual) enquanto esta corre; a trilha sonora óbvia; o olhar da pessoa prestes a ser morta voltado diretamente para a lente e, claro, os gritos aterrorizados que deixariam Jamie Lee Curtis orgulhosa. Trata-se, portanto, de uma introdução que promete um filme problemático e pouco ambicioso.

Uma impressão que a diretora e roteirista (estreante em longas) Anita Rocha da Silveira desfaz gradualmente e de forma surpreendente: passando a acompanhar a adolescente Bia (Valentina Herszage), que logo se apresenta como protagonista ao se virar e olhar para o espectador em sua primeira cena, o longa aos poucos deixa claro estar ciente de sua artificialidade – aliás, mais do que isso: parece explorá-la para subverter o gênero, usando-o como uma alegoria para questões mais complexas do que inicialmente supomos. Neste aspecto, a inspiração mais patente da diretora acaba sendo não Wes Craven ou John Carpenter, mas David Lynch, já que a narrativa logo começa a se equilibrar entre uma visão naturalista dos incidentes abordados e outra mais carregada de simbolismos.

A intenção da cineasta pode ser observada, por exemplo, na forma estilizada com que constrói os espaços físicos da narrativa ao lado da diretora de arte Dina Salem Levy e da figurinista Ana Carolina Lopes: ao retratarem os cultos evangélicos frequentados pelos personagens, elas vestem a pastora com roupas de cores chapadas, gritantes, e a colocam diante de uma cruz de neon enquanto o templo à volta dos religiosos se limita a uma escuridão sem fim. Da mesma maneira, o roxo, uma cor associada à morte, surge de forma recorrente, pouco sutil, durante a projeção: no sofá da casa da protagonista, na camisa de seu irmão, nas luzes que banham uma festa de aniversário, no apito exibido pela pastora e assim por diante, indicando uma utilização do design de produção como origem de signos.

Não à toa, o vermelho também faz aparições constantes – não só no sangue artificial que jorra frequentemente (cobrindo completamente a tela, em certo ponto), mas através de efeitos luminosos como aquele que parece trazer dezenas de círculos/glóbulos tomando conta do quadro. E o vermelho, sempre é bom lembrar, remete à violência, claro, mas também ao sexo e a paixões intensas (como já escrevi algumas vezes, acho fascinante e revelador que nossa espécie enxergue amor e violência na mesma cor).

Porque se há um centro temático em Mate-me Por Favor, este reside na busca de Bia por sua sexualidade e na experimentação com o prazer e o próprio corpo: mostrando-se obcecada em transar com o namorado evangélico (que sempre resiste, mas acaba cedendo), a moça torna-se também fascinada pelas ações do serial killer e, principalmente, pelas vítimas deste, numa curiosidade mórbida, mas que reflete outros elementos importantes da obra: culpa e punição.

Reconhecendo a adolescência como um período de descobertas que frequentemente são feitas às custas de uma profunda angústia, a cineasta cria, aqui, um universo povoado apenas por jovens (não há um único adulto ao longo de toda a projeção) e também por uma sexualidade sempre presente, já que vemos – ou melhor: Bia vê, guiando nosso olhar – casais se beijando e se apalpando o tempo inteiro e em todos os lugares. No entanto, a erupção hormonal, que é natural e deveria ser assim encarada, é logo sufocada por dogmas, preconceitos e tabus, que ganham representação na pastora e, evidentemente, nos assassinatos.

O que nos traz de volta ao uso do terror como forma de discutir estas questões, já que este sempre foi um gênero moralista que pune personagens que cedem ao desejo e recompensa virgens e figuras recatadas. Aliás, é fascinante perceber como vários colegas da protagonista começam a exibir feridas à medida que o filme avança, apresentando, em seus corpos, estigmas consequentes do desejo.

É lamentável, portanto, que Mate-me Por Favor, mesmo capaz de despertar tantas interpretações, depende mais do que deveria do espectador para que estas sejam encontradas, já que sua narrativa é frouxa demais para construir uma lógica coesa. Para piorar, o roteiro traz, na maior parte do tempo, diálogos pavorosamente ruins que se tornam ainda piores graças ao elenco irregular.

O que não deixa de transformar Anita Rocha da Silveira em uma promessa de voz singular.

Mundo Cão (Idem, 2015) nem promessa representa.

Neste novo filme de Marcos Jorge (Estômago), Babu Santana interpreta um funcionário do departamento de controle de zoonoses da prefeitura de São Paulo que, certo dia, captura um rottweiler que havia escapado do dono. Depois que o animal é sacrificado seguindo o protocolo da cidade, o sujeito é confrontado pelo perigoso Nenê (Lázaro Ramos), que só havia descoberto o paradeiro de seu cão quando já era tarde demais. Para se vingar daquele que acredita ter sido o responsável por sua perda, o bandido toma uma atitude que dá início a uma sequência de eventos devastadores.

Mas previsíveis. Este, aliás, é um dos grandes problemas do longa: apresentando suas “reviravoltas” como se estas realmente fossem surpreendentes, o filme aposta muito em sua capacidade de chocar o espectador, o que acaba apenas por evidenciar sua fragilidade quando nos antecipamos ao que está prestes a ocorrer – e sem oferecer spoilers, aponto apenas que o incidente que Mundo Cão claramente considera como seu maior trunfo narrativo é telegrafado ao público ao ser construído pelo diretor seguindo uma cartilha que se tornou clichê há pelo menos uns dez anos, sendo empregada em dúzias e dúzias de produções (a ponto de me levar a comentar, em algumas ocasiões, como já fico esperando que certo evento ocorra sempre que vejo um personagem executando determinada ação – e estou sendo o mais vago possível para respeitar a ilusão do longa acerca de sua “surpresa”).

