Festivais e Mostras Festival do Rio 2015 - Dia 01

Há uma desorganização típica do Festival do Rio que normalmente considero até charmosa: filmes que custam a ser confirmados, programação publicada na última hora, longas filas nas centrais de ingresso, credenciais de imprensa que deveriam funcionar para compras na Internet e não funcionam, etc, etc, etc.

Este ano, porém, a coisa passou um pouco dos limites: os ingressos se transformaram em folhas de papel A4 (acho que vou ter que comprar uma pasta para carregá-los), o Estação Rio (que já tinha feito a estupidez de transformar suas duas grandes salas principais em quatro salas de tamanho ridículo) saiu do circuito, os cinemas têm critérios diferentes para aceitar credenciais em sessões que não se esgotaram e nem mesmo a vinheta do festival foi exibida antes das projeções (ao menos não no São Luiz, onde passei o primeiro dia).

E, ainda assim, estou felicíssimo por estar aqui. Há um calor humano no público carioca que me contagia e a programação do evento é boa o bastante para originar dias e dias de prazer cinéfilo. Assim, sempre que estou prestes a ficar irritado com mais algum contratempo, penso em como é bom poder passar o dia saltando de uma projeção a outra e compartilhando o amor pelo Cinema com tanta gente bacana e imediatamente me acalmo (além, claro, de ter recebido o carinho de vários alunos e leitores neste primeiro dia no Rio).

Não que eu tenha sido particularmente sortudo ao selecionar a sessão que abriria meu festival, já que meu primeiro longa visto foi o medíocre mexicano Sociedade Indiferente (Un monstruo de mil cabezas, 2015), de Rodrigo Plá. Contando com um início promissor ao já mergulhar o espectador no cotidiano tenso e triste de Sonia Bonet (Jana Raluy), cujo marido encontra-se em estágio avançado de câncer, o filme investe seu primeiro ato nas tentativas feitas pela mulher para entrar em contato com o médico contratado por seu plano de saúde e responsável por aprovar um novo tratamento capaz de prolongar a vida do paciente. Frustrada em função da burocracia e mesmo do descaso exibido para com sua família depois de pagar o plano por 16 anos, Sonia acaba indo até a residência do oncologista e, num impulso, sequestrando-o.

A partir daí, tanto a protagonista quanto o roteiro se perdem, abandonando qualquer tentativa de fazer um comentário social e humano relevante e partindo para um exercício de gênero frágil e implausível. Para piorar, a estrutura adotada pelo projeto, que ocasionalmente pontua a ação com um voice over extraído do julgamento de Sonia, acaba por eliminar qualquer possibilidade de tensão ao já entregar o que virá a acontecer.

O que é uma pena, já que Sociedade Indiferente inicialmente parece realmente determinado a expor os abusos de um sistema porcamente regulamentado e que leva, por exemplo, a atitudes repugnantes como a oferta de bônus para funcionários que recusarem maior número de solicitações de clientes – denúncias que terminam diluídas em eventos mais preocupados com o suspense (jamais alcançado) do que com os dilemas reais enfrentados por sua personagem principal.

Se esta tivesse sido a única decepção do dia, porém, eu ficaria satisfeito. Contudo, o pior estava por vir com o ridículo Schneider Vs. Bax (Idem, 2015), que o cineasta holandês Alex van Warmerdam obviamente julga se tratar de uma comédia de humor politicamente incorreto (que antigamente era chamada de forma igualmente politicamente incorreta de “humor negro”), mas que acaba provocando apenas o puro desconforto. A história, pouco original, acompanha dois assassinos profissionais que são colocados um contra o outro por motivos jamais esclarecidos: um é um pai de família que está comemorando seu aniversário (Tom Dewispelaere); o outro, um escritor (o próprio diretor) que está enfrentando dificuldades com a filha depressiva (Maria Kraakman).  Através de uma série de desencontros, coincidências e reviravoltas, mais e mais personagens vão se juntando à trama, mas, com a exceção da desafortunada prostituta Gina (Annet Malherbe, único ponto forte do elenco), jamais contribuem para melhorar a experiência.

