Festivais e Mostras Festival do Rio 2015 - Dia 02

O segundo dia do Festival do Rio foi, em termos de consistência na qualidade dos filmes que selecionei para ver, bem melhor do que o primeiro. Aliás, se não fosse o desastre que encerrou a noite, teria ficado bem perto do ideal. De todo modo, acabou sendo curioso por ser amarrado por Arrested Development: comecei a maratona com Maeby (no elenco de Green Room) e a encerrei com George-Michael Bluth (em Entertainment).

Escrito e dirigido por Jeremy Saulnier (do também ótimo Blue Ruin), Green Room (Idem, 2015) acompanha os quatro integrantes de uma banda punk que, depois de tocarem em um bar no meio do nada para uma plateia de neonazistas (nunca uma boa ideia), acabam testemunhando um assassinato. Presos no camarim que dá título ao filme, eles se veem encurralados pelo grupo comandado pelo dono do estabelecimento, Darcy (Patrick Stewart), e têm que encontrar uma forma de escapar com vida.

Neste sentido, o longa é uma espécie de A Noite dos Mortos-Vivos com neonazistas no lugar de zumbis – e sem o contexto político e social da obra de Romero. Inicialmente, até há a impressão de que Saulnier fará algum tipo de comentário/crítica ideológica, mas aos poucos percebemos que seu principal interesse é mesmo o mais puro exercício de gênero (o que não é verdadeiramente um problema, já que o que ele poderia dizer? Que nazistas são canalhas? Qual a novidade?). Empregando o primeiro ato para estabelecer a camaradagem dos músicos (vividos por Anton Yelchin, Alia Shawkat, Joe Cole e Callum Turner), o diretor encontra uma maneira convincente de posicioná-los em um ambiente obviamente perigoso até finalmente poder fazer aquilo que lhe interessa: bombardeá-los com todo tipo de ameaças e desafios em um ambiente de confinamento.

Chocando através das explosões súbitas (e gráficas) de violência, Green Room evoca com eficiência a atmosfera claustrofóbica experimentada pelos heróis ao empregar principalmente quadros fechados em cômodos com paredes escuras, enfocando os vilões apenas pontualmente e mantendo-nos – como os jovens músicos – sem saber o que os bandidos estão tramando.

Ciente da imponência de Stewart desde o princípio (não é à toa que ele é apresentado de forma emblemática, com seu rosto sendo mantido fora de campo por um bom tempo), o filme traz o ator em uma performance assustadora justamente por se mostrar tão controlada, já que raramente eleva a voz e jamais se entrega a histronismos.

Remetendo também a obras como Assalto à 13ª. Delegacia, Green Room é um thriller que manda o espectador para fora da sala exaurido.

Aliás, outro trabalho que esgota psicologicamente o público é o polonês 11 Minutos (11 minut, 2015), de Jerzy Skolimowski, cujo longa anterior, Matança Necessária (Essential Killing), representou para mim um dos destaques do festival de 2010. Aqui, o cineasta cria uma narrativa entrecortada que, brincando com a cronologia da história, nos apresenta a vários personagens enquanto estes atravessam um curto período de tempo (sim, 11 minutos) até que seus caminhos se cruzem.

Não é, claro, algo original (aliás, a única explicação que encontro para a câmera subjetiva usada para representar um cachorro é fazer uma referência a Amores Brutos) – mas que, quando bem construído, normalmente representa um exercício instigante por obrigar o espectador a remontar a ordem dos acontecimentos à medida que a projeção avança. Neste sentido, Skolimowski e a montadora Agnieszka Glinska fazem um trabalho admirável, já que saltam fluidamente de um personagem a outro e também no tempo sem que o filme se torne incompreensível ou aborrecido.

Aliás, créditos também devem ser atribuídos ao fabuloso design de som, que contribui para a tensão crescente da experiência através de ruídos dissonantes que oscilam do mais grave ao mais agudo, impressionando também durante uma panorâmica de 360º que inclui o movimento dos efeitos sonoros pelas caixas do cinema à medida que a câmera muda a direção de seu olhar. Para completar, a construção da complexa mise-en-scène durante o bombástico clímax é impecável, levando cada peça do quebra-cabeças à posição desejada de forma clara enquanto o ritmo criado pela montagem se acelera exponencialmente.

Assim, quando os créditos finais surgem, o impulso imediato que toma conta da plateia é o aplauso – não só pela eficiência do que testemunhou, mas também como uma forma de externar o alívio por ser libertada do tom sufocante concebido pelo realizador.

Não que este seja o único motivo para celebrar o fim de uma projeção – como comprova Entertainment (Idem, 2015), uma tortura em formato digital. Dirigido pelo mesmo Rick Alverson que há três anos comandou o quase tão ruim The Comedy, esta nova estupidez é escrita e estrelada por um sujeito cujo nome quase me faz desejar assistir a algo estrelado por Rob Schneider a fim de limpar o paladar: Gregg Turkington.

Acompanhando um “comediante” cuja persona é uma cópia barata e péssima do Tony Clifton de Andy Kaufman, o roteiro traz o sujeito se apresentando em prisões, bares sujos e feiras miseráveis espalhadas no sudoeste dos Estados Unidos, o que oferece a Alverson a oportunidade de incluir locações imponentes em um projeto que apenas as desperdiça.