Para piorar, o roteiro é construído segundo uma estrutura que quebra a linearidade cronológica sem motivo aparente, mergulhando num flashback de nove meses após a introdução sem jamais justificar a necessidade de fazê-lo. Como se não fosse o bastante, o filme apresenta suas pistas de forma tão ostensiva que até mesmo o mais desatento dos espectadores irá capturar a maior parte delas (cof-“vou consertar a tampa”-cof). 

Claramente interessado em fazer um exercício de gênero, o diretor Marcos Jorge ao menos não busca esconder suas influências estéticas, inspirando-se nos “filmes de vingança” da década de 70 (pensem em Carter – O Vingador e Desejo de Matar) e empregando cortinas como forma de transição, telas congeladas, créditos com tipografia da época e uma trilha sonora que remete diretamente ao período. Além disso, Jorge escancara a inspiração de elementos da trama em O Segredo dos Seus Olhos ao incluir não só uma sequência em um estádio de futebol, mas um movimento de câmera ambicioso que se afasta da arquibancada e sai da arena (na direção oposta daquele feito por Juan José Campanella na obra de 2009, portanto).

Ancorado por um elenco afiado, Mundo Cão deve boa parte do envolvimento do espectador com sua história boba à eficiência das performances: Santana evoca com intensidade o sofrimento e a angústia crescentes de seu personagem, Ramos exala ameaça, Adriana Esteves cria uma mulher comovente e dedicada à família e, claro, a jovem Thainá Duarte quase rouba o filme de seus experientes companheiros ao se mostrar não apenas incrivelmente expressiva, mas ao demonstrar possuir um carisma invejável.

No final das contas, porém, a obra não consegue disfarçar sua falta de ambição ou mesmo sua covardia ao trocar, por exemplo, a motivação de Santana para suas ações - substituindo um personagem por outro em um incidente-chave apenas para não chocar excessivamente o espectador.

Estes atores definitivamente mereciam um roteiro melhor.

Saltando da ficção ao documentário, vi a seguir o belo Allende, Meu Avô Allende (Allende, mi abuelo Allende, 2015), que, como o próprio título indica, foi dirigido pela neta do ex-presidente chileno, Marcia Tambutti Allende. Incomodada com a resistência de sua família em discutir os eventos de 11 de setembro de 1971, quando o sangrento golpe comandado por Pinochet levou Salvador Allende a cometer suicídio dentro do La Moneda, a cineasta entrevista a avó Tencha (perfeitamente lúcida em seus mais de 90 anos), a mãe Isabel, a tia Carmen, o irmão e os primos – e logo percebemos o desafio da diretora, já que, em um momento ou outro, todos pedem para encerrar as conversas.

Se normalmente tenho resistência a documentários cujos diretores insistem em se estabelecer como centro narrativo (Em Busca de Iara é um exemplo recente que me irritou profundamente), aqui a estrutura não só é justificada pelo título e pela lógica do projeto, mas também graças ao desprendimento de Tambutti, que jamais se mostra interessada em roubar o protagonismo do próprio filme, parecendo genuinamente mais interessada no que os parentes têm a dizer do que em expor seus próprios sentimentos.

Trazendo imagens de arquivo sensacionais que revelam Allende em sua intimidade – há um filme caseiro fabuloso no qual ele participa de um teatro familiar -, o documentário acaba refletindo a complexidade de uma situação na qual a neta de uma figura pública e histórica acaba sabendo menos sobre o próprio avô do que praticamente todo o restante de seu país, já que, criada numa bolha de silêncio, ignorava elementos da trajetória do ex-presidente que muitos considerariam como domínio público.

Servindo também como uma homenagem à Beatriz “Tati” Allende, tia da diretora que se matou no exílio, Allende, Meu Avô Allende é um longa revelador, intimista e também historicamente relevante ao refletir, no presidente deposto, a complexa figura de um homem de família imperfeito, mas certamente amado pelos seus.

Amor, diga-se de passagem, é o tema central de Montanha da Liberdade (Ja-yu-eui eon-deok, 2014), do prolífico diretor sul-coreano Hoo Sang-soo. Divertido, ingênuo e doce ao contar a historinha simples de um japonês (o excelente Ryô Kase) que viaja à Coreia do Sul para pedir a amada em casamento, o roteiro do próprio cineasta brinca com a estrutura da narrativa ao construí-la em torno da leitura de cartas enviadas pelo rapaz, que, misturadas acidentalmente, são lidas por sua musa em ordem aleatória, levando o público a acompanhar os fatos relatados sem qualquer linearidade cronológica.

Porém, como acontecia em Mundo Cão, a brincadeira narrativa de Sang-soo se revela gratuita, servindo apenas para tentar conferir um pouco de complexidade e ambição a um projeto que – como vários dos trabalhos do diretor – é inofensivo, mas sempre simpático, provocando risos através de sua leveza, da interação entre os divertidos personagens e do fato de sabermos que, no final, a intenção do realizador é apenas o de criar um passatempo descompromissado com qualquer reflexão mais profunda.

Assim, seria preciso uma frieza muito grande para não se deixar levar por Montanha da Liberdade – mas também muito boa vontade para tentar encará-lo como algo remotamente memorável.

05 de Outubro de 2015

Leia também os textos anteriores sobre o Festival do Rio 2015: Dia 1Dia 2, Dia 3.

Abaixo, videocast sobre os longas vistos no quarto dia:

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.