O principal erro do longa, claro, é superestimar a própria capacidade de extrair humor de elementos pesados – algo que Warmerdam conseguiu fazer um pouco melhor em seu trabalho anterior, Borgman. Porém, a partir do instante em que vemos uma neta esfaqueando o avô que a submetia a abusos sexuais desde a infância... bom, seria preciso alguém como os irmãos Coen para sequer tentar transformar a situação em algo com uma chance mínima de despertar o riso mesmo através do desconforto. No entanto, Warmerdam não se chama Coen e, assim, o filme só incomoda – e nem mesmo de uma maneira instigante.

Sim, há um ou outro momento divertido (normalmente protagonizados por Malherbe) e o cineasta merece créditos por fugir do óbvio e investir numa narrativa fartamente iluminada e com um design de produção carregado de branco mesmo seguindo eventos tão sombrios. Fora isso, porém, Schneider vs. Bax é apenas uma estupidez que tenta ser transgressora, mas que se revela apenas infantil.

Não que temas, personagens e uma atmosfera infantil não possam gerar um projeto maduro, complexo e com conotações sombrias – e basta assistir a Micróbio e Gasolina (Microbe et Gasoil, 2015), de Michel Gondry, para constatar isso. Acompanhando os dois adolescentes do título (vividos com talento por Ange Dargent e Théophile Baquet), o filme é hábil ao retratá-los como jovens precoces sem que, com isso, soem como aquelas crianças irritantes do Cinema que falam e se comportam como adultos. Inteligentes, sensíveis e – justamente por isso – sentindo-se pouco à vontade entre os colegas da mesma idade, Daniel e Theo (apelidados na escola de Micróbio e Gasolina em função da pequena estatura e do cheiro exalado, respectivamente) mantêm discussões ambiciosas sobre a natureza da morte e do amor, mas sem que estas deixem de ser temperadas pela ingenuidade que esperaríamos de indivíduos tão jovens.

Apoiando-se mutuamente diante da pressão cotidiana que enfrentam em casa e na escola, os garotos decidem sair numa viagem pelas estradas francesas e, para isso, constroem um pequeno veículo cujo exterior se passa por uma casa a fim de enganar as autoridades – e que acaba inspirando algumas das melhores gags visuais do projeto.

Encontrando pontos em comum mesmo vindo de famílias completamente distintas (a magreza e o carinho excessivo da mãe de Daniel – vivida por Audrey Tautou – se contrapõem à obesidade e ao descaso da de Theo – interpretada por Jana Bittnerova), os adolescentes são surpreendidos por diversos obstáculos curiosos que, vez por outra, dão a impressão de terem sido adicionados ao roteiro com o único propósito de estenderem um pouco mais a história (o que provavelmente é verdade), o que não impede que funcionam.

Em contrapartida, se Gondry é normalmente um cineasta inventivo que cria imagens marcantes não só através de efeitos práticos, mas do design de produção e dos figurinos, aqui a narrativa surge convencional, o que não deixa de ser um pouco decepcionante, deixando de fazer jus à atmosfera leve e lúdica criada pelo diretor.

Para finalizar, este primeiro dia também contou com uma obra memorável: o espanhol Pecados Antigos, Longas Sombras (La isla mínima, 2014), um filme que, sob a superfície de suspense policial, constrói um painel complexo de um país lidando com feridas que jamais fecharam. Co-escrito pelo diretor Alberto Rodríguez ao lado de Rafael Cobos, o longa é ambientado alguns anos depois da morte do general Franco, quando, no início da década de 80, dois detetives são enviados a um pequeno vilarejo com o objetivo de investigar o desaparecimento de duas adolescentes. Quando os corpos das garotas são descobertos e histórias de crimes antigos vêm à tona, porém, Pedro (Raúl Arévalo) e Juan (Javier Gutiérrez) percebem estar envolvidos na caça a um serial killer que pode ou não ter ligação com uma conspiração local para explorar sexualmente as jovens da vila.