Usando o palco para contar “piadas” propositalmente ofensivas (mas infantis) que parecem servir de desculpa para que o sujeito provoque a plateia a fim de dar início a uma discussão, o protagonista consegue ser ainda mais repulsivo em sua personalidade natural, já que o longa demonstra não entender a diferença entre depressão e sociopatia. Como se não fosse o bastante, Entertainment ainda é recheado de diálogos machistas que não podem nem mesmo ser interpretados como uma crítica ao sexismo de seu anti-herói, já que diversos outros personagens ecoam sua postura sem qualquer indício de ironia.

Desperdiçando talentos como os de John C. Reilly e Dean Stockwell (não estou certo de que Michael Cera tenha talento para desperdiçar, Arrested Development e Superbad à parte), o filme compreende o sofrimento que o “comediante” impõe por alguns minutos aos pobres desavisados que comparecem às suas apresentações, mas parece não entender que dor ainda maior é experimentada pelos espectadores do longa em si, que são obrigados a passar intermináveis 110 minutos ao lado de um personagem que não merece o fracasso, mas a mais pavorosa das mortes.

Mas creio que não posso reclamar, já que meu dia contou também com uma surpresa das mais agradáveis: Escritório (Hua lI shang ban zou, 2015).

“Compro, logo existo”, cantam, em certo ponto de Escritório, os funcionários de uma corporação que está prestes a abrir seu capital. Impregnados com a lógica de uma existência devotada ao crescimento da empresa e dos bens materiais que esta fidelidade pode ajudá-los a adquirir, os executivos vistos no novo longa de Johnnie To não hesitam em assumir – ao menos nos versos das canções – uma submissão constante aos “exames de sangue monetários” que determinam seus valores.

Adaptado pela diretora e atriz Sylvia Chang a partir de sua própria peça, o filme é um curioso musical que segue homens e mulheres que reverenciam o milionário patrão (Chow Yun-Fat) de tal forma que, em certo ponto da narrativa, este surge discursando em uma reunião enquanto uma lâmpada fluorescente forma um halo dourado sobre sua cabeça – um dos muitos detalhes de um design de produção que merece ser indicado a todos os prêmios da área.

Investindo numa lógica expressionista que transforma os cenários, os figurinos e a fotografia em representações visuais dos sentimentos daquelas pessoas, Escritório jamais deixa de fascinar em suas opções estéticas: retratando seu universo como um mundo construído a partir de longos neons e lâmpadas fluorescentes que formam apenas metódicos e opressivos ângulos retos, esta obra consegue usar os cenários vazados, de paredes invisíveis, para sugerir ao mesmo tempo a (paradoxal) claustrofobia que experimentam (as linhas verticais sugerem barras) e também sua falta de individualidade.

Exibindo relógios em praticamente todos os ambientes e completando a rima visual e narrativa com um mecanismo gigantesco que ocupa o centro da corporação, marcando com seus ponteiros a correria constante dos funcionários e a maneira com que dedicam todo o seu tempo à produção de capital (não por acaso, ele projeta um som ritmado que sugere o batimento cardíaco), o belo trabalho de To consegue sugerir o relógio até mesmo através da disposição circular das luzes fluorescentes no lobby do prédio, o que – novamente – expõe seu virtuosismo.

Esta abordagem expressionista, claro, complementa perfeitamente a visão brechtiana da narrativa (uma das influências de Bretch foi precisamente o expressionismo), que constantemente subordina a vida pessoal de seus personagens e as relações entre estes à maneira com que desenvolvem seus cotidianos na implacável lógica capitalista da China contemporânea (e é hilário que esta ainda seja considerada “comunista” por tantos). Sem disfarçar seu caráter alegórico, já que logo nos minutos iniciais vemos vários passageiros do metrô se inclinando para ler um volume intitulado “Como Ser o Homem Mais Rico do Mundo”, Escritório comenta com acidez a influência destrutiva da globalização sobre a cultura do país ao trazer executivos que recitam orgulhosos as versões inglesas de seus nomes e ao girar em torno de um jovem cujo sobrenome, que remete a “sonho”, logo se afasta de sua origem idealista à medida que o rapaz sobe na hierarquia da empresa.

Não que o filme vilanize seus personagens, pois faz o possível para evitar fazê-lo: por mais implacáveis que sejam em suas estratégias comerciais, os indivíduos vistos aqui são complexos e capazes de boas ações – o que ressalta a natureza desumanizante do capitalismo em si (ou, no mínimo, o do capitalismo normalmente classificado como “selvagem”), que move pessoas com consciência e princípios a um precipício moral de ganância e competitividade descontrolada.

E tudo em prol de um ciclo interminável, já que, ao final das contas, elas trabalham simplesmente para consumir e consomem para viver algo que, em outro verso tristemente revelador, consiste em construir “um lindo futuro aos olhos dos outros”.

Um sacrifício de nossa humanidade para que nos tornemos meras vitrines do que possuímos.

03 de Outubro de 2015

Leia também os textos anteriores sobre o Festival do Rio: Dia 01.

Abaixo, videocast sobre os longas vistos no segundo dia:

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.