Como trama policial, Pecados Antigos é uma obra tensa, bem estruturada e intrigante – virtudes, claro, importantíssimas em um exemplar do gênero. No entanto, a beleza do filme é que estas nem são suas maiores qualidades, que residem na complexa e reveladora dinâmica entre os dois policiais. Representantes de culturas políticas diametralmente opostas, Pedro e Juan formam o elemento clássico de um filme policial: os parceiros que se desentendem, mas se complementam e desenvolvem um respeito mútuo. Enquanto o primeiro, mais jovem, foi enviado para o interior como punição por ter publicado uma carta num jornal de Madri contra um general, o segundo, bem mais pragmático, busca se afastar de questionamentos políticos embora, aos poucos, percebamos que seu envolvimento com a ditadura de Franco foi mais profunda do que sugere.

Aliás, não é à toa que, ao chegarem no pequeno hotel que lhes servirá de lar nas semanas seguintes, eles encontram, no quarto, um crucifixo que traz, colados na madeira, retratos de Franco e Hitler, evidenciando que a democracia pode ter chegado à Espanha depois de 35 anos de ditadura, mas não sem deixar resquícios fortíssimos de sua lógica e de sua influência (o que a punição a Pedro comprova). Assim, Rodríguez aponta como a falta de um processo de reparo pelos abusos cometidos pela ditadura contribuem para manter o país em um estado de cicatrização interrompido: os algozes podem ter sido removidos do poder, mas as feridas que provocaram permanecem escancaradas e cheias de pus.

Mas Pecados Antigos, Longas Sombras (como adoro esse título em português) não simplifica a questão nem seus personagens: Pedro pode ser idealista, mas ressente-se do preço que paga por isso, enquanto Juan, mais eficaz em seus métodos, parece estar sempre em busca de uma redenção por suas ações desprezíveis em prol da ditadura à qual serviu.  Além disso, a falta de ética nas ações da dupla sugere um país institucionalmente corrompido pelas décadas de brutalidade: eles prendem suspeitos sem mandados, grampeiam telefones ilegalmente e torturam testemunhas com a certeza de uma impunidade remanescente da autoridade que antes detinham (algo que muitos elementos da PM brasileira – uma criação de nossa ditadura – repetem por aqui, como podemos acompanhar todos os dias através do noticiário).

Construindo uma atmosfera de melancolia contínua, Rodríguez e seu diretor de fotografia Alex Catalán adotam uma paleta triste e dessaturada que, pontuada por elementos de intensa cor vermelha (uma rima visual óbvia, mas não menos eficaz, que remete à violência do presente e do passado), estabelecem o longa como um trabalho visualmente fascinante. Para completar, o cineasta obviamente faz referências ao magistral sul-coreano Memórias de um Assassino logo em seus momentos iniciais ao trazer os detetives percorrendo uma pequena estradinha de terra situada ao longo de um extenso arrozal – uma das várias similaridades entre as duas obras.

As paisagens naturais, diga-se de passagem, são instrumentais na estratégia narrativa do filme: constantemente, somos apresentados a planos gerais que descortinam o ambiente e que criam um ótimo contraste com as decadentes intervenções humanas, como casas abandonadas ou mesmo em ruínas (outro eco de um passado destrutivo).  Da mesma maneira, é interessante perceber como Rodríguez parece obcecado pela imagem de garças (avermelhadas, claro) em revoada, o que complementa perfeitamente a obsessão das jovens do vilarejo em abandonar o lugar num sonho de migração que resulta em tragédia.

Trazendo os personagens sempre com as peles cobertas por suor (sugerindo um calor sufocante que contamina o espectador), Rodríguez também inclui, em seu excelente filme, sequências de perseguição atípicas e profundamente eficientes em pântanos e sob a chuva – e não apenas aquela que encerra a projeção, mas outra, que traz uma tentativa de seguir um carro à noite, representam momentos absolutamente memoráveis.

Pontuado por fabulosos planos aéreos que, em plongée, transformam a geografia local em quadros que quase flertam com o abstrato, Pecados Antigos complementa sua riqueza narrativa ao usá-los de forma autenticamente lynchniana ao sugerir que, sob a beleza deste mundo magnificamente belo em que vivemos, há constantemente a intromissão destrutiva e desfigurante de indivíduos que, infelizmente, deixam suas marcas por muito, muito tempo.

Vejo vocês amanhã com comentários sobre o segundo dia do festival.

Um grande abraço e bons filmes!

02 de Outubro de 2015

(Ah, confiram também o vídeo que gravei sobre o primeiro dia:

